Entrevista com Vítor Lusquiños

Depois de vários anos ligado a diferentes projetos musicais, Vítor Lusquiños estreia-se finalmente a solo com Margem da Lei, um tema leve, solar e carregado de boas vibrações. Numa conversa descontraída, o músico fala-nos sobre esta nova fase da carreira, das influências que o acompanham, da paixão pela música orgânica e da vontade de criar canções feitas para cantar alto na estrada.
Depois de vários anos ligado a projetos coletivos, o que te levou finalmente a dar este passo a solo?
Olá Ricardo. Vou ser muito sincero: esta ideia já andava comigo há muito tempo. Sempre adorei todos os projetos dos quais fiz parte, mas existia um "bichinho" de falar por mim, sozinho, de dizer exatamente aquilo que penso e sinto. Chegou uma altura em que já não fazia sentido esperar mais e foi daí que nasceu este primeiro single.
Margem da Lei marca o início de uma nova fase da tua carreira. O que revela este tema sobre o Vítor de hoje?
Marca o início do meu primeiro álbum a solo e de um trabalho bonito, pelo menos é isso que espero. É uma música muito ligada àquilo que sou atualmente, tanto musicalmente como na forma de encarar a vida.
Disseste que a canção nasceu de um momento inesperado. Como surgiu exatamente Margem da Lei?
Ainda há pouco estava a contar isso. Cheguei aqui de mota, adoro andar de mota quando está bom tempo mas a minha namorada tem muito medo e nunca vai comigo.
Numa dessas viagens surgiu-me a frase: "Um dia hei-de roubar um carro, porque senão tu não vens comigo a lado nenhum." A partir daí nasceu a música. Primeiro veio essa ideia e depois o resto da letra acabou por aparecer naturalmente.
Há uma energia muito leve e descontraída neste single. Era importante começares esta fase com uma música mais luminosa?
Sim, completamente. Este álbum vai muito ao encontro daquilo a que eu gosto de chamar "música para cantar alto no carro". Música de viagem, leve, com melodias que as pessoas possam cantar juntas. É muito essa a energia deste trabalho.
Musicalmente encontramos aqui um registo pop acústico bastante acessível e radio-friendly. Foi uma escolha consciente?
Não no sentido de pensar "vou fazer uma música para rádio". Não foi algo programado. É simplesmente a minha personalidade musical.
Adoro música acústica, adoro instrumentos orgânicos e gosto que tudo seja tocado de forma real. Naturalmente isso acaba por criar essa sonoridade mais acessível e próxima das pessoas.
O público conheceu-te primeiro através do projeto Vai e Vem. Que memórias guardas dessa fase?
Guardo tudo com muita saudade. Volta e meia ainda ouço essas músicas e felizmente continuam a tocar. Foi uma fase muito importante porque me ensinou bastante sobre o mundo da música e sobre a forma como tudo funciona.
Além disso, deu-me uma bagagem emocional e artística que hoje me permite lançar música de forma independente.
Depois do fim do Vai e Vem, criaste o MusicLab. O que te motivou a investir numa escola de música com uma visão tão inclusiva?
Eu estudei no Conservatório de Música, um ambiente mais clássico e exigente, com avaliações e alguma pressão. Gostei muito e aprendi imenso, mas sentia falta de uma alternativa mais leve e acessível.
Há muitas pessoas que querem aprender música de forma descontraída, quase como hobby, e que já não se identificam com o ensino tradicional. Foi por isso que criei o MusicLab: um espaço onde qualquer pessoa possa aprender o estilo de música que gosta.
Temos alunos desde os três até aos oitenta e cinco anos, e isso diz muito sobre o espírito da escola.
Ensinar música mudou a forma como olhas para a criação artística?
Sem dúvida. Ensinar é uma enorme aprendizagem para quem ensina. Temos de nos adaptar às personalidades de cada pessoa e tentar descobrir o melhor de cada aluno. Isso acaba sempre por nos enriquecer enquanto músicos e enquanto pessoas.
Paralelamente integraste os Manta. O que trouxe esse projeto à tua evolução musical?
Os Manta são um projeto completamente diferente e isso é ótimo. Acho que ninguém é uma coisa só. Todos temos várias facetas.
Apesar da minha carreira a solo ser mais pop acústico, eu adoro hip hop e rock, e os Manta representam precisamente esse lado mais forte da minha personalidade musical.
Este novo álbum será mais autobiográfico do que os trabalhos anteriores?
Os trabalhos anteriores já tinham muito de autobiográfico, mas existiam sempre outras pessoas envolvidas no processo. Agora sou apenas eu, portanto este disco será inevitavelmente mais pessoal.
Quando escreves canções, partes primeiro da melodia ou da letra?
Sempre da letra. Já tentei começar pela melodia, mas nunca consegui.
Há artistas que tenham influenciado esta nova identidade sonora?
Sim, claro. Mesmo sem querer, acabamos sempre influenciados pelos artistas de que gostamos. No meu caso, nomes como Miguel Araújo ou Tiago Bettencourt acabam por surgir naturalmente como referências.
Trabalhaste este single com Luís Costa. Como foi essa parceria?
O Luís é um grande amigo, um excelente guitarrista e também um ótimo produtor. Estamos a trabalhar juntos em todo o álbum.
Os dias de estúdio acabam por ser sempre dos melhores dias da semana. É um processo muito especial.
Falas muito da importância de criar músicas que façam as pessoas sentir-se bem. A música continua a ser um espaço de escape?
Ouvir música será sempre um escape para mim. Quando alguém escreve músicas mais tristes, talvez aí exista mais essa necessidade de libertação.
No caso das músicas alegres, sinto mais como uma celebração dos dias bons. Quase como transformar um momento feliz numa festa.
O álbum já está concluído?
Ainda está em construção. Já temos mais de metade pronta, mas este é um processo que exige calma. Às vezes fazemos uma música e passado um mês percebemos que afinal não faz sentido incluí-la.
Não queremos apressar nada.
O que podemos esperar dos próximos temas?
Vai existir continuidade nesta sonoridade pop acústica, mas também haverá músicas com uma energia mais forte, quase numa mistura entre pop e rock. Ainda assim, será sempre um disco muito orgânico, com instrumentos reais.
Depois de tantos anos ligados à música, o que continua a entusiasmar-te mais?
A reação do público. Seja positiva ou menos positiva, continua a deixar-me nervoso, mas é um nervosismo bom. São aquelas "borboletas" que fazem tudo valer a pena.
Para quem ainda não ouviu Margem da Lei, o que não pode perder neste novo capítulo?
Diria que é uma música divertida, fácil de ficar no ouvido e perfeita para acompanhar um dia de sol. É uma boa banda sonora para uma viagem.
E para terminar: qual é hoje a maior liberdade que encontraste nesta caminhada a solo?
A liberdade de fazer exatamente a música que me apetece. Poder criar aquilo que estou a sentir, sem filtros. Claro que as opiniões dos outros são importantes e muitas vezes ajudam, mas existe algo muito especial em poder seguir apenas a nossa vontade artística.
Com Margem da Lei, Vítor Lusquiños abre oficialmente a porta a uma nova etapa da sua carreira mais pessoal, mais livre e inteiramente guiada pela sua identidade artística. Entre melodias luminosas, influências acústicas e histórias que nascem de momentos simples do quotidiano, o músico apresenta-se ao público sem filtros, numa estreia a solo que promete conquistar quem procura canções honestas, leves e feitas para acompanhar a estrada da vida.
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