Samuel Úria e Rui Reininho encerram ''Conta-me Uma Canção'' 2026 com sala esgotada

A edição de 2026 do "Conta-me Uma Canção" terminou no passado dia 17 de fevereiro com chave de ouro. A dupla formada por Samuel Úria e Rui Reininho esgotou a sala do Teatro Maria Matos meses antes do espetáculo, confirmando a expectativa em torno de um encontro que prometia e cumpriu música, histórias e uma cumplicidade rara em palco.
O concerto arrancou com uma surpresa: "Em Caso de Fogo", de Úria, trocou as voltas ao alinhamento inicialmente previsto e abriu uma noite marcada, acima de tudo, pela admiração mútua e por uma amizade onde a ironia é idioma comum. Reininho assumiu depois o microfone para interpretar "Homens Temporariamente Sós", momento que serviu de mote para Samuel contar a história do primeiro encontro entre ambos: no Estádio do Jamor, numa final da Taça de Portugal entre FCP e Leiria. Apesar das cores clubísticas distintas, prevaleceu a simpatia — um prenúncio da relação artística que ali se consolidaria. Mais tarde saberíamos que a apresentação formal foi feita por Inês Meneses, na Avenida da Liberdade, desta vez sem claques nem rivalidades.
Acompanhado em palco por Rui Maia, Reininho brindou o público com "Piloto Automático", coroado por um afinado e entusiástico refrão em uníssono ("vodka, vodka"). Seguiram-se "Um Adeus Português" e "Era de Ouro", ambas do mais recente disco de Samuel Úria, 2000 A.D.. A viagem prosseguiu com "Yoko Mono" e "Fartos do Mar", retiradas de Companhia das Índias, trabalho a solo de Reininho onde o músico explora novas sonoridades, afastando-se do registo mais reconhecível da sua banda de sempre, os GNR, e abraçando uma abordagem eletrónica e experimental. Foi também aqui que surpreendeu ao tocar bongós, emprestados por Benjamim, artista que participara numa sessão anterior do mesmo ciclo.
O segmento dedicado à interpretação de temas de outros artistas coube a Samuel Úria, que escolheu "Borbulhas de Amor", versão portuguesa de "Borbujas de amor", de Juan Luis Guerra. A escolha arrancou gargalhadas e aplausos, num equilíbrio entre devoção e irreverência. Seguiu-se uma inesperada reinvenção de "Belle Vue", original dos GNR, transformada por Úria numa delicada balada, não sem antes sublinhar a generosidade de Reininho, que no início dos anos 2000 aceitou o convite da editora FlorCaveira para atuar na sua festa de Natal. Houve ainda espaço para uma imitação de Morrissey, evocada com a ironia fina que caracteriza o vocalista portuense.
Na reta final, Rui Reininho interpretou "Teimoso", de Samuel Úria, acompanhado pelos coros fervorosos da plateia. Úria respondeu com "Fusão", Reininho trouxe "Sete Naves" e, juntos, uniram vozes em "Inferno", de Roberto Carlos, que parecia destinada a encerrar a noite. Contudo, perante uma ovação que se recusava a dissipar-se, houve novo desvio ao alinhamento: uma versão impromptu de "Usa", recebida com entusiasmo redobrado.
Entre canções e histórias, confirmou-se a essência do "Conta-me Uma Canção": a música confundida com as narrativas que a moldam. Nesta edição de 2026, nomes como Clã, Sérgio Godinho, Benjamim, Tozé Brito, Rui Reininho e Samuel Úria contribuíram para três sessões distintas, mas unidas pela celebração da palavra e da melodia. O regresso já está prometido para o próximo ano, reafirmando que a Canção escrita com maiúscula continua viva, recomendável e capaz de surpreender.
© O Colectivo | Fotos: Joana Linda
