Os britânicos Asian Dub Foundation, a senegalesa Orchestra Baobab e a brasileira Tulipa Ruiz são as mais recentes confirmações do Festival MED 2026, completando um dos cartazes mais internacionais de sempre da iniciativa algarvia.
Entrevista com Recante

No próximo dia 7 de junho, pelas 18h00, o palco do Fundação Pedro Ruivo, em Faro, recebe um encontro entre tradição e contemporaneidade. Os Recante voltam a juntar-se ao Grupo Coral "Raízes do Cante" para um espetáculo que promete aprofundar o diálogo entre o cante alentejano e as linguagens eletrónicas que têm marcado o percurso do projeto. A atuação surge numa fase particularmente importante para os Recante, que preparam novos lançamentos, depois de concertos esgotados em Lisboa e de uma crescente afirmação no panorama da música portuguesa. Entre memórias, sintetizadores e modas que atravessam gerações, os Recante continuam a construir uma identidade artística própria, onde o património musical do Alentejo ganha novas leituras sem perder a sua essência. À conversa connosco, falaram sobre as origens do projeto, as influências que moldam a sua sonoridade e os próximos passos de um percurso que continua em expansão.
Como nasceu o projeto Recante?
Luís Caracinha: O projeto surgiu numa fase em que a Maria João Jonas foi selecionada para participar no The Voice Portugal. Queríamos que apresentasse um repertório que refletisse a sua identidade e, tendo ela uma ligação muito forte ao Alentejo, começámos a criar versões de temas tradicionais com arranjos contemporâneos.
A partir daí explorámos a combinação entre canções tradicionais e sonoridades eletrónicas, recorrendo tanto a sintetizadores como a instrumentos analógicos. Produzimos algumas maquetes para o programa que acabaram por ficar guardadas durante algum tempo.
Mais tarde recebemos um convite do Paulo Silva para participar no RHI, em Loulé, um evento que promove projetos portugueses junto do mercado internacional. Recuperámos essas maquetes, criámos mais três temas e apresentámos um showcase de quinze minutos. Foi aí que os Recante nasceram oficialmente.
A experiência correu muito bem e decidimos seguir este caminho: reinterpretar o repertório tradicional através de uma estética inspirada na revolução dos sintetizadores dos anos 70, com referências como Jean-Michel Jarre e Vangelis, mas utilizando também as ferramentas tecnológicas da atualidade.
O nome Recante sugere memória, eco e tradição. O que representa para vocês?
Maria João Jonas: Essencialmente, é uma ideia de reinterpretação. É voltar a cantar as nossas modas, o nosso cancioneiro tradicional. É um "recantar" daquilo que faz parte da nossa identidade.
Como tem sido a receção do público mais conservador a esta abordagem?
Maria João Jonas: Esse foi um tema que discutimos desde o início. Existia algum receio relativamente à forma como os puristas poderiam encarar a nossa proposta.
Mas, na realidade, nunca sentimos rejeição. Não estamos a alterar a essência destas canções. As melodias mantêm-se, o respeito pela tradição está presente. Apenas introduzimos instrumentos que normalmente não estão associados a este repertório.
Luís Caracinha: Mais do que reinventar, estamos a contribuir para a continuidade destas canções. O património musical só permanece vivo se continuar a ser cantado e ouvido por novas gerações.
O acordeão, por exemplo, nem sempre fez parte da música popular portuguesa e hoje é um instrumento absolutamente natural nesse contexto. O mesmo poderá acontecer com outras linguagens musicais.
O importante é que os mais novos se aproximem destas canções e as possam cantar juntamente com os mais velhos. Esse é talvez o contributo mais relevante que podemos dar.
Existe um prazer especial em partilhar estas músicas com os grupos corais tradicionais?
Maria João Jonas: Sem dúvida. Tivemos essa experiência com o Grupo Coral Raízes do Cante, da Cuba, e vamos voltar a partilhar palco com eles.
É muito gratificante porque eles representam a essência do cante. O que nós fazemos é interpretar modas tradicionais. O cante, na sua definição mais pura, é cantado a várias vozes e sem instrumentos.
Estar com eles é simultaneamente enriquecedor e muito divertido.
Há uma dimensão bastante cinematográfica na vossa música. Isso surge de forma consciente?
Luís Caracinha: Sim. Quando criamos música não pensamos apenas no som. Pensamos nos ambientes, nas imagens e nas sensações que queremos despertar.
As nossas referências passam muitas vezes pela música para cinema e pela construção de atmosferas. Procuramos criar espaços sonoros que permitam ao público viajar e construir as suas próprias interpretações.
Também nos interessa apresentar um Alentejo contemporâneo, distante da visão folclórica ou nostálgica que muitas vezes lhe é associada.
Que influências nacionais reconhecem no vosso trabalho?
Luís Caracinha: Há muitos exemplos. Costumo mencionar referências internacionais porque são facilmente reconhecidas pelo público, mas a verdade é que em Portugal existem artistas fundamentais neste percurso.
Penso no trabalho de João Aguardela, quer nos Sitiados quer nos Naifa, na forma como aproximou a música tradicional de outras linguagens. Penso também em artistas como José Cid, Dulce Pontes, Jorge Cruz ou Virgem Suta.
Mais recentemente, há toda uma nova geração que está a revisitar a música tradicional portuguesa através de linguagens contemporâneas. Isso é extremamente positivo porque ajuda a valorizar algo que nos pertence a todos.
Como se trabalha a eletrónica sem perder a emoção dos temas originais?
Luís Caracinha: Para nós, a voz é o elemento central. É ela que garante a preservação da alma da canção.
Os sintetizadores e os restantes elementos servem para expandir o universo emocional da música, criando novas camadas e novas leituras.
Não procuramos competir com os grupos corais porque seria impossível reproduzir o impacto de vinte vozes a cantar juntas. Os sintetizadores ajudam-nos a criar outra dimensão emocional, complementando aquilo que a voz transmite.
Essa linguagem também é uma forma de aproximar o cante das gerações mais jovens?
Maria João Jonas: Sim, claramente.
Os alentejanos conhecem estas modas porque cresceram com elas, mas para quem está fora da região esse contacto já não é tão natural. A nossa abordagem procura criar uma ponte.
Se isso permitir que mais pessoas descubram estas canções, então o objetivo está cumprido.
A tua interpretação vocal é o elemento mais tradicional dos Recante?
Maria João Jonas: Sem dúvida. O Luís tende a ser mais irreverente na abordagem musical e muitas vezes sou eu quem procura manter uma ligação mais próxima da tradição.
A forma como canto respeita a estrutura melódica original das modas. É importante preservar essa identidade.
Porque escolheram "Menina Estás à Janela" para esta nova interpretação?
Maria João Jonas: Porque é uma canção que faz parte da minha vida desde sempre.
Foi a primeira música que cantei, a primeira que toquei na guitarra e esteve presente em inúmeros momentos da minha infância. Quando participei no The Voice, era uma das canções que mais queria interpretar.
De certa forma, era inevitável que acabasse por integrar o universo dos Recante.
A gravação no Museu Municipal de Faro influenciou o resultado final?
Luís Caracinha: Bastante.
Não é uma sala de concertos, mas sim um espaço expositivo, com características acústicas muito próprias. Tivemos de aceitar as limitações e aproveitar aquilo que o espaço nos oferecia.
Gravámos cinco temas ao vivo no âmbito das Imersa Sessions. "Menina Estás à Janela" foi o primeiro a ser divulgado. Depois surgirá "Diz a Laranja ao Limão" e, posteriormente, um EP ao vivo com os cinco temas gravados no museu.
O que podem revelar sobre os próximos trabalhos?
Maria João Jonas: Depois do EP ao vivo vamos dedicar-nos mais profundamente aos temas originais.
Já temos algumas composições próprias que continuam em desenvolvimento. Queremos lançar música da qual nos orgulhemos verdadeiramente.
Luís Caracinha: O futuro álbum será composto maioritariamente por originais. Podemos incluir uma ou duas versões, mas o foco será claramente a criação própria.
O que gostariam que o público sentisse ao ouvir este novo trabalho?
Maria João Jonas: Gostávamos que sentisse o Alentejo.
Não o Alentejo dos postais ilustrados, mas o Alentejo real: o calor, a paisagem, o vento nas searas, os cheiros, os sons, a vivência quotidiana.
Se conseguirmos despertar essas imagens e essas sensações, já ficamos muito felizes.
Qual foi o concerto mais marcante da vossa carreira até agora?
Maria João Jonas: O concerto na Casa do Alentejo, em Lisboa.
Foi a nossa primeira apresentação na capital e havia alguma expectativa. Os bilhetes para a primeira sessão esgotaram rapidamente e acabámos por abrir uma segunda sessão, que também esgotou.
Foi um momento muito especial.
Luís Caracinha: Concordo. Mas também sinto que cada concerto acaba por superar o anterior. Temos sentido um crescimento muito orgânico e isso motiva-nos a continuar.
A participação no programa Simple The Best, da TVI, trouxe maior visibilidade ao projeto?
Maria João Jonas: Esse era precisamente o objetivo.
Estar em horário nobre permitiu-nos chegar a pessoas que talvez nunca tivessem ouvido falar dos Recante. Fomos sem expectativas competitivas e acabámos por chegar à final.
Foi uma experiência muito positiva.
Gostariam de levar esta sonoridade para fora de Portugal?
Luís Caracinha: Sim. Aliás, já tivemos oportunidade de atuar em São Tomé e temos outros projetos internacionais em preparação que ainda não podemos revelar.
Uma moda ou som do Alentejo que vos emocione particularmente?
Maria João Jonas: Fui Colher uma Romã, pela sua ligação à minha história pessoal. E também Solidão, que continua a emocionar-me sempre.
Luís Caracinha: Eu diria o som da água a escorrer pelos telhados depois da chuva. É um som que gostaria de transformar em música.
Se os Recante fossem uma paisagem?
Maria João Jonas: A vista a partir do Castelo de Vila Ruiva. Aliás, pode ser vista no videoclipe de Amor Amador.
O que gostariam que o público sentisse após o silêncio final de um concerto?
Maria João Jonas: Gostava que as pessoas se reencontrassem em momentos das suas próprias vidas através da nossa música.
Porque é este o momento certo para descobrir os Recante?
Luís Caracinha: Porque estamos numa fase muito especial. Ainda estamos a crescer, a experimentar e a construir a nossa identidade artística.
Temos pouco tempo disponível para o projeto porque conciliamos os Recante com muitas outras atividades profissionais e pessoais. Ainda assim, em poucos anos já conseguimos fazer muito.
E acreditamos sinceramente que o melhor ainda está para vir.
Entre a herança do cante alentejano e a linguagem da eletrónica contemporânea, os Recante continuam a construir um percurso singular na música portuguesa. Com um EP ao vivo prestes a ser lançado, um álbum de originais em preparação e uma crescente projeção nacional, o projeto de Maria João Jonas e Luís Caracinha prova que tradição e inovação não só podem coexistir, como podem abrir novos caminhos para o património musical português.
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