Descoberta
nas ruas de Lisboa depois de uma passagem pelo The Voice, ZINHA tem
vindo a afirmar-se como uma das novas vozes mais emotivas do panorama nacional.
Entre a formação em Inglaterra, a vivência multicultural e um percurso marcado
por autenticidade, a cantora e compositora fala-nos sobre o seu processo
criativo, influências e o peso emocional por detrás do seu novo single, Forever.
Foste descoberta na rua em 2025 pela InArtéria. Como
começou essa história?
É verdade.
Depois de participar no The Voice, quando regressei a Portugal após
alguns anos a estudar música em Inglaterra percebi que tinha um bloqueio:
faltava-me ligação com o público. Senti que precisava de me desafiar e pensei:
"Porque não ir para o Chiado cantar e pôr-me à prova?". E foi assim que tudo
começou.
Ganhei o
gosto por estar ali, por montar o meu espaço e cantar as músicas de que mais
gosto. Foi um processo muito natural.
Em Inglaterra trabalhavas num restaurante e gravaste
as primeiras músicas num estúdio no mesmo edifício. Como era essa fase?
Sim, era
curioso, trabalhava num restaurante e, mesmo por cima, havia um estúdio onde
comecei a gravar. Vivia em Coventry e trabalhava em Warwick. Foi uma fase de
muito esforço, mas também de descoberta.
Fui para
Inglaterra com 19 anos, decidida a estudar música e a fazer disto vida. Tive de
conciliar trabalho com os estudos, mas nunca deixei de cantar, participava em jam
sessions e tudo o que surgisse.
Como nasce uma canção tua: primeiro a letra ou a
música?
Depende, mas
normalmente começa com um sentimento ou uma frase. Sou muito reativa
emocionalmente quando sinto algo intenso, pego logo na guitarra, começo a
explorar acordes e a escrever. O processo vai-se construindo a partir daí.
Qual é o teu principal instrumento?
A voz, sem
dúvida. A guitarra e o piano vêm depois, como apoio.
Cresceste em Lisboa e viveste no Reino Unido. Como é
que essas experiências te moldaram?
Lisboa deu-me
raízes, cresci numa família muito unida, com três irmãos, e a música entrou
cedo na minha vida, até através da igreja, onde comecei a cantar. Isso
ensinou-me a dar intenção e emoção às palavras.
Já
Inglaterra trouxe-me uma perspetiva completamente diferente,
multiculturalidade, maturidade e uma abordagem mais realista à música.
O que aprendeste lá fora que ainda falta em Portugal?
Acho
importante que as indústrias sejam diferentes, isso preserva a identidade
cultural. Mas em Inglaterra sente-se uma maior abertura à diferença, à
autenticidade, ao "sair da caixa". Essa diversidade torna tudo mais rico.
Quais são as tuas influências?
Sempre
gostei muito de soul e groove. Artistas como Lauryn Hill
marcaram-me bastante, há uma verdade emocional na forma como interpretam que eu
procuro também alcançar.
Mas não me
limito ao R&B. Gosto muito de pop e já explorei bossa nova. Prefiro não me
prender a um género.
Quem ouvir as tuas músicas nas plataformas encontra
versões muito despidas, quase cruas. É intencional?
Sim.
Acredito que uma canção deve funcionar na sua forma mais simples, voz e
instrumento. Isso revela a sua verdadeira força. É importante para mim conseguir
ir do mais produzido ao mais essencial.
Como foi a reação da tua família quando decidiste
seguir música?
Cresci a
pensar que não era um caminho possível. Cheguei a entrar em Direito, mas
percebi rapidamente que não era o meu caminho.
Quando disse
ao meu pai que é juiz e que ia desistir, ele respondeu: "Vai. Sê feliz." Foi um
dos momentos em que mais me senti apoiada.
Participaste no The Voice. Foi um ponto de
viragem?
Sim. Foi um
choque de realidade, estar rodeada de pessoas que via na televisão fez-me
perceber que isto podia mesmo acontecer. E foi acontecendo, passo a passo.
Sentes que já encontraste a tua identidade artística?
Acho que é
um processo contínuo. Estamos sempre a mudar e isso reflete-se na música. Ainda
estou em descoberta e acredito que isso nunca vai parar.
Como funciona o teu trabalho em estúdio?
Levo ideias,
letras, emoções. Trabalho com o Vasco e o Ricardo da BLIM, e confio muito
neles. Construímos as músicas em conjunto, a partir das histórias que levo.
O teu novo single, Forever, tem uma forte carga
emocional. Qual é a história por detrás?
É uma música
muito pessoal. Fala de uma relação que tive, vivemos juntos durante quatro
anos. Quando regressei a Portugal, senti que precisava de me reencontrar e
acabei por me afastar.
Meses
depois, descobri que essa pessoa tinha cancro. Acabou por falecer. Forever
é para ele.
Foi difícil gravar?
Muito. Foi
das experiências mais duras que tive em estúdio. Nunca tinha perdido ninguém
tão próximo. Mas também senti necessidade de transformar essa dor em algo
verdadeiro.
O que gostarias que o público sentisse ao ouvir Forever?
Verdade e
amor.
O teu álbum de estreia chega em breve. Sentes que o
público português está preparado?
Tenho
sentido muito apoio, um "calorzinho" especial. Mas sei que este é um caminho de
crescimento, com desafios. Como diz o meu manager, são as "dores de
crescimento". Com trabalho e resiliência, acredito que tudo é possível.
Para terminar: porquê o nome ZINHA?
Sempre fui a
"Luizinha" lá em casa, a mais pequena. As minhas irmãs começaram a chamar-me
"Zinha" e ficou. É simples e é exatamente aquilo que sinto que sou.