A fadista Cuca Roseta é a convidada especial das celebrações do Dia do Município de Castro Marim, com um concerto marcado para as 22 horas do próximo dia 24 de junho, no Revelim de Santo António.
Entrevista com Tino Costa

Com mais de cinco décadas dedicadas à música, Tino Costa é uma das figuras incontornáveis do acordeão em Portugal. Intérprete, compositor, poeta e divulgador da música popular portuguesa, tem levado o som do acordeão a festivais, galas, bailes e palcos de norte a sul do país. Recentemente lançou o EP Marchas Populares – Volume 3, um trabalho inspirado nas tradições populares portuguesas e nas celebrações de Lisboa e do Porto.
Nesta conversa, o músico recorda os primeiros contactos com a música, fala sobre a importância do acordeão na cultura portuguesa, partilha memórias da sua longa carreira e revela os projetos que ainda pretende concretizar.
Como começou a sua paixão pelo acordeão?
A minha paixão pela música começou muito cedo. Nasci no concelho de Lagos e, quando tinha apenas quatro anos, vivia no Sargaçal. Foi aí que ouvi pela primeira vez um vizinho, o senhor Tomé, tocar concertina. Ficava fascinado a ouvi-lo tocar ao final do dia.
Ao mesmo tempo, tive a oportunidade de assistir a uma atuação da grande Eugénia Lima, uma das maiores referências do acordeão em Portugal. Lembro-me de ter passado horas a ouvi-la tocar, completamente encantado. Esses dois momentos marcaram-me profundamente e despertaram em mim o gosto pela concertina e, mais tarde, pelo acordeão.
Como os meus pais tinham poucas possibilidades financeiras, comecei pela concertina, oferecida por familiares. Mais tarde estudei na Escola Tecnológica Industrial do Algarve, onde tive aulas de música, acordeão, piano e composição. Foi aí que se iniciou verdadeiramente o meu percurso musical.
O acordeão tornou-se a sua imagem de marca. O que tem este instrumento de tão especial?
O acordeão é um instrumento extremamente versátil. Costuma dizer-se que é o "piano do povo", mas eu prefiro chamá-lo de instrumento do povo. Pode ser utilizado na música popular, mas também na música clássica, no jazz ou em repertórios contemporâneos.
Portugal tem excelentes acordeonistas e muitos campeões mundiais desta especialidade. O Algarve, em particular, tem sido uma região muito rica em talentos ligados ao acordeão. Isso demonstra a força e a importância deste instrumento na nossa cultura.
Ao longo da sua carreira participou em centenas de festas, festivais e romarias. Que memórias guarda desses momentos?
Guardo memórias muito felizes. Durante muitos anos participei em bailes, festivais e galas de acordeão, especialmente no Algarve, ao lado de músicos como João César, de quem fui grande amigo.
Continuo bastante ativo. Recentemente participei na Semana Internacional do Acordeão de Alcobaça e em várias homenagens ligadas ao fado e à música portuguesa. O contacto com o público continua a ser uma das maiores recompensas desta profissão.
Acaba de lançar o EP Marchas Populares – Volume 3. O que podem os ouvintes esperar deste trabalho?
Este terceiro volume reúne seis temas dedicados às marchas populares de Lisboa e do Porto. Inclui composições da minha autoria, algumas interpretadas pela fadista Rita Inácio e outras em versão instrumental.
Entre os temas estão "Somos Lisboa, Somos Europa," "Lisboa, Tão Linda És", "Santo António de Lisboa e do Mundo", " O Porto pelo São João" e "Dá-me um Cravo e um Manjerico". É um trabalho que procura celebrar as tradições populares portuguesas, mas também transmitir mensagens positivas de fraternidade, liberdade e união.
O que trouxeram os convidados a este projeto?
A colaboração de outros artistas foi muito importante. A Rita Inácio trouxe uma grande força interpretativa às marchas cantadas. A sua voz fadista dá uma dimensão muito especial às composições.
Gosto de trabalhar em equipa porque acredito que a música cresce quando juntamos diferentes sensibilidades e talentos.
Considera que as novas gerações continuam a valorizar este património musical?
Sem dúvida. É muito gratificante ver tantos jovens a estudar e a tocar acordeão. Muitos continuam a interpretar obras de grandes compositores portugueses, como João César, mantendo vivo um legado muito importante.
Hoje encontramos jovens acordeonistas a explorar não só a música popular, mas também a música clássica, o jazz e outros géneros mais exigentes. Isso demonstra que o futuro do acordeão está assegurado.
Entre os temas deste trabalho encontramos Somos Lisboa, Somos Europa. Como nasceu esta homenagem aos 40 anos da adesão de Portugal à União Europeia?
A inspiração surgiu quando ouvi uma apresentação relacionada com o tema da Grande Marcha de Lisboa. Este ano assinalam-se os 40 anos da adesão de Portugal à então Comunidade Europeia e achei que seria uma excelente oportunidade para criar uma marcha dedicada a esse momento histórico.
Procurei transmitir uma mensagem de abertura, convivência entre culturas, liberdade e valorização do património português dentro de uma Europa unida.
Ao longo dos anos assistiu à evolução da música popular portuguesa. Como vê essa transformação?
Penso que existem várias vertentes na música popular. Há a música mais festiva e divertida, destinada ao entretenimento dos bailes e romarias. Depois existe uma vertente mais poética e reflexiva, onde se enquadram muitos temas do fado e algumas marchas populares.
Também vejo com entusiasmo o crescimento do acordeão clássico, que tem atraído muitos jovens músicos. O importante é haver espaço para todos os estilos e para diferentes formas de expressão musical.
Depois deste lançamento, quais são os próximos projetos?
Ainda tenho muitos projetos e ideias para concretizar. Estou a preparar um novo álbum com arranjos meus para temas bem conhecidos do público.
Entre as músicas previstas encontram-se obras ligadas ao Algarve e ao meu amigo João César, além de versões para acordeão de temas como Canção do Mar, Nem às Paredes Confesso e outras composições marcantes da música portuguesa.
Enquanto tiver força, inspiração e o carinho do público, continuarei a gravar, a compor e a levar a música aos palcos.
Aos 83 anos, Tino Costa continua a demonstrar uma energia invejável e uma dedicação inabalável à música. Entre a preservação das tradições populares e a valorização do acordeão como instrumento universal, o músico mantém-se ativo, criativo e atento às novas gerações. Com novos projetos já em preparação, o seu percurso confirma que a paixão pela música não tem idade e que o acordeão continua a encontrar em Tino Costa um dos seus mais dedicados embaixadores.
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