Entrevista com Zinha

Depois de conquistar o público com a sua autenticidade e sensibilidade, Zinha apresenta The Past Tense, o seu primeiro álbum de originais. Um disco profundamente autobiográfico, onde a saudade, o luto, a perda e a aceitação ganham voz através de oito canções intimistas. Nesta conversa, a cantora e compositora fala sobre o processo de criação, a importância da vulnerabilidade, a experiência no The Voice Portugal e os sonhos que ainda pretende concretizar.
Acabaste de lançar o teu primeiro álbum, The Past Tense. Que significado tem este trabalho nesta fase da tua carreira?
Neste momento, sinto que este álbum representa um recomeço. É o reflexo de uma fase em que percebi que mudei, tanto enquanto artista como enquanto pessoa. Houve uma verdadeira transição na minha vida e acredito que, ao mudar de espaço e de realidade, também cresci muito. Este disco é precisamente isso: uma forma de compreender quem sou hoje e de abraçar essa nova versão de mim.
O álbum aborda temas como a saudade, a perda e a vulnerabilidade. Porque sentiste necessidade de explorar estas emoções?
Ao longo da vida vamos vivendo experiências que nos apresentam sentimentos novos e, por vezes, muito mais intensos do que imaginávamos. Quando me deparei com essas emoções, como o luto ou a saudade, senti necessidade de as transformar em música. Foi a forma que encontrei de exteriorizar aquilo que vivi e, ao mesmo tempo, de partilhar essa realidade com quem me ouve.
Já disseste que a vulnerabilidade é muitas vezes vista como algo a esconder. O que te levou a colocá-la no centro deste álbum?
Durante muito tempo preocupei-me demasiado com aquilo que os outros poderiam pensar quando mostrasse o que realmente sentia. Tinha medo de revelar esse lado mais frágil. No entanto, percebi que a arte vive precisamente dessa verdade. Quando aceitei isso, compreendi que a minha vulnerabilidade podia deixar de ser uma fraqueza para se tornar na minha maior força. Hoje acredito que esse é, talvez, o meu superpoder.
O título The Past Tense remete inevitavelmente para o passado. Até que ponto este álbum é autobiográfico?
É um álbum profundamente autobiográfico. Diria até que, por vezes, chega a ser assustador pela forma como expõe aquilo que vivi. É quase um despir de preconceitos, receios e pensamentos que fui acumulando ao longo dos anos. É, sem dúvida, o trabalho mais honesto que alguma vez fiz.
Consideras que este disco representa uma forma de cura ou, acima de tudo, de aceitação?
Mais do que cura, representa aceitação. Muitas vezes queremos resolver emoções que ainda nem tivemos tempo de interiorizar. Este álbum ajudou-me a perceber que tudo faz parte do processo. Há momentos difíceis que simplesmente precisam de ser vividos e compreendidos. Faz parte do caminho de qualquer pessoa.
"Forever" é considerada a faixa central do álbum. O que torna esta canção tão especial para ti?
É uma música muito especial porque nasceu da perda de uma das pessoas mais importantes da minha vida. Fala daquele momento em que percebemos que existem decisões irreversíveis e que, por isso, devemos aproveitar ao máximo o tempo que temos com quem amamos. É uma canção muito emocional e muito verdadeira.
Entre as oito músicas do disco, foi também a mais difícil de escrever?
Sem dúvida. Não apenas de escrever, mas também de gravar. Em estúdio foi muito difícil conseguir transmitir toda a carga emocional da música e, ao mesmo tempo, manter algum controlo sobre aquilo que estava a sentir. Foi um enorme desafio.
Ao longo do álbum revelas várias facetas da tua personalidade artística. Como as defines?
Existe uma Zinha muito vulnerável, outra mais melancólica, mas também há uma Zinha forte, confiante e determinada. Acho que todas essas versões fazem parte de mim e convivem naturalmente neste disco.
Quando compões, costumas começar pela letra ou pela melodia?
Depende completamente do momento. Já aconteceu estar em Inglaterra, durante o trabalho, pegar num simples talão e começar a escrever um poema. Noutras alturas, começo por pegar na guitarra, encontrar uma sequência de acordes e deixar que a letra apareça depois. Não existe uma fórmula.
Nasceste em Lisboa e estudaste no Reino Unido. De que forma estas duas realidades influenciaram a artista que és hoje?
Acredito que essa multiculturalidade teve um enorme impacto em mim. Permitiu-me conhecer diferentes formas de pensar, de sentir e de interpretar o mundo. Contactar com pessoas de várias culturas ajudou-me a desenvolver uma maior sensibilidade artística e uma capacidade de olhar para as emoções sob diferentes perspetivas. Isso é algo que considero fundamental para qualquer artista.
O teu percurso inclui a participação no The Voice Portugal. O que aprendeste com essa experiência?
O The Voice Portugal foi muito importante porque me mostrou aquilo que ainda me faltava enquanto artista. Percebi que precisava de trabalhar a minha confiança, a minha presença em palco e a forma como comunicava com o público. Foi uma experiência muito enriquecedora.
Sentes que o programa foi determinante para reforçar essa confiança?
Sem dúvida. Mais do que me dar confiança, ajudou-me a perceber que ela ainda não existia. Foi o ponto de partida para reconhecer essa fragilidade e começar a trabalhar nela. Hoje sinto que cresci muito graças a esse processo.
Como foi a transição de estudante de música para autora e intérprete dos teus próprios temas?
Na verdade, escrever sempre fez parte da minha vida. Ainda antes de estudar música já escrevia e cantava. O curso que frequentei em Inglaterra era muito prático, estávamos constantemente envolvidos em projetos e isso permitiu-me ganhar experiência no terreno. Nunca deixei de compor e essa evolução aconteceu de forma muito natural.
Como foi trabalhar com o produtor Ricardo Ferreira e com a Blim Records na criação deste álbum?
Foi uma experiência completamente nova para mim. Nunca tinha trabalhado num ambiente de estúdio tão colaborativo, rodeada por várias pessoas que contribuíam para fazer crescer cada música. Foi extremamente enriquecedor, tanto a nível artístico como pessoal. Senti que evoluí muito durante todo o processo e descobri novas formas de olhar para a minha própria música.
Quais são as tuas maiores influências musicais dentro do universo R&B, Soul e Pop?
Cresci rodeada de música Soul. Lembro-me de ouvir muitos discos do James Brown e várias compilações que existiam lá em casa. Mais tarde apaixonei-me pela Mariah Carey e, atualmente, considero o Justin Bieber uma das minhas maiores inspirações. Também admiro muito artistas como Usher, Chris Brown e Lauryn Hill, que marcaram profundamente a minha forma de sentir e interpretar a música.
O álbum tem recebido reconhecimento internacional, com destaque para o apoio da BBC UK Radio e da Smote FM. Como recebeste esse reconhecimento?
Foi uma enorme alegria. Sinto um orgulho muito grande por tudo aquilo que temos conseguido alcançar. Faço questão de dizer "temos", porque este percurso não é feito sozinho. Tenho uma equipa extraordinária, a Inartéria tem sido fundamental na divulgação do meu trabalho e a Blim Records desempenhou um papel essencial em todo este processo. Ver este projeto ultrapassar fronteiras faz-nos acreditar que criámos algo com verdadeiro propósito e qualidade.
O que mais te surpreendeu na reação do público desde o lançamento do álbum?
A maior emoção foi poder cantar estas músicas ao vivo. Durante a tour pelas lojas FNAC consegui perceber, através das reações das pessoas, o impacto que estas canções podem ter. Foi muito especial sentir essa ligação tão direta com o público e perceber que cada música encontra um significado diferente em quem a escuta.
O que podemos esperar da Zinha nos próximos meses?
Podem esperar uma Zinha muito ativa, com uma enorme vontade de subir aos palcos, de cantar e de continuar a partilhar a sua música. Quero levar estas canções a cada vez mais pessoas, apresentar novos temas e continuar a crescer dentro do panorama musical. O objetivo é continuar a criar música com significado e chegar ao coração de quem me ouve.
Se tivesses de resumir The Past Tense numa única frase para quem ainda não o ouviu, qual seria?
Diria que The Past Tense é um convite para sentirmos sem medo. É um álbum sobre aceitar todas as emoções, mesmo as mais difíceis, e compreender que fazem parte daquilo que somos.
Com The Past Tense, Zinha apresenta-se sem máscaras nem receios. O seu álbum de estreia é um retrato íntimo de crescimento, aceitação e coragem, onde cada canção nasce de experiências reais e emoções profundas. Entre o Soul, o R&B e a Pop, a artista constrói uma identidade própria, marcada por uma interpretação intensa e uma escrita genuína.
Depois da passagem pelo The Voice Portugal e do reconhecimento internacional através de rádios como a BBC UK Radio, Zinha afirma-se como uma das vozes mais promissoras da nova geração da música portuguesa. Se este primeiro álbum é um recomeço, como a própria o descreve, tudo indica que o futuro reserva capítulos ainda mais marcantes para uma artista que encontrou na vulnerabilidade a sua maior força.
