Entrevista com Turista (João Gomes)

09-10-2023

Som militantemente digital, todo produzido em computador, conta, porém, com contrabaixo, baixo, guitarras... e uma voz feminina. O Turista, seu autor, tem uma longa biografia musical que começa em Lisboa nos anos 80, passa pelos LX-90 e por dez anos em Londres, antes de se dedicar a produzir discos, a acompanhar outros artistas e ao ensino. Com citações indiretas da eletrónica internacional e portuguesa das últimas décadas, as músicas deste novo álbum "Para Fora Cá Dentro", recusam os clichés com firmeza.

Surpreendente, imprevisível até ao desconforto.

Porque resolveste adotar o nome Turista?

É uma história que vem de longe, já desde o fim dos anos 90. Estava no outro dia a falar disto com um amigo. Eu tinha o nome Turista na minha cabeça, foi um parto muito longo. E foi uma ideia que me surgiu. Sempre quis fazer qualquer coisa a solo, entre aspas. E pensei sempre nesta identidade do Turista, alguém que viaja e que muda sempre um pouco.

E o título do álbum, Para Fora Cá Dentro, como surge?

Era qualquer coisa que eu tinha já na cabeça há muito tempo, mas que nunca se concretizou, até que de facto eu soube do programa Garantir Cultura, concorri, ganhei e pronto, tive realmente de o fazer, finalmente.

E foi durante a pandemia. O programa Garantir Cultura foi algo que foi feito pelo governo português para estimular a produção cultural durante a pandemia e foi qualquer coisa que estava dentro de mim já há bastante tempo e que eu quis pôr cá fora.

Começaste a pensar no teu trabalho a solo durante a pandemia ou já havia uma vontade de fazer este trabalho?

Eu já tinha feito uma música, uma remistura para um amigo meu austríaco com o nome de Turistas, já em 2014. Mas, depois o Turista entrou outra vez mais ou menos em hibernação. E só agora ressurgiu e foi com esta oportunidade que de facto começou a tomar forma durante a pandemia.

Quem é que trabalhou contigo neste disco?

Bem, neste disco eu não tive muita gente a trabalhar comigo. Para já tive a Patrícia Guimarães a cantar, a Patrícia foi a cantora da banda que fez o primeiro álbum que eu produzi em 99 que foram os Alibi, que eram uma banda trip-hop de Almada. Tenho mantido contacto com ela e fiz-lhe o convite e ela aceitou e foi assim uma continuidade engraçada. E depois tenho o Miguel Menezes a tocar contrabaixo, guitarra acústica, guitarra elétrica também e baixo elétrico. Eu trabalhei com o Miguel durante uma turné e um álbum que eu coproduzi da Nicole Aitner. Já nos conhecíamos há uns tempos, de vez em quando fazemos algumas colaborações e foi a pessoa que me surgiu assim de uma maneira bastante óbvia quando pensei em fazer isto.

Como é que defines a tua música? É música eletrónica?

Eu acho que é sempre complicado alguém que faz a música classificá-la. Porque se calhar ou faz as coisas com um intuito muito definido, ou então se te sai só, é mais difícil de classificar. A eletrónica no fundo, na medida em que é feita toda dentro deste meu instrumento musical que é o computador com teclas, claro. Eu aprendi piano desde muito novo e dou uns toques. Não me considero um grande pianista, mas acho que consigo safar-me bastante bem com as teclas. E sim, eu acho que é música eletrónica. Sempre me agradou bastante a manipulação do som e tentar moldar o som à nossa vontade. E cada vez mais temos ferramentas que nos permitem fazê-lo de uma maneira cada vez mais criativa. Portanto, sim, eu diria que é música eletrónica. Mas não é bem de dança, é uma música eletrónica, que se calhar tem algumas afinidades com alguma música de bandas sonoras. Anda um pouco por aí, é difícil classificar. Mesmo agora quando eu pus o álbum nas plataformas, foi preciso escolhermos um género, eu escolhi eletrónica, que é um género assim mais vasto, mais abrangente. É complicado de facto.

Mas é um disco que tem a ver com as tuas influências musicais?

Sim, quando nós já temos alguma história, as influências vão sempre, variando bastante. Mas sim, eu passei os anos 90 em Inglaterra, fui para lá com uma banda e nessa altura mergulhei bastante nesse som mais eletrónico, mas se calhar um bocadinho mais experimental de algumas editoras mais experimentais como a Warp e algumas coisas da Ninja Tune e algumas coisas da R&S também, de vez em quando. Portanto, são essas um pouco as minhas influências, embora tenha, tocado com outro género de bandas e artistas também.

Tens um percurso musical bastante longo e tocaste com grandes nomes da nossa música. Atualmente, com quem trabalhas, para além deste teu projeto a solo e de dares aulas na ETIC?

Bem, eu agora estou a tocar com os Luta Livre, com o Luís Varatojo, que é um projeto muito interessante e fico muito contente que o Luís me tenha chamado para tocar. E estou a tocar também com o Fernando Cunha, com quem tenho uma relação já há algumas décadas. E pronto, toco também bastante com a Rita Red Shoes. Portanto, é tudo assim, vai tudo para sítios bastante díspares. Até díspares do que eu faço, do que eu tenho no álbum, não é? O que é um bocadinho... estranho. Mas acho que é bom.

Como músico com uma longa carreira cheia de atividade, qual consideras a fase mais importante da tua vida? Os anos que viveste e tocaste em Londres com os LX90?

Essa foi certamente uma altura marcante, quase que diria traumatizante. Não, não foi, não foi nada traumatizante. Teve alturas traumatizantes e outras nem tanto, mas foi certamente muito marcante, acho que me marcou para sempre e alterou as minhas preferências musicais e certamente a minha vivência. Pronto, obviamente, passar os anos 90 em Londres, numa cidade como Londres, foi uma experiência marcante, sim, sem dúvida.

Fizeste parte dos Santos e Pecadores logo no início. Eras praticamente um miúdo, como recordas esses dias?

Recordo bem, nós éramos um grupo de miúdos. Tudo aos pares, éramos dois bateristas, dois guitarristas, dois teclistas e um vocalista, que era o Olavo. Não havia baixista, porque na altura ninguém queria tocar baixo, depois tivemos o Artur que ficou para sempre nos Santos e Pecadores, aquilo era só um grupo de miúdos. Nós formámos os Santos e o Pecadores, eu tinha 14 anos. Foi a primeira banda em que estive. Como é que eu me lembro dessa altura? Olha, eu lembro-me de ir com o meu sintetizador, que eu na altura já tinha comprado um sintetizador, o meu Roland Alpha Juno II, às vezes no comboio de Oeiras onde eu morava para Cascais, para ir ter com eles para ensaiar, e às vezes ia o meu pai lá pôr-me também, pronto, confesso. Éramos teenagers e queríamos ser todos estrelas do rock and roll e foi uma fase muito, muito engraçada.

E agora onde queres chegar com este teu trabalho a solo?

É uma pergunta interessante e não sei se de resposta muito definida. Eu com este apoio do Garantir Cultura pensei que finalmente já não tinha desculpa para não fazer o meu álbum ou não fazer algo que me apetecesse. Algo que fosse livre de qualquer consideração comercial. Eu fiz o disco que me apeteceu. Tendo feito isso e sem as considerações comerciais que se calhar eu poderia ter levado em conta, obviamente eu acho que não será propriamente um disco para massas. Não obstante, eu queria que fosse ouvido pelo máximo número de pessoas possível. Acho que estou muito contente com o disco. Quero acreditar que não estou sozinho nessa opinião e que muitas pessoas devem achar o disco pelo menos interessante. Onde eu quero chegar com ele é mostrar o máximo possível e ver quantas pessoas mais há com gostos parecidos com o meu.

Este projeto é para continuar?

Claro que sim. Coitado do Turista. Desde 99 até agora, um parto tão complicado, tão longo, e agora matá-lo depois de uma primeira incursão, acho que coitado, não lhe faria isso. Não, o Turista é para continuar.

O Turista vai dar concertos?

O Turista está a ganhar coragem para fazer concertos. Consegui fazer o álbum que queria e fiz aquele erro de principiante. Já não devia ser principiante nesta altura do campeonato, não é? Mas fiz aquele erro de principiante de gastar quase o dinheiro todo na própria obra, no próprio disco. E agora tenho de ver como faço o resto. Nomeadamente fazer concertos ao vivo, sendo que o Turista... Ninguém conhece o Turista, portanto fazer um concerto do Turista será algo que terá de ser provavelmente uma produção própria e que custará algum dinheiro, mas eu estou a ganhar coragem para o fazer. Coragem e sim, eu acho que quero ver se até ao fim do ano ainda consigo fazer um concerto, pelo menos um concerto da apresentação do álbum.

Eu ia exatamente perguntar se o teu principal objetivo agora é a apresentação deste disco ao vivo.

Sim, pronto, lá está. É isso mesmo. Já comecei a falar com as pessoas envolvidas para ver se há disponibilidade para fazer isso e tenho de começar a ver como é que consigo pôr isto em marcha. Isto porque eu não quero fazer um concerto só de comigo e com o computador e com o teclado a tocar umas coisas e com coisas gravadas que eu não vou conseguir ter ao vivo. Portanto, eu quero ter, de facto, um contrabaixo, uma guitarra, e obviamente, a Patrícia a cantar comigo. E, por isso, tenho mesmo de ver se consigo fazer isso.

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