Entrevista com Tânia Pataco

Com o fado no coração e uma identidade musical muito própria, Tânia Pataco vive uma fase especial da sua carreira. Em setembro de 2026, lançou «Apenas Uma Vida», um tango com uma mensagem inspiradora sobre a importância de viver o presente, valorizar quem amamos e não adiar os nossos sonhos. Em entrevista, recorda o percurso que a levou da música popular ao fado, o encontro marcante com Amália Rodrigues e revela os projetos que prepara para 2027.
«Apenas Uma Vida» e a vontade de viver sem adiar os sonhos
Tânia, como está a viver esta fase tão especial da sua carreira?
Estou a viver uma fase realmente especial. Gostamos sempre de sentir que o nosso trabalho é reconhecido, mas este tema tem sido uma surpresa particularmente agradável. Isso nota-se também a nível promocional, com mais visualizações no YouTube e mais pessoas a seguirem as minhas redes sociais. É o resultado de todo o trabalho que temos desenvolvido e, felizmente, o balanço tem sido muito positivo.
Nasceu em Coimbra, cresceu na região e, aos 13 anos, foi viver para Meirinhas, no concelho de Pombal. Foram várias mudanças numa idade importante. Que recordações guarda desses tempos?
Guardo boas recordações. Gosto de mudanças, embora, naquela altura, fossem os meus pais a tomar essas decisões. Acredito que precisamos de viver novas experiências e conhecer outras realidades. Aos 13 anos, fui viver para uma aldeia, onde encontrei pessoas, costumes e formas de estar completamente diferentes daquilo a que estava habituada.
Todas essas experiências nos dão conhecimento e enriquecem-nos. Mais tarde, já adulta, tive também a oportunidade de emigrar e conhecer outra cultura. Tudo isso contribuiu para a pessoa que sou hoje, tanto a nível pessoal como profissional.
A própria música me permite conhecer novas terras, pessoas e histórias. Considero-me uma pessoa muito rica por ter tido a oportunidade de viver tantas experiências.
Começou por participar em pequenos festivais da canção. Ainda se lembra da primeira vez que subiu a um palco? Sentia muitos nervos ou já tinha confiança de artista?
Os nervos continuam a acompanhar-me até hoje! Não considero que isso seja necessariamente negativo. Apesar de não gostar de me sentir nervosa, também encaro esse sentimento como um sinal de responsabilidade e de preocupação em fazer bem o meu trabalho e corresponder às expectativas do público.
A minha primeira experiência em palco aconteceu num contexto de música popular, em que era importante conquistar o público, incentivar as palmas e conseguir que as pessoas cantassem comigo. Era muito diferente do fado, mas foi uma experiência positiva. É maravilhoso sentir o carinho das pessoas e perceber que estão a participar naquilo que fazemos.
Quando comecei a cantar fado, também tive de aprender a conquistar o público. Ainda hoje é um desafio, porque nem todas as pessoas reagem da mesma forma. No geral, tem sido um percurso muito positivo.
Em 1994, participou em programas televisivos como o Chuva de Estrelas e o Seleção de Esperanças. Como recorda essa fase?
Foram experiências vividas com muito nervosismo. Comecei no universo da música popular e, depois, fui participando em festivais regionais e locais, onde consegui conquistar alguns prémios. Essas experiências deram-me motivação para abraçar novos desafios, incluindo os concursos televisivos.
Para mim, ganhar ou perder acaba sempre por ser uma vitória, porque aprendemos alguma coisa, nem que seja através da experiência. O Chuva de Estrelas foi um marco importante na minha vida, tal como o Seleção de Esperanças. No entanto, o grande salto aconteceu com a Grande Noite do Fado, em 1994.
Foi a primeira vez que participei num concurso a cantar fado e acabei por vencer, apesar de estar a competir com pessoas que já tinham experiência neste género musical. Foi uma surpresa muito agradável e marcou a transição da música ligeira para o fado.
Depois da Grande Noite do Fado, em Lisboa, recebeu um convite muito especial: cantar numa festa em homenagem a Amália Rodrigues. Como se reage a um convite desses?
Naquela altura, estava tudo a acontecer muito depressa. Depois da Grande Noite do Fado, começaram a surgir vários convites inesperados. Tinha deixado a música ligeira e passara a ser convidada para cantar fado. Quando surgiu o convite para a homenagem a Amália, confesso que ainda não tinha plena consciência da dimensão daquilo que estava a acontecer.
Quando subi ao palco, fiquei tão nervosa que até me esqueci momentaneamente da letra. Felizmente, consegui recuperar. Naquele momento, não consegui desfrutar plenamente da experiência, precisamente por estar tão nervosa.
Hoje, quando olho para trás, percebo a privilegiada que fui. Cantar numa homenagem àquela que considero a minha grande diva e receber as suas palavras de carinho e incentivo foi um marco extraordinário na minha carreira. Os conselhos e as palavras de motivação que recebi ficaram comigo até hoje.
Nunca me afastei verdadeiramente do fado. Ao longo do tempo, fui encontrando uma forma própria de o interpretar, juntando-lhe elementos de outros estilos musicais. É por isso que gosto de dizer que canto fado-canção. E, sempre que tenho oportunidade, continuo a interpretar muitos dos fados de Amália Rodrigues.
O fado, a emoção e as histórias que atravessam fronteiras
O fado vive muito do sentimento, da saudade e das histórias de vida. Quando está a cantar, precisa de viver a história da canção ou consegue separar a emoção da interpretação?
Regra geral, consigo separar as duas coisas, embora existam fados que me toquem profundamente. Sou uma pessoa muito emotiva e já me aconteceu sentir vontade de chorar em palco, até quando interpreto temas originais.
Nessas alturas, tenho de me concentrar e dizer a mim própria para seguir em frente. Se começo a chorar, posso ter dificuldade em continuar a cantar. Por isso, tento controlar a emoção e manter o foco na interpretação. Nem sempre é fácil, mas consigo fazê-lo.
Há alguma reação do público que nunca tenha esquecido?
Há muitas reações que nos marcam. No final dos espetáculos, as pessoas aproximam-se para contar o que sentiram, explicar o que gostaram de ouvir ou partilhar as recordações que determinada canção lhes despertou. Algumas dizem-nos que choraram porque se lembraram de uma história das suas próprias vidas.
Mas há uma experiência que me marcou particularmente e que aconteceu quando estive emigrada na Suíça. Fazia noites de fado para comunidades portuguesas, mas também para pessoas de outras nacionalidades.
Lembro-me de verdadeiros suíços que não falavam nem compreendiam português e que, mesmo assim, se emocionavam ao ouvir-me cantar. Alguns choravam durante os fados e, no final, vinham falar comigo em francês ou noutras línguas para me dizer o quanto tinham gostado.
Foi muito especial perceber que a música consegue tocar as pessoas mesmo quando não compreendem as palavras. Isso mostra-nos que a emoção não precisa sempre de tradução.
Esteve dez anos emigrada na Suíça. Como foi viver longe de Portugal e de uma música tão ligada à sua identidade?
No início, foi muito difícil. Sentia que estava longe das minhas pessoas, do meu público e das oportunidades que tinha em Portugal. Na Suíça, o universo artístico tem uma presença diferente e as prioridades culturais também não são as mesmas, pelo que tive de encontrar outras formas de manter a música na minha vida.
Fui aproveitando as oportunidades que surgiam. Fiz noites de fado em vários cantões, sobretudo através de associações portuguesas e restaurantes ligados à nossa comunidade.
Entretanto, fui descoberta por músicos suíços que me convidaram para ser vocalista do seu grupo. Voltei a integrar uma formação musical, mas num contexto completamente diferente daquele a que estava habituada. Cantava versões de temas franceses, italianos, brasileiros e de outros estilos.
E, claro, quase os obrigava a incluir dois ou três fados em cada atuação! Eles também gostavam, e era muito divertido. Assim consegui manter a música presente no meu quotidiano, mesmo estando longe de Portugal.
A admiração por Custódio Castelo e uma nova sonoridade
Em 2025, gravou dois temas da autoria de Custódio Castelo, um dos nomes que admira na guitarra portuguesa. O que significa trabalhar com alguém por quem tem tanta admiração?
É maravilhoso, quase indescritível. Quando decidi avançar com este projeto e comecei a trabalhar com Paquito, surgiu a possibilidade de colaborar com Custódio Castelo. Fiquei muito feliz, porque era uma oportunidade que não podia correr melhor.
Um dos temas que nasceu dessa colaboração foi «Se Quiser Saber de Mim», uma canção que acredito poder marcar a minha carreira. Tem uma sonoridade diferente da habitual e cruza elementos musicais com o fado. É também um poema diferente, com uma abordagem descontraída e especial dentro deste universo.
Mais tarde, quando voltei a procurar o Custódio para gravar um novo tema, propus-lhe fazer um tango, algo que já tinha em mente há bastante tempo. Foi então que surgiu «Apenas Uma Vida», com um poema de Maria Manuel Cid que considero lindíssimo.
A mensagem identifica-se muito comigo. É como se pudesse ter sido eu a escrever aquelas palavras. A musicalidade criada pelo Custódio encaixa perfeitamente no poema, e espero que as pessoas sintam essa ligação quando ouvirem a canção.
«Apenas Uma Vida»: um convite a aproveitar o presente
O novo single, «Apenas Uma Vida», foi lançado em setembro de 2026. Como nasceu esta canção?
Nasceu da vontade que tinha de gravar um tango. Propus a ideia ao Custódio Castel e ele disse-me que tinha um poema de Maria Manuel Cid que se adequava perfeitamente a esse estilo musical.
Quando o ouvi, fiquei fascinada. É um poema com o qual me identifico muito, porque transmite uma mensagem em que acredito profundamente: devemos aproveitar a vida, porque só temos uma, pelo menos que saibamos.
Temos de valorizar o dia a dia, falar com as pessoas com quem queremos falar, estar junto de quem amamos e não deixar para amanhã aquilo que podemos fazer hoje. Quando damos atenção ao que realmente importa, acabamos por nos sentir mais felizes.
A canção leva-nos a pensar nas coisas importantes que, tantas vezes, adiamos à espera do momento certo. É uma pessoa que arrisca ou também tem tendência para deixar algumas coisas para amanhã?
Sou uma pessoa que arrisca! Gosto de fazer muita coisa no mesmo dia e prefiro arrepender-me daquilo que fiz do que ficar a pensar naquilo que nunca cheguei a fazer.
Acredito que as aventuras são para ser vividas. Quando me envolvo num projeto, mesmo sabendo que posso correr riscos, avanço. Temos de aproveitar as oportunidades que a vida nos oferece. Se correr mal, pelo menos tentámos, aprendemos e vivemos a experiência.
É essa a minha filosofia de vida: arriscar, viver, aproveitar e agarrar as oportunidades de mãos cheias. Costumo dizer que o dia devia ter 48 horas, em vez de 24, porque tenho sempre tantas coisas para fazer, tantas ideias e tantos projetos que o tempo nunca parece chegar.
O que gostaria que as pessoas sentissem ao ouvir «Apenas Uma Vida» pela primeira vez?
Acima de tudo, gostava que gostassem da canção, da mensagem e da sonoridade. Trabalhamos para que as pessoas se identifiquem com aquilo que fazemos e, naturalmente, queremos que o nosso trabalho seja bem recebido.
Também gostava que reconhecessem a minha identidade musical e que, numa próxima oportunidade, ao ouvirem uma canção minha, conseguissem perceber imediatamente que sou eu a cantar.
Não tento copiar ninguém. Tenho a minha própria forma de interpretar e quero continuar a desenvolvê-la. É precisamente por isso que a minha digressão de 2027 se vai chamar Essência. Acredito que cada artista tem algo único para oferecer, e é essa essência que quero transmitir ao público.
A maturidade e a identidade de uma artista
Acredita que, com a idade e as experiências acumuladas, passamos a interpretar as canções de maneira diferente?
Completamente. Quando me ouço e me vejo em gravações de há alguns anos, percebo que já não me identifico totalmente com aquela Tânia. Isso não significa que desvalorize o que fiz no passado. Foi esse percurso que me trouxe até aqui e não devemos apagar aquilo que fomos.
Com o tempo, amadurecemos, ganhamos experiência e acumulamos aprendizagens. Tudo isso contribui para a construção de um estilo próprio e transforma a forma como vemos o mundo e como nos expressamos através da música.
As minhas experiências têm-me enriquecido e ajudado a perceber melhor o caminho que quero seguir, a forma como quero cantar e aquilo que quero transmitir. Hoje sinto-me uma Tânia diferente, com uma identidade mais definida, mas que continua a aprender.
E quando não está a cantar? Como é a Tânia no dia a dia? É uma pessoa que procura sossego ou precisa de ter sempre alguma coisa a acontecer?
Preciso de estar ocupada! Para além da música, tenho a minha atividade profissional, que também preenche grande parte dos meus dias. Entre uma coisa e outra, vivo numa agitação constante.
Sou uma pessoa com muita energia, muita vontade de fazer coisas e muita vontade de viver. Quando não estou envolvida num projeto, sinto falta dessa dinâmica e acabo por procurar outra coisa para fazer.
Quem me conhece sabe que sou alegre, criativa e que estou sempre disposta a aprender. Gosto de experimentar, de descobrir coisas novas e de continuar a crescer, tanto a nível pessoal como profissional.
O futuro: novos temas e a digressão «Essência»
Este single está a abrir novas portas. Podemos esperar mais música, mais fado e, quem sabe, um novo álbum?
Sem dúvida. Sinto que este single me tem aberto novas portas, tal como aconteceu com outros trabalhos ao longo da minha carreira. Cada projeto traz oportunidades diferentes, e este não é exceção.
«Apenas Uma Vida» tem registado muitas visualizações no YouTube, e espero que continue a chegar a cada vez mais pessoas. Trouxe também uma nova imagem e uma sonoridade diferente, algo que as pessoas que já conheciam o meu trabalho têm assinalado.
A nível promocional, tenho tido oportunidades que anteriormente não surgiam com tanta frequência. Quero continuar a aproveitar esta fase e dar seguimento ao trabalho que temos vindo a desenvolver.
No dia 7 de novembro, tem um concerto em Pombal. O que podem esperar as pessoas que forem assistir?
Convido todos aqueles que gostam de descobrir novas experiências, sair um pouco da rotina e ouvir música de uma forma diferente a estarem comigo no dia 7 de novembro, no Teatro Sino, em Pombal.
Será um concerto muito bonito, acompanhado pelos músicos, que servirá também para apresentar «Apenas Uma Vida» e dar a conhecer a nova digressão de 2027, intitulada Essência.
Os bilhetes estão disponíveis mediante reserva, através do site do Município de Pombal. A procura tem sido positiva e espero que seja uma noite muito especial, à semelhança de outros concertos que tenho realizado.
E o que podemos esperar de 2027?
Será um ano de novos desafios e de continuidade deste caminho. A digressão Essência vai marcar uma nova etapa, e tenho também um novo tema já gravado, que deverá sair no próximo ano.
Será uma canção mais alegre e diferente de «Apenas Uma Vida», mostrando outra faceta do meu trabalho. Espero que este percurso continue a abrir portas e que o futuro seja muito sorridente no mundo da música.
Entre o fado, as experiências de vida e a vontade constante de evoluir, Tânia Pataco continua a construir um percurso marcado pela autenticidade e por uma identidade musical própria. Com o single «Apenas Uma Vida», deixa uma mensagem simples, mas profundamente inspiradora: viver o presente, valorizar quem amamos e não adiar os nossos sonhos. Depois de um caminho enriquecido por grandes referências, como Amália Rodrigues, a artista prepara-se agora para novos desafios, com a digressão Essência, em 2027, e mais música a caminho. Porque, como a própria acredita, a vida é para ser vivida de mãos cheias.
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