Entrevista com Soma Please

Com o lançamento de Ballet, os Soma Please apresentam um EP que cruza eletrónica e indie pop numa identidade sonora espontânea e versátil. Entre Portugal e o Reino Unido, o duo continua a construir um percurso cada vez mais sólido, depois de ter conquistado destaque na BBC Radio e no Top 10 da Antena 3. Nuno Bracourt falou-nos sobre o novo trabalho, o processo criativo da banda e os próximos passos.
O EP chama-se Ballet. Que significado tem este título para vocês e que história queriam construir com este trabalho?
A história que queríamos construir com este trabalho era, acima de tudo, apresentar as músicas que fomos fazendo ao longo do tempo. Sentimos que é um EP bastante versátil, com influências e géneros diferentes. Nós gostamos disso nos artistas que ouvimos e quisemos trazer essa mesma abordagem de forma espontânea.
Quanto ao título Ballet, acabou por surgir quase por instinto. Achámos interessante o contraste entre o nome e o estilo de música que fazemos. Foi um pouco por aí.
Descrevem o vosso som como uma fusão entre eletrónica e indie pop. Como chegaram a essa identidade sonora?
Acho que resulta muito da mistura das minhas influências com as do Rob. Ele tem um background mais ligado à eletrónica e eu também tenho esse lado, embora ambos gostemos de muitas coisas diferentes. No fundo, o nosso som acabou por surgir naturalmente dessa combinação das influências dos dois.
"I'm a Fan" aborda a linha entre admiração e obsessão. O que vos inspirou a explorar esse tema?
Achamos interessante a relação que, por vezes, os fãs desenvolvem com os seus ídolos. A linha entre admiração e obsessão pode ser muito ténue e complexa.
Pareceu-nos um tema curioso para explorar numa canção e foi isso que fizemos.
Sentem que, hoje em dia, a relação entre artistas e público está mais intensa ou mais confusa?
Diria que sim. Hoje em dia, os fãs têm muito mais acesso aos artistas e às pessoas de quem gostam. Por isso, faz sentido que essa relação se torne mais intensa e, em alguns casos, também mais confusa.
Como surgiu a colaboração com Juliano Barbagallo neste tema? O que trouxe ele à música?
Nós já tínhamos algumas baterias gravadas em casa, mas sentíamos que a música precisava de mais energia. Pensámos logo numa pessoa de quem gostamos muito: o Juliano Barbagallo, baterista da formação ao vivo dos Tame Impala.
Somos grandes fãs de Tame Impala e do trabalho dele enquanto baterista. Entrámos em contacto com o Juliano, ele aceitou participar e ficámos muito felizes.
Também não quisemos dar demasiadas diretrizes, porque gostamos muito daquilo que ele faz e queríamos que trouxesse a sua identidade para a música. Quando recebemos a gravação final das baterias, ficámos bastante surpreendidos — e ao mesmo tempo sentimos imediatamente que era exatamente aquilo que a canção precisava.
O vosso processo criativo acontece entre Portugal e o Reino Unido, muitas vezes à distância. De que forma isso influencia a vossa música?
Influencia bastante a forma como trabalhamos. Normalmente temos pouco tempo juntos, porque quando vou para Inglaterra nunca fico lá muito tempo. Às vezes consigo ficar mais dias, outras vezes menos, mas há sempre alguma limitação.
Isso obriga-nos a ser muito produtivos e pragmáticos no processo criativo. Gostamos de começar as músicas juntos, porque assim conseguimos perceber melhor o universo de cada tema e o feedback é mais imediato.
Essa pressão do tempo acaba também por tornar tudo mais espontâneo. Muitas vezes seguimos as ideias que surgem de forma mais intuitiva e natural.
O vosso primeiro single passou pela BBC Radio e entrou no Top 10 da Antena 3. Que impacto teve isso no vosso percurso?
Foi uma grande motivação para nós. Temos recebido feedback muito positivo tanto em Inglaterra como em Portugal, e isso dá-nos ainda mais vontade de continuar a trabalhar e a desenvolver o projeto.
Os singles lançados até agora mostram diferentes facetas do EP. Sentem que Ballet é um retrato diverso da identidade dos Soma Please?
Sim, claramente. Como dizia há pouco, gostamos muito quando os artistas mostram várias facetas diferentes da sua música.
Foi algo que aconteceu de forma espontânea no EP. Não houve propriamente uma estratégia pensada, mas gostamos dessa dinâmica entre temas mais calmos e outros mais acelerados.
Depois do lançamento do EP, o que gostavam que as pessoas levassem desta fase dos Soma Please?
Acima de tudo, gostávamos que as pessoas se identificassem com as músicas. E claro, se sentirem vontade de voltar a ouvi-las e carregar novamente no play, isso já nos deixa muito felizes.
Já pensam na transição para o palco? Como imaginam levar este universo para os concertos ao vivo?
Sim, estamos neste momento em fase de ensaios para os concertos.
Ao vivo vamos ter vários instrumentos: sintetizadores, guitarras, bateria e baixo. Queremos transportar toda a energia e o ambiente do EP para o palco.
O que podemos esperar do futuro dos Soma Please? Já existem novos caminhos a nascer depois deste EP?
Estamos já a escrever música nova. Não sentimos pressão para lançar rapidamente, mas ao mesmo tempo temos muita vontade de continuar a criar.
As músicas que estamos a desenvolver agora deverão fazer parte de um novo projeto, quem sabe até um álbum. Acho que esse é o caminho que queremos seguir.
Entre sintetizadores, guitarras e uma abordagem criativa marcada pela espontaneidade, os Soma Please continuam a afirmar-se como um dos projetos emergentes mais interessantes da nova pop alternativa portuguesa. Ballet funciona como cartão de visita para uma banda que não tem receio de cruzar universos sonoros distintos e deixa no ar a promessa de que o próximo passo poderá ser ainda mais ambicioso.
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