Entrevista com Sarah Negra

Entre o teatro, a performance e a música, Sarah Negra construiu um percurso artístico marcado pela procura de liberdade, verdade e transformação. Depois de mais de uma década ligada ao trabalho performativo com João Garcia Miguel, a artista apresenta Amor e Magia, um disco onde cruza espiritualidade, política emocional e autoconhecimento. Nesta conversa, fala sobre identidade, criação, rituais sonoros e a urgência de reaprender a amar.
Quem é a Sarah Negra hoje e o que mudou da Sara Ribeiro que começou nas artes performativas?
Acho que as coisas vão mudando sempre, mas vejo isso mais como uma evolução do que como uma separação. A música também é uma arte performativa: interpretar canções, letras, estar em palco, relacionar-me com o público, tudo isso faz parte da performance. Portanto, embora muita coisa tenha mudado, sinto que ambas as linguagens se alimentam mutuamente.
O nome "Sarah Negra" soa quase como uma identidade artística. É uma extensão de ti ou uma transformação?
É uma extensão de mim. O nome nasceu com a minha primeira banda, Los Negros. Inspirámo-nos em O Segundo Sexo, da Simone de Beauvoir, onde ela fala dessa divisão entre "os que pertencem" e "os outros".
Quando criámos o nome, queríamos dar voz aos excluídos, aos incompreendidos, às mulheres, aos negros, às pessoas que têm menos espaço e menos protagonismo na sociedade. Quando a banda terminou, fiquei com o "Negra" como forma de continuar essa missão: escrever e criar para aquilo que tantas vezes permanece sem voz.
Sentes que a tua arte procura provocar, libertar ou curar?
Libertar.
Mas a libertação implica enfrentar a verdade, e a verdade nem sempre é confortável. Pode provocar conflito, desconforto, confronto. Ainda assim, diria que o principal objetivo é libertar.
Trabalhaste mais de uma década com João Garcia Miguel. O que ficou desse percurso no teu corpo e na tua forma de estar em palco?
Foi um percurso muito importante. O João Garcia Miguel foi quase um mestre para mim dentro das artes performativas. Durante esses anos, além de atriz e criadora, formei-me também como escritora.
Viajei pelo mundo com espetáculos, conheci pessoas muito diferentes, enfrentei desafios constantes. Isso deu-me resistência e uma enorme riqueza artística. O trabalho era muito ligado ao corpo e à voz, e essa pesquisa acabou por se tornar essencial para aquilo que faço hoje.
Depois de tantos anos no teatro, o que encontraste na música que não encontravas noutras linguagens?
A música sempre existiu em paralelo com o teatro, mas foi nela que senti uma liberdade absoluta. No teatro trabalhava dentro da linguagem e da assinatura de outra pessoa. Na música, tudo partia de mim: as letras, as canções, as decisões criativas.
Foi aí que senti verdadeiramente que podia ser eu mesma e criar sem limites. Isso foi muito importante enquanto descoberta pessoal e empoderamento artístico.
As tuas canções parecem mais rituais do que músicas no sentido convencional. Concordas?
Acho que música e ritual estão profundamente ligados. Para mim, a música é uma forma de comunicação com o mundo interior das pessoas.
Se pensarmos em artistas como Fela Kuti, percebemos que a música pode ser ritual, política e transformação ao mesmo tempo. A minha música é isso tudo: música, mas também ritual.
Há uma recusa clara de géneros e classificações no teu trabalho. Isso é uma escolha artística ou uma necessidade pessoal?
As duas coisas.
Durante muito tempo ouvi perguntas como: "Queres fazer música, teatro ou cinema? Tens de escolher." Mas essa necessidade de catalogar vem mais do mercado do que de mim enquanto artista.
Quando crio, não penso em géneros. Penso em honestidade, em evolução, em fazer algo que me pareça verdadeiro e belo. Quero ser livre para cantar da forma que fizer sentido naquele momento.
Nenhum de nós é apenas uma coisa.
O que procuras provocar em quem te ouve ao vivo?
Espero que as pessoas se divirtam e se sintam tocadas. É importante para mim abrir consciências, libertar emoções e criar um espaço onde, nem que seja por instantes, as pessoas consigam sonhar.
O que significa liberdade dentro do universo sonoro da Sarah Negra?
Liberdade é poderes ser tu mesma sem medo.
Mas também é estares atenta ao que és, porque nós estamos sempre a mudar. É preciso escuta, sensibilidade e coragem para percebermos como comunicamos connosco e com os outros.
Amor e Magia chega agora ao mundo. Em que momento da tua vida nasceu este disco?
O disco começou a surgir logo depois do EP Deus Só. Durante uma pausa no Verão comecei a escrever imenso, letras, ideias, canções — e senti que era o momento certo para finalmente organizar tudo num álbum.
Era um desejo antigo. Tenho muito material que nunca chegou a ser formalizado num disco, e senti que estava alinhada com esse processo.
O título junta duas palavras muito fortes. O que representam hoje para ti o amor e a magia?
O amor é uma prática. É algo que exige reaprendizagem.
E não falo apenas do amor romântico. Falo do amor-próprio, do amor pela natureza, pela terra, pelo outro. Acho urgente reaprendermos a amar.
A magia tem a ver com autoconhecimento e com a consciência de que nem tudo é visível. Quanto mais nos conhecemos, mais conseguimos expandir esse amor para o mundo.
O que diz este disco sobre o tempo que estamos a viver?
O disco reflete bastante o presente, mas também tenta apresentar soluções. Não queria fazer um trabalho centrado apenas na ausência de amor, na falta de empatia ou de acolhimento.
Quisemos criar algo que falasse de cura, de prática do amor, de autocuidado. Isso está nas letras e também nos banhos de ervas associados a algumas músicas, pequenos gestos que convidam ao cuidado connosco próprios.
"Eu Só Quero a Paz" soa quase como uma oração contemporânea. Como nasceu essa canção?
Nasceu de tempestades pessoais, mas também daquilo que observo à minha volta.
Sinto que muitas pessoas vivem angustiadas, desligadas, desapaixonadas. Dizemos que está tudo bem, mas há uma tristeza silenciosa instalada.
A canção surgiu dessa vontade de equilíbrio e paz, para mim e para os outros. Porque acredito que, quando conseguimos encontrar paz dentro de nós, isso transforma inevitavelmente o mundo à nossa volta.
Na canção falas em "desaprender para voltar a aprender". O que tiveste de desaprender nos últimos anos?
Tive de desaprender aquilo que pensava ser. Tive de desaprender a amar também.
É importante termos confiança, mas também mantermos a consciência de que ainda não sabemos tudo. Quando acreditamos demasiado nas nossas certezas, tornamo-nos impermeáveis e isso pode levar à estagnação.
Para crescer e amar, às vezes é preciso desaprender e começar de novo.
O concerto na Casa Capitão marca o início de uma nova fase. O que pode o público esperar desta experiência ao vivo?
Não quero criar demasiadas expectativas. Quero apenas estar verdadeiramente presente.
Vamos trabalhar para que seja um momento mágico e memorável. Estarei acompanhada pelo Ricardo Martins, Alexandre Bernardo, Real Bermuda e Miguel Dias, todos eles fazem parte deste universo do disco.
Mais do que um espetáculo, será um encontro físico com as pessoas e a primeira materialização ao vivo de todas estas ideias.
Para terminar: quando se desligam os microfones e termina o concerto, quem fica?
Fica a Sara. E fica o silêncio.
Normalmente preciso primeiro desse silêncio antes de ir abraçar a banda ou falar com as pessoas. Quando termina um concerto, fico eu e o silêncio.
Num tempo marcado pelo ruído, pela velocidade e pela desconexão, Sarah Negra escolhe a escuta, o silêncio e a verdade. Amor e Magia afirma-se como um manifesto íntimo sobre liberdade, amor e transformação, revelando uma artista que recusa fronteiras criativas e procura, acima de tudo, tocar quem a escuta de forma real e profunda.
O álbum 'Amor e Magia será apresentado ao vivo na Casa Capitão dia 18 de Junho.
Foto: Vera Marmelo
