Entrevista com Tiago Vilhena

Quatro anos depois do seu último álbum, Tiago Vilhena está de regresso com Salatrano, um disco que reúne dez canções e onde cabem diferentes fases, influências e linguagens musicais. Do rock à bossa nova, passando pelo reggae, kizomba, fado e música de orquestra, o músico algarvio entrega um trabalho marcado pela liberdade criativa, pelo humor e por uma forma muito própria de brincar com as palavras.
Gravado no Cuca Monga, com Domingos Coimbra e Manel Palha, dos Capitão Fausto, Salatrano chegou às plataformas no passado dia 25 de setembro. Conversámos com Tiago Vilhena sobre os quatro anos que separaram este disco do anterior, a origem de um título nascido num sonho, as várias influências que atravessam o álbum e os territórios musicais que ainda quer explorar.
Quatro anos depois do teu último disco, estás de regresso. O que aconteceu na tua vida e na tua música durante este período?
Dá para uma resposta longa, mas encurtando um bocadinho… compus este disco, como é óbvio. Componho muitos discos. Cheguei a compor outro que não quis lançar e fiz ainda mais algumas músicas que talvez possam ir para um próximo.
Resumindo, compus muitas músicas, apesar de não ter andado muito ativo nas salas. Também trabalhei bastante no trabalho que me paga a casa, passeei e tive uma vida normal, fora isso. Mas estive muito ligado à composição e às músicas.
Salatrano é uma palavra inventada por ti. Já disseste que não querias revelar o significado, mas podemos arrancar pelo menos uma pista?
Quando disse que não queria revelar o significado, estava a achar que podia ser engraçado manter esse mistério. Mas, na verdade, até posso contar.
O nome surgiu-me num sonho. Andava à procura do nome do disco e, ao contrário dos nomes das músicas, o título de um álbum é um bocadinho mais difícil de escolher. As minhas músicas têm letras, portanto é muito fácil ir buscar uma expressão ou uma palavra daquele poema e transformá-la no título.
Num disco, nem sempre é assim. A menos que se use o nome de uma música que pertence ao disco, coisa que eu não queria fazer. Já andava há algum tempo à procura de um nome.
A palavra surgiu-me num sonho, assinei com ela e achei que devia respeitar aquele sonho. Agora já não me lembro do que é que a palavra significava no sonho. Mas dá-me a ideia de que é um adjetivo para definir uma pessoa que tem um bom coração malandro.
Este disco tem dez canções, mas parece que cabem aqui muitas versões do Tiago. É um disco que representa bem quem és hoje?
É um bocado difícil definir quem é que eu hoje sou. As coisas evoluem, as pessoas mudam. Se eu sou aquilo que determinada música diz, se calhar não.
Há músicas que acho que não representam aquilo que sou hoje. Talvez Vem Cantar Amigo seja uma música com que me identifico muito em termos líricos, da vibe e de tudo. Talvez também me identifique bastante com Mau Mau Bem Bem.
Depois há músicas mais de devaneios e de loucuras da vida, como Rapariga Jovem. Não sei se me identifico assim tanto. Acho que é uma boa música, construída à volta de uma história real, mas acho que já não estou numa fase em que esse tipo de histórias possa acontecer na minha vida.
Passaste pelos Savannah, pelo projeto de Jorge Marvison e depois pela Canção em Português. Sentes que todas essas fases estão presentes neste disco?
Inconscientemente, acabam por estar. Todas as influências acabam por se tornar reflexos condicionados.
Uma pessoa não faz exatamente a música que quer: faz a música que aprendeu a fazer. Depois pode moldá-la um bocadinho com o seu gosto e com a sua vontade, pode forçá-la a seguir um determinado caminho. Mas as influências, aquilo que te formou enquanto músico, pelo menos para mim, é um bocado difícil de anular.
E eu também não tento anular, porque gosto. Gosto da persona musical que desenvolvi e, portanto, não preciso de fazer esse esforço.
Sinto que
está lá um pouco dos Savannah, está lá a influência musical do meu irmão e do
Pedro Castilho, que tiveram os dois uma grande influência em mim. Está também
um pouco da influência de outra banda, que acho que quase ninguém sabe que
tive, com o pessoal dos Marvel Lima e dos
Quelle Dead Gazelle. O Pedro Ferreira e o Zé Penacho também tiveram uma
influência grande na minha forma de compor.
Mais tarde, comecei a aprender a fazer músicas sozinho, numa fase mais de experiências e exploração, como George Marvinson. Tudo isso está cá e, queira ou não, acaba por pôr um bocadinho de tudo isso nas minhas músicas.
Há rock, bossa nova, reggae, kizomba, fado, música de orquestra…
Não tiveste medo de fazer uma verdadeira salada musical? Houve algum momento em que pensaste: "Isto talvez seja demasiado"?
Medo nenhum. Não tenho medo de ninguém.
Essa mistura aconteceu de forma muito natural. Quando faço músicas, tirando talvez a última e a penúltima do disco, não estou a pensar em que disco é que elas vão entrar, se vão entrar, se vai correr bem, se vou lançá-las ou se as pessoas vão gostar.
Não. Estou a fazer uma música para curtir. E estas foram as músicas que fiz para curtir.
E acabou por dar uma espécie de salada russa musical?
Bota maionese!
Uma coisa que atravessa o disco é o teu sentido de humor e essa maneira muito particular de brincar com as palavras. Para ti, é mais fácil falar de coisas sérias a brincar?
Não diria que é mais fácil. Se calhar até implica uma complexidade e um sentido metafórico da palavra que tornam a coisa menos direta.
Estou a transformar uma coisa, a inserir uma coisa numa aura e num ambiente onde ela não pertence. Portanto, se calhar até pode ser um pouco mais complexo.
Mesmo que dê algum trabalho e implique um esforço acrescido, faço isso porque preciso. É importante para mim dar-me alento a mim próprio.
Se estiver constantemente a empurrar-me para baixo e a cantar músicas tristes num tom triste, acho que o meu coração não aguenta. Então, pela minha saúde, faço este trabalho de desenvolver as músicas de forma a que elas não pertençam a um mundo tão delas.
O primeiro single, Mau Mau Bem Bem, fala de sermões e da vontade de contrariar a autoridade. Tu eras aquele miúdo que gostava de contrariar ou isso é apenas uma personagem das tuas canções?
Era. Tive fases.
Quando era muito pequenino, acho que era um miúdo bem-comportado e arrumadinho. A minha avó estava sempre a dizer que, quando cheguei à adolescência, tinha muitas saudades de quando eu era criança. Perguntava como é que eu me tinha tornado assim tão rufia, quando era tão arrumadinho e certinho.
Acho que deve ter havido ali um ponto de viragem na minha vida em que comecei a ter uma chama muito grande para fazer disparates.
Agora já não faço disparates, não é? Já tenho 36 anos, já chega de fazer disparates só porque sim. Mas tenho uma vontade fervente de me mexer e de criar.
Criar é o meu fazer disparates. É a minha forma de ser irreverente.
Antes, se calhar, era ir contra as vontades dos meus pais e fugir de casa à noite porque não me deixavam sair ou coisas assim. Agora é escrever canções. É a minha forma de irreverência.
Chega depois Amadores da Praça, uma música que recupera claramente o teu lado mais rock. Foi bom voltar a esse território?
Foi. E não estava à espera.
Comecei a fazer aquela música à guitarra. A música passou por alguns caminhos. Comecei na guitarra elétrica com um ritmo que depois acabou por nem sequer pertencer à música, mas os acordes já lá estavam.
A música foi-se transformando e, quando dei por mim, era uma música rock. No início era uma espécie de funk groovy. Ou seja, sem querer, levei a música para uma coisa que já não fazia há alguns anos.
Esta música nasceu de um poema de Ary dos Santos. O que é que te fascina particularmente na escrita dele?
Uma coisa que me fascina muito e que se calhar não é a coisa mais bonita de dizer, porque não estou propriamente a falar dos poemas dele, é a quantidade de coisas que ele tem.
Para mim, isso é importante porque noto que fazer muitas músicas ajuda-me a fazer boas músicas.
Muitas não vão ser boas, mas, como há ali uma grande quantidade, no meio daquela salada russa, como tu disseste, há de surgir alguma flor.
E, portanto, acho que com ele aprendi um bocadinho que é preciso estar sempre a produzir. E ele produzia muito.
Uma das coisas curiosas deste disco é que consegues falar de coisas muito portuguesas sem fazer necessariamente música tradicional. É importante para ti manter essa ligação aos nossos costumes e à nossa maneira de estar?
Não. Não é importante.
Eu gosto de o fazer, gosto de música tradicional. Agora, se é importante ou não, já não é a minha responsabilidade.
Eu gosto e, se faço por divulgar a música portuguesa, fico contente. Agora, se é importante… o que é importante é o mundo ir para onde ele quer.
O disco foi gravado no Cuca Monga com o Domingos Coimbra e o Manel Palha, dos Capitão Fausto. Como foi trabalhar com eles?
Foi ótimo.
Eu já os conhecia, mais ou menos, só de nos encontrarmos aqui e ali num concerto, noutro concerto. Falávamos de música.
Agora, passar duas semanas seguidas com eles, tomar o pequeno-almoço, gravar, almoçar, gravar, jantar, aproxima as pessoas e acaba por permitir que as conheçamos melhor.
A experiência foi ótima. Percebi que são músicos muito melhores do que eu estava à espera.
Eu sempre soube que as músicas deles eram boas, mas às vezes, quando se conhece mais profundamente um artista, percebe-se que ele não é assim tão interessante. E isso não aconteceu com eles.
São realmente pessoas muito interessantes, muito dedicadas, excelentes instrumentistas nos seus instrumentos e com ideias que, para mim, são bastante interessantes.
Foi ótimo ajudar a construir um bom disco.
Se tivesses de escolher apenas uma música de Salatrano para apresentar o Tiago que és hoje a alguém que nunca ouviu a tua música, qual escolherias?
Neste momento, acho que escolheria Vem Cantar Amigo.
O álbum chegou a 25 de setembro. O que gostavas que acontecesse quando as pessoas ouvirem Salatrano pela primeira vez?
Que fizessem filhos.
Depois de tantos estilos e tantas vidas musicais, ainda há algum território que gostasses de explorar e que ainda não tenhas experimentado?
Há um território que já explorei, só que nunca lancei, tirando um retrato completo numa música deste disco.
Tenho um disco de orquestra composto. É uma história de 14 músicas e tenho os arranjos feitos. Tenho um quinteto de cordas gravado, tenho harpa gravada, tenho marimba gravada, mas nunca consegui ter mais tempo para me dedicar àquilo e acabar esse disco.
É um disco que gostava de explorar. Esse território da música erudita já gostei de experimentar, só que ainda não o divulguei.
E há mais algum território novo a despertar a tua curiosidade?
Sim. Tenho mais um que ando a explorar neste preciso momento.
Lançar um disco é uma liberdade de caraças. De repente, tenho um trabalho cá fora, já não tenho responsabilidade com ele. Agora ele é vosso, mais do que meu, e posso dedicar-me ao próximo filho.
E aquilo que me está a fascinar muito neste momento, enquanto compositor, são as músicas românticas.
Músicas românticas?
Ah, Julio Iglesias. Música de cantor galã.
Estou a achar espetacular explorar esse mundo.
Tenho tanto por onde andar… Pronto, talvez seja este o próximo passo.
Com Salatrano, Tiago Vilhena regressa à música com um disco que reflete a sua liberdade enquanto compositor e a vontade de continuar a experimentar sem se prender a fórmulas. Entre diferentes estilos, histórias, humor e alguma irreverência, o músico mostra-nos um universo criativo em constante movimento.
Um álbum que encerra um capítulo, mas que, para Tiago, abre imediatamente espaço para novos caminhos. E se o próximo passo passar mesmo pelas canções românticas e pelo universo dos "cantores galãs", fica a certeza de que ainda há muitas surpresas na música de Tiago Vilhena.
Salatrano está cá fora. Agora, como o próprio Tiago diz, o disco é mais nosso do que dele.
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