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Entrevista com Rogério Charraz

O cantor e compositor português fala sobre o seu percurso, os mestres que o inspiraram, a importância das palavras e os projetos que cruzam música, memória e intervenção social. Entre a liberdade criativa, a família e o amor por Portugal, Rogério Charraz defende uma ideia de sucesso que vai muito além da fama.
Depois de tantos anos de carreira, como descreves a fase em que te encontras?
Sinto-me realizado, feliz e entusiasmado com os projetos que aí vêm. Tenho uma forma de estar na vida que me leva a olhar mais para a frente do que para trás. Gosto muito daquilo que faço e tenho a felicidade de poder criar a música em que acredito, sem cedências, e de conseguir sustentar a minha família com o meu trabalho. Há artistas muito mais conhecidos do que eu, mas dificilmente encontrarás alguém mais feliz com aquilo que faz.
Se tivesses de te apresentar sem recorrer à palavra música, que três palavras escolherias?
Pai, Portugal e música. A paternidade é aquilo que mais nos transforma na vida. Tudo o resto é relativo quando temos um filho. E Portugal porque adoro este país e não me imagino a viver noutro lugar. Gosto de percorrer o território nacional e não tenho uma grande ambição de construir uma carreira internacional.
Começaste a fazer música muito jovem, mas demoraste a assumir que querias ser músico profissional. O que te levou a dar esse passo?
Os meus pais são pessoas humildes, que trabalharam muito para dar aos três filhos as condições necessárias para seguirem os seus sonhos. O meu pai tinha receio de que a música não me garantisse estabilidade e insistia que precisava de ter um emprego. Durante anos, trabalhei noutras áreas enquanto continuava ligado à música. Aos 30 anos, percebi que não valia a pena lutar contra aquilo que realmente queria ser. A música acabou por vencer esse braço de ferro e ainda bem.
Ao longo do percurso, cruzaste-te com nomes fundamentais da música portuguesa, como Fausto, José Mário Branco, Rui Veloso e Luís Represas. O que representaram para ti?
Foram os meus mestres e continuam a sê-lo. Como não tenho formação musical académica, aprendi muito a ouvir discos, a observar os outros músicos e a tentar transformar essas influências em algo meu. Passei horas a ouvir as suas canções, a perceber como trabalhavam as melodias, as letras e a língua portuguesa.
Ter alguns destes artistas a participar nos meus discos foi também uma forma de perceber que o meu caminho fazia sentido. Alguns tornaram-se amigos, o que muito me honra. Acima de tudo, existe um respeito mútuo entre colegas de profissão.
Alguma vez sentiste dificuldade em encontrar a tua própria identidade musical, sobretudo quando te comparavam com outros artistas?
Quando comecei, houve quem me comparasse ao Rui Veloso, sobretudo pela forma de cantar. Nunca quis imitar ninguém nem ser o novo seja quem for. É natural que os artistas que ouvimos durante anos acabem por fazer parte da nossa identidade. Hoje, quando reconheço influências de músicos que admiro nas minhas canções, encaro isso como um elogio. O importante é continuar a construir o nosso próprio caminho.
A tua música dá grande importância às palavras. Como funciona o processo de composição com Zé Fialho Gouveia?
A minha carreira divide-se entre antes e depois do Zé. Quando começámos a trabalhar juntos, percebi que ele tinha uma enorme capacidade para escrever letras e deixei de insistir tanto nessa parte. Trabalhamos a partir de um conceito: conversamos sobre a história que queremos contar, as personagens e os temas. Depois, ele escreve as letras e eu componho as músicas a partir delas.
Tem sido uma parceria extraordinária, que nos permitiu criar discos conceptuais e desenvolver histórias que vão muito além de um conjunto de canções.
Em projetos como Coreto e Reunião do Condomínio, a música serve também para refletir sobre a sociedade. Que preocupações procuras trazer para as canções?
Em Coreto, exploramos uma história de amor, o regresso às origens e o contraste entre a cidade e o interior. Preocupa-me o desequilíbrio crescente do país: as grandes cidades estão cada vez mais sobrelotadas, enquanto muitas zonas do interior perdem serviços, escolas e condições essenciais para quem lá vive.
Em Reunião do Condomínio, olhamos para a realidade urbana através das pessoas que habitam um mesmo prédio. Cada canção acompanha uma vida diferente e aborda temas como a imigração, o assédio sexual e a parentalidade após o divórcio. Interessa-me contar histórias que nos façam pensar sobre o mundo à nossa volta.
A canção «Quando Nós Formos Velhinhos» ganhou uma dimensão especial com o videoclip protagonizado por Ruy de Carvalho e Eunice Muñoz. Como recordas essa experiência?
Foi uma experiência profundamente emocionante. Estávamos em plena pandemia e havia muitas dúvidas sobre a possibilidade de realizar a gravação, sobretudo pela idade e fragilidade dos dois atores. Mas aceitaram imediatamente o convite.
Quando chegaram ao Teatro da Trindade, parecia difícil imaginar como tudo iria acontecer. Assim que o realizador deu a primeira indicação, transformaram-se. Foi como se tivessem recuperado décadas de vida e energia. Fizeram tudo à primeira e emocionaram toda a equipa.
Nesse dia, aprendi uma grande lição: para um artista, a verdadeira morte é estar longe do palco. O vídeo tocou muitas pessoas e tornou a canção ainda mais especial.
Outro projeto marcante é Anónimos de Abril, que recupera histórias menos conhecidas da resistência à ditadura. Como nasceu esta ideia?
Nasceu da vontade de dar voz às muitas mulheres e aos muitos homens que arriscaram a vida durante os 48 anos de resistência à ditadura, mas que raramente são lembrados quando celebramos o 25 de Abril.
O Zé Fialho Gouveia fez um trabalho de investigação extraordinário, procurando histórias, documentos e testemunhos familiares. A partir desse material, criámos canções e um espetáculo que cruza música e imagem.
Temos levado o projeto às escolas para falar aos mais novos sobre a vida antes do 25 de Abril e mostrar-lhes que a História também é feita de pessoas anónimas. Continuamos a descobrir novas histórias e esperamos conseguir desenvolver um segundo volume do disco e do livro.
Também estás na estrada com A Palavra, ao lado de Júlio Machado Vaz. O que distingue este espetáculo?
É um formato mais intimista, em que estamos apenas os dois em palco. Partimos de uma palavra que nos leva a uma canção, a um poema ou a uma reflexão. A partir daí, vamos construindo uma conversa entre música, poesia e pensamento.
Nenhum espetáculo é igual ao anterior, porque o caminho depende das associações que vamos fazendo e da participação do público. É uma oportunidade para interpretar também canções de outros artistas que admiro e explorar novas formas de comunicar.
O que te deu a música e o que te tirou?
Deu-me realização pessoal, amizades extraordinárias e a possibilidade de acordar todos os dias entusiasmado com aquilo que tenho para fazer. Mesmo quando fico em casa a compor ou a tentar vender espetáculos, sinto-me feliz.
Claro que existem frustrações, dias difíceis e momentos em que gostávamos de ter mais oportunidades. Também há ausências, porque a vida na estrada implica algum afastamento da família. Mas, comparando tudo aquilo que a música me deu com aquilo que me tirou, sinto que recebi muito mais do que perdi.
A tua definição de sucesso mudou ao longo dos anos?
Mudou muito. Quando comecei, associava o sucesso à venda de milhares de discos, às aparições na televisão, a dezenas de concertos por ano e ao reconhecimento em todo o país.
Hoje, sucesso é poder fazer a música de que gosto, trabalhar com as pessoas de quem gosto, percorrer Portugal e ganhar o suficiente para sustentar a minha família. Também conheci artistas muito famosos que não são felizes, o que me fez perceber que a notoriedade não é garantia de realização pessoal.
E quando as luzes do palco se apagam, quem dá voz ao Rogério Charraz?
A família e os amigos. A vida de um músico pode ser uma montanha-russa: numa noite estamos no auge, rodeados de aplausos, e no dia seguinte regressamos à rotina. Essa descida pode ser difícil de gerir.
Felizmente, tenho uma família que me dá equilíbrio. Levar os meus filhos à escola, estar em casa e trabalhar nas minhas canções são coisas que me fazem muito feliz. Para mim, essa é a maior riqueza que podemos ter.
Entre a paixão pela música, o amor à família e o compromisso com as histórias que merecem ser contadas, Rogério Charraz construiu um percurso marcado pela autenticidade e pela liberdade criativa. Mais do que a fama ou o reconhecimento, valoriza a possibilidade de fazer aquilo em que acredita e de levar a sua música a todo o país. Um artista que transforma palavras em canções, dá voz à memória coletiva e encontra na simplicidade da vida a verdadeira definição de sucesso.
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