Recante renovam o Cante Alentejano na Casa do Alentejo

No passado dia 28 de fevereiro, a Casa do Alentejo, em Lisboa, foi palco de uma noite memorável, onde tradição e inovação se cruzaram de forma intensa e envolvente.
Perante mais de 400 espectadores, distribuídos por duas sessões esgotadas, os Recante – constituídos por Maria João Jones, Luís Caracinha, Miguel Guerreiro e Ivo Martins – apresentaram um espetáculo que reinventou o diálogo entre as modas e o cante tradicional e uma estética sonora contemporânea, revelando uma linguagem própria, simultaneamente fiel às raízes e inquieta.
Sem nunca desvirtuar a essência que os sustenta, o grupo trouxe ao palco uma proposta que honrou a tradição alentejana, mas que também a revisitou com sensibilidade e intenção. A voz de Maria João Jones destacou-se como fio condutor do espetáculo, ecoando a memória coletiva de um povo marcado pelo trabalho, cultura e união. A mensagem foi clara: o Alentejo está vivo e pleno de vitalidade.
O concerto contou com convidados especiais que enriqueceram a experiência. Vértebra, o duo formado por Kijota e Tiago Marcos, abriu a noite levando o público numa viagem poética pelas planícies alentejanas. O Grupo Coral Raízes do Cante acompanhou os Recante em grande parte do repertório, acrescentando autenticidade e força coletiva. Também Ana Valadas, David Garcez e António Barradinhas subiram ao palco, oferecendo diferentes cores e abordagens num diálogo artístico sensível e harmonioso.
Ao longo de mais de uma hora e meia, sucederam-se modas e cantigas tradicionais que não foram apenas ouvidas, mas vividas e partilhadas pelo público. Temas como "Erva Cidreira", "É Tão Grande o Alentejo", "Dá-me uma Gotinha de Água" e "Menina Estás à Janela" transformaram a plateia numa extensão do palco, criando uma experiência de proximidade e envolvimento único.
A noite ficou ainda marcada pela estreia de "Correio da Manhã", o primeiro tema autoral do grupo, que assinala um novo passo na sua trajectória criativa e reforça a identidade artística dos Recante.
Mais do que um concerto, o evento confirmou o caminho que o grupo tem vindo a traçar: um espaço de encontro entre passado e presente, onde o cante tradicional se funde com uma sonoridade contemporânea capaz de transportar o público entre a planície alentejana e a vida urbana.
Com simplicidade e emoção, os Recante provaram que a tradição alentejana não precisa de se conformar aos tempos, podendo reinventar-se sem perder as suas raízes. Entre melodia e memória, a noite na Casa do Alentejo reafirmou que o cante continua a ser uma força viva, aberta ao futuro sem esquecer o passado.
Epopeia | Fotos: Mafalda Castro
