Entrevista com NO MAKA

22-04-2026

Depois de anos a somar créditos como produtores e compositores, os NO MAKA entram agora numa nova fase mais assumida, mais orgânica e, acima de tudo, mais próxima do formato de banda. O sucesso global de "Faz Gostoso", reimaginado por Madonna e Anitta, colocou o nome no mapa internacional, mas Duarte Carvalho e Bruno Ferreira (Twelve) querem ir além dessa etiqueta. Entre a transição para um projeto de originais, a entrada de uma nova voz e a preparação de um álbum de estreia tardio, há uma identidade a consolidar feita de influências pop, raízes africanas e uma crescente abertura ao lado mais emocional da música. Nesta conversa, falam sobre crescimento, pressão, liberdade criativa e o significado de continuar "sem problemas" num contexto cada vez mais exigente. 


Depois de um sucesso global como "Faz Gostoso", que chegou ao topo da Billboard Hot 100 com Madonna e Anitta, o que mudou na vossa forma de encarar a música e a carreira?

Duarte: Antes de mais, obrigado pelo convite — é um gosto enorme estar aqui. Sinceramente, não mudou grande coisa a nível humano. Continuo a ser a mesma pessoa, nada me subiu à cabeça. Ainda hoje parece um pouco surreal. Claro que teve impacto na nossa sonoridade e no nosso percurso — e um impacto muito positivo. Desde essa altura, fomos caminhando cada vez mais para o pop e, sobretudo, para nos apresentarmos como aquilo que somos hoje: uma banda. Essa evolução tem-se vindo a consolidar desde 2017/2018 até agora.

Olhando para trás, esse momento abriu portas criativas ou trouxe também mais pressão?

Duarte: Trouxe, sem dúvida. Estamos a falar da "rainha do pop", uma artista com uma carreira enorme. É natural que tenha impacto na forma como te expões, como te posicionas e como encaras o trabalho. Trouxe-nos mais maturidade e sentido de responsabilidade. A única pena é não termos conhecido a Madonna pessoalmente ao contrário do que muita gente pensa, nunca estivemos com ela.

Ao longo dos anos trabalharam com artistas muito diferentes como Calema, Blaya, Syro. O que aprenderam com essa diversidade?

Duarte: Aprendemos muito. Como dizia, tudo isso influencia a nossa sonoridade e a forma como vemos a nossa carreira. São artistas com percursos sólidos, o que nos inspira a trabalhar mais e melhor. No nosso caso, os Calema tiveram uma influência especial, não só em nós, mas em vários projetos. A nossa música tem uma forte componente africana, cada vez mais integrada no universo pop, seja nas batidas, melodias ou guitarras. Foi um orgulho enorme trabalhar com eles.

O que representou a participação no Festival da Canção 2024?

Duarte: Foi um ponto de viragem e uma confirmação de que assumir o projeto como banda era o caminho certo. Também coincidiu com a entrada do Bruno. A Ana Maria, que interpretou a canção no Festival, foi uma convidada, não fazia parte do projeto. Isso fez-nos perceber que precisávamos de uma identidade mais coesa, nomeadamente de uma voz fixa. Sempre trabalhámos com vários cantores, mas chegou o momento de consolidar essa vertente. Foi aí que começámos a procurar alguém — e felizmente encontrámos o Bruno.

Com a entrada do Bruno, o projeto ganhou uma nova identidade. O que trouxe de diferente?

Bruno Ferreira: Trouxe beleza! (risos)

Duarte: Isso o projeto já tinha!

Bruno: Falando a sério, acho que trouxe uma vibe mais romântica. Criámos uma fusão entre algo mais rítmico e uma abordagem mais emocional, com uma voz mais suave. Vejo isso como uma mais-valia.

Duarte: Concordo. O Bruno trouxe também uma forte componente musical, não é só intérprete, é um excelente compositor. O tema "Bem", por exemplo, foi maioritariamente composto por ele. Identificámo-nos logo com a música, gostamos muito de melodias intensas, baladas, piano. E isso abriu-nos novas possibilidades.

Esta transição de dupla de produtores para banda mudou a dinâmica criativa em estúdio?

Duarte: Não significativamente. Desde as primeiras sessões percebemos que havia uma grande compatibilidade, nas ideias, nas referências, nas temáticas. Talvez tenha mudado mais a perceção do público. Durante muito tempo fomos vistos sobretudo como produtores, mas somos músicos, tocamos, compomos, produzimos. Isto não é só ir buscar beats à internet.

Duarte: (risos) Exato. No fundo, a experiência tornou-se ainda mais intensa.

"Bem" revela um lado mais emocional. Foi um desafio sair da vossa zona de conforto?

Bruno: Para mim, não é uma linguagem muito natural. Talvez para o Duarte tenha sido um pouco diferente, mas os NO MAKA já tinham esse lado.

Duarte: Sempre adorei baladas. Simplesmente não tínhamos tido oportunidade de explorar tanto esse registo, porque o projeto estava mais focado numa vertente eletrónica e dançável. Agora, enquanto banda, com piano e guitarra em destaque, faz todo o sentido. Foi quase concretizar um desejo antigo.

Sendo produtores experientes, foi difícil não "sobreproduzir" e deixar a canção respirar?

Duarte: Foi um equilíbrio. Chegámos a um ponto em que percebemos que menos era mais. Não quisemos perder a emoção da música.

Bruno: A base da canção, o piano pedia isso. Embora, ao tocarmos ao vivo, às vezes sentimos que hoje acrescentaríamos pequenos detalhes. Mas, no geral, a produção serve perfeitamente a música.

Esta nova fase aproxima-vos mais do público enquanto artistas e não apenas como produtores?

Duarte: Sem dúvida. Durante algum tempo, o lado da produção acabou por ofuscar o projeto de originais. As pessoas associavam-nos mais às músicas que fizemos para outros artistas. Hoje, essa separação está mais clara: o projeto NO MAKA é focado em originais. Continuamos a produzir, claro, mas já não assinamos essas produções como NO MAKA, são projetos distintos.

Os singles recentes já apontam para um álbum?

Duarte: Sim. Estamos a preparar um álbum, ainda sem data definida, mas é um objetivo claro. Queremos construir uma identidade sólida com esse trabalho.

Bruno: Quando sair, acho que as pessoas vão perceber verdadeiramente o que são os NO MAKA hoje.

Duarte: É curioso nunca termos lançado um álbum, tendo em conta o tempo de existência do projeto. Mas faz parte da evolução natural, os projetos crescem, adaptam-se. Agora faz todo o sentido.

Depois de uma conquista internacional tão relevante, quais são os próximos objetivos?

Duarte: (risos) Chegar aos 50 mil seguidores no TikTok até setembro! Mas falando a sério, o digital é um desafio enorme para todos os artistas hoje em dia. Para além disso, queremos lançar o álbum, criar um espetáculo em nome próprio e, claro, conquistar uma nova platina nesta fase.

Bruno: Eu ainda não tenho uma, por isso estou à espera!

O nome NO MAKA significa "sem problemas". Numa fase mais emocional, essa filosofia mantém-se?

Mais do que nunca. Hoje a indústria é mais complexa, os desafios são maiores. E é precisamente por isso que é importante manter essa atitude, sangue-frio, foco, e não reagir impulsivamente. Acho que essa mensagem faz ainda mais sentido hoje do que quando criámos o projeto, em 2013.


Num percurso feito de reinvenção e consistência, os NO MAKA parecem finalmente alinhados com aquilo que sempre quiseram ser. Entre o passado de produtores de sucesso e o presente enquanto banda de originais, há um caminho que se clarifica mais direto, mais emocional e mais autêntico. Com um álbum a caminho e uma identidade cada vez mais definida, Duarte Carvalho e Bruno Ferreira mostram que o "sem problemas" não é ausência de desafios, mas sim uma forma de os enfrentar: com foco, maturidade e a música no centro de tudo.

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