A banda dinamarquesa Aqua anunciou o fim da carreira, colocando um ponto final em mais de três décadas de atividade musical.
Entrevista com Vasco Silva - Projeto Capítulo

O Projeto Capítulo continua a traçar um caminho singular no panorama cultural, cruzando a museologia, a música e as artes visuais. A pretexto do arranque do novo ciclo, estivemos à conversa com Vasco Silva, o rosto por trás da iniciativa, para compreender como é que a fragilidade de figuras icónicas como Daniel Johnston continua a moldar a criação contemporânea e a ressoar nas novas gerações.
A Génese do Diálogo Coletivo
O Projeto Capítulo propõe um diálogo contínuo com o legado de artistas marcantes. Para quem ainda não está familiarizado, como descreverias esta ideia?
O Projeto Capítulo nasceu, originalmente, como um ciclo de concertos em formato de matiné às tardes de domingo, no Museu de Leiria. O nosso foco sempre foi apresentar uma programação eclética e variada, convidando artistas de diversos géneros musicais que, por norma, não integram os circuitos e cartazes mais convencionais dos festivais. Procuramos, desde o primeiro momento, caminhos menos comuns.
Após dois ou três anos a consolidar este ciclo, e impulsionados pela excelente parceria e cumplicidade com a equipa do museu, surgiu a vontade de experimentar algo diferente. O museu é, por excelência, um espaço de visitação, memória, história e conhecimento. Foi aí que nos desafiámos: como cruzar a energia dos concertos com a identidade e o propósito base de um museu?
A resposta materializou-se neste formato atual: quatro exposições trimestrais ao longo do ano, em que cada uma retrata um músico ou artista que tenha sido uma forte referência inspiradora. Geralmente, são nomes amplamente respeitados no meio artístico, embora o público geral possa não os identificar de imediato. A nossa proposta passa por convidar um músico e um artista visual a criarem uma peça inédita sobre a vida e obra desse criador icónico, oferecendo uma interpretação audiovisual adaptada aos dias de hoje.
Que fios condutores unem as escolhas dos artistas homenageados?
O ponto fulcral é, sem dúvida, a diferenciação. Falamos de artistas inusitados, que pensaram "fora da caixa" e que operaram verdadeiras mudanças de paradigma na música, servindo de farol para criadores mais mediáticos.
Olhemos para o caso de Raymond Scott, por exemplo: teve um papel absolutamente pioneiro na tecnologia musical e no desenvolvimento do que hoje entendemos por inteligência artificial na música, criando sistemas onde a sonoridade se autocriava através de algoritmos. Já trabalhámos legados como os de Ryuichi Sakamoto ou Delia Derbyshire. Este ano, a nossa viagem cruza-se com Daniel Johnston, Alice Coltrane, Miriam Makeba e, pela primeira vez, com um compositor português, Jorge Peixinho. Todos partilham esta capacidade extraordinária de inspirar gerações de músicos e compositores.
A Urgência da Vulnerabilidade: O Fenómeno Daniel Johnston
O que torna a obra e a figura de Daniel Johnston tão atuais e relevantes em 2026?
O Daniel Johnston é uma figura fascinante e multifacetada. Sendo um artista marcadamente neurodivergente, a sua personalidade e as suas canções transportavam uma intensidade e uma profundidade que trazem as emoções à flor da pele. Ele corporiza uma mensagem poderosíssima: a de que qualquer pessoa pode criar e fazer música, independentemente das suas características cognitivas ou físicas. As suas letras, a crueza da sua musicalidade e as suas ilustrações captam a atenção de forma avassaladora devido a essa verdade profunda.
Essa honestidade desarmante e essa vulnerabilidade continuam a tocar as gerações mais jovens?
Claramente. Através do trabalho que desenvolvemos com escolas, percebemos que os jovens enfrentam hoje uma enorme vulnerabilidade, muitas vezes acompanhada pelo medo da exposição e pela vergonha. O isolamento provocado pela pandemia teve um impacto severo nesta franja da população. O afastamento do quotidiano escolar privou-os, temporariamente, de dinâmicas essenciais para o crescimento, onde a socialização e o confronto com as dificuldades do mundo real os ensinam a lidar com a complexidade da vida.
O Daniel Johnston funciona como um espelho e uma referência para estes miúdos. Trazer a debate artistas com estas fragilidades é fundamental, até porque o Daniel provou que é possível alcançar o sucesso e o reconhecimento através da sua arte, da sua música e dos seus desenhos, mesmo coexistindo com uma enorme fragilidade. Numa altura em que há centenas de jovens nas escolas a lidar com a neurodivergência e com barreiras sociais, a música torna-se o veículo perfeito para transformar estas realidades em temas de conversa e em polos de identificação.
Novos Espaços e a Acessibilidade no Palco
Johnston criou a sua obra inteiramente à margem das estruturas tradicionais da indústria. Sentes que hoje há mais espaço e abertura para acolher artistas profundamente pessoais e "imperfeitos"?
Sim, sem dúvida. Noto que os agentes culturais, as salas de espetáculo e os próprios organismos que gerem os financiamentos públicos estão muito mais despertos para estas realidades e condições, sejam elas físicas ou mentais. Há mais espaço para a criação inclusiva. A nível físico e arquitetónico o processo é mais lento e complexo, dada a necessidade de adaptações estruturais a longo prazo, mas o caminho da integração está a fazer-se.
No catálogo da nossa editora, por exemplo, temos dois projetos nascidos no seio da APCC (Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra) que têm registado uma enorme procura: os 5ª Punkada, com uma abordagem muito forte assente no rock e nos blues, e os Ligados às Máquinas, que funcionam como uma orquestra de samples numa vertente mais experimental. Musicalmente são projetos fantásticos. Além do valor artístico, eles trazem para a ribalta uma discussão essencial: o direito elementar de estar em cima de um palco. Durante muito tempo pensou-se na acessibilidade apenas do ponto de vista do público, mas urge pensar na acessibilidade para o próprio artista. Felizmente, essa sensibilidade está a mudar. Estas "imperfeições" são apenas características intrínsecas de cada indivíduo, tal como ser mais alto, mais baixo ou usar óculos. O nosso papel é assegurar as ferramentas para que todos tenham um acesso justo à criação e à fruição cultural.
O Encontro com Leonardo Pinto
A escolha do Leonardo Pinto para este capítulo parece carregar um forte simbolismo, quer pela idade, quer pelo percurso multidisciplinar. O que motivou este convite?
Temos vindo a acompanhar de perto o crescimento do Leonardo há cerca de três anos através do OmniLab, um projeto de residências artísticas que promovemos e que desafia jovens músicos, dos 14 aos 21 anos, a compor e a vivenciar o dia-a-dia de uma banda durante uma semana. O Leonardo sobressaiu imediatamente. É um jovem incrivelmente criativo na composição, na lírica e na irreverência; a música que faz é completamente fora do comum para alguém que tinha apenas 15 anos quando o conhecemos.
A somar a isto, o seu universo visual é riquíssimo. O facto de ser um talento emergente da nossa região, ele é de Pombal, muito perto de Leiria, pesou na decisão, pois assumimos como missão apoiar e dar espaço à criação dos jovens locais. A simbiose perfeita deu-se quando percebemos que, tal como o Daniel Johnston, o Leonardo divide-se entre as artes visuais e a música, partilhando inclusive traços estéticos e uma admiração assumida pelo universo de Johnston. Foi o match ideal.
A Reação do Público e os Desafios do Futuro
Como tem sido a resposta do público a esta fusão entre música e museologia?
Tem sido uma experiência fantástica. O núcleo duro do nosso público coincide com o visitante habitual do Museu de Leiria, pessoas que acompanham a arte contemporânea, a história da arte e a antropologia. É um público tendencialmente mais maduro, mas extraordinariamente recetivo a estas novas abordagens e roupagens.
O formato atual é desafiante porque propõe uma dinâmica em duas fases. Na inauguração da componente visual, organizamos uma conversa em torno do autor homenageado e, sempre que possível, exibimos um documentário. O público não se limita a assistir; participa ativamente, questionando os processos criativos e procurando perceber como é que se materializa uma obra visual a partir do universo puramente sonoro de um artista. Na fase de encerramento, temos o concerto, onde o músico convidado apresenta a peça sonora desenvolvida. Sentimos que as pessoas se interessam genuinamente por todo o processo e não apenas pelo objeto final. Os dados de visitação do museu confirmam que o público fidelizado se mantém, ao mesmo tempo que se vai renovando.
O que podemos esperar do Projeto Capítulo após este quinto volume?
A nossa intenção é continuar enquanto nos for permitido. O projeto conta com o apoio da Direção-Geral das Artes (DGArtes) e do Município de Leiria. O ciclo de financiamento sustentado de dois anos da DGArtes termina este ano, pelo que iremos apresentar uma nova candidatura. A viabilidade do projeto depende, naturalmente, destes apoios.
Contudo, a nível de ideias, a ambição é grande. Queremos continuar a explorar estas personalidades marcantes da história da música, mas ambicionamos transformar a proposta museológica. O grande desafio que queremos lançar aos futuros artistas convidados é o de saírem do espaço físico e circunscrito da sala do Capítulo. Gostávamos de ocupar o museu como um todo, estendendo as intervenções ao jardim exterior e criando uma narrativa fluida ao longo de todo o edifício, transformando o projeto numa instalação audiovisual global e imersiva.
Com os olhos postos no futuro e a irreverência de quem recusa prender-se a convenções, o Projeto Capítulo reafirma-se como um dos ensaios mais bem-sucedidos de descentralização e hibridismo cultural no nosso país. Ao resgatar a genialidade marginal de figuras como Daniel Johnston e ao dar palco à nova vaga de criadores nacionais, a iniciativa de Leiria prova que os museus não servem apenas para guardar o passado e são, acima de tudo, laboratórios vivos onde se desconstrói e reconstrói o futuro da música.
O convite está feito: despir os preconceitos, entrar no Museu de Leiria e deixar-se guiar por este labirinto de som, imagem e vulnerabilidade partilhada. O próximo capítulo já começou a escrever-se.
A exposição dedicada a Daniel Johnston, com a intervenção audiovisual de Leonardo Pinto, estará patente no Museu de Leiria ao longo deste trimestre, culminando com o respetivo concerto de encerramento.
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