Entrevista com Mónica Sintra

Durante mais de três décadas, Mónica Sintra construiu um percurso sólido na música portuguesa, tornando-se uma das vozes mais acarinhadas pelo público. Dos grandes êxitos românticos dos anos 90 aos desafios artísticos mais recentes, a cantora tem sabido reinventar-se sem nunca perder a identidade que a tornou uma referência.
Numa conversa franca e descontraída, Mónica revisita os primeiros passos na música, recorda o apoio incondicional da família, fala da relação especial que mantém com os fãs e revela de que forma a maternidade transformou a mulher e a artista. A propósito do recente single Barbie, aborda ainda temas como a pressão das redes sociais, a autonomia feminina e as mudanças nas relações humanas.
Entre memórias, reflexões e novos projetos, fica o retrato de uma artista que continua a olhar para o futuro com a mesma paixão que a levou, ainda criança, a sonhar com os palcos.
A música entrou muito cedo na tua vida. Que memórias guardas desses primeiros concursos e programas de talentos?
As memórias são as melhores possíveis. Enquanto muitas crianças tinham brincadeiras favoritas, a minha era cantar. Adorava fingir que dava concertos, organizar espetáculos imaginários e convencer a família a ouvir-me cantar, embora, por vezes, já estivessem um pouco cansados.
Passava também muito tempo sozinha no quarto, a imaginar que tinha um grande público à minha frente. Foi uma infância muito feliz e, acima de tudo, marcada pela certeza daquilo que queria fazer no futuro. Sempre senti que a minha vida passaria pela música. Não sabia se seria cantora de bares, de estúdio ou de palco, mas tinha a convicção de que iria cantar. E, felizmente, assim aconteceu.
Os teus pais tiveram um papel muito importante no teu percurso. O que aprendeste com esse apoio incondicional?
Aprendi algo que hoje tento transmitir ao meu filho: quando um sonho é verdadeiro e existe persistência, torna-se muito mais fácil concretizá-lo. O apoio dos meus pais foi fundamental. Eu era menor de idade, não podia deslocar-me sozinha nem participar em castings sem autorização. Eles dedicaram muito do seu tempo para me acompanharem e apoiarem.
Acredito que os pais não devem projetar nos filhos os seus próprios desejos. Cada criança deve seguir naturalmente aquilo que gosta de fazer. Para mim, um dos maiores luxos da vida é acordar feliz com o trabalho que se faz, sair de casa com um sorriso e regressar com vontade de voltar no dia seguinte. Os meus pais ajudaram-me a alcançar isso.
Nos anos 90 tornaste-te uma das vozes mais marcantes da música romântica portuguesa. Como olhas hoje para essa fase da tua carreira?
Foi uma combinação de persistência e sorte. Quando se alcança o sucesso, há sempre vários fatores que se alinham. Naquela altura, a música portuguesa tinha um enorme destaque na televisão. Existiam programas como Made in Portugal, Roda dos Milhões e muitos outros que davam visibilidade aos artistas nacionais.
Foi uma época muito especial para quem queria apresentar o seu trabalho. Ainda hoje encontro colegas desses tempos, como a Rebeca ou a Ruth Marlene, e é bonito perceber que continuamos todos ligados à música. Atualmente, as plataformas digitais desempenham um papel muito importante na divulgação, mas naquela época a televisão era o veículo mais imediato para chegar ao público.
Quando lançaste "Afinal Havia Outra", imaginavas o impacto que a música viria a ter?
Não. Eu já tinha gravado alguns temas anteriormente. O meu primeiro trabalho surgiu quando tinha 13 anos, em formato cassete, e mais tarde, aos 15, gravei o primeiro CD. Fazia alguns espetáculos, sobretudo de carácter solidário, mas ainda não existia uma música que marcasse verdadeiramente o público.
Quando surgiu "Afinal Havia Outra", tudo mudou. A canção começou por ser um fenómeno nas rádios. Muitas pessoas conheciam a música, mas não sabiam quem a cantava. Foi muito gratificante ver que, com o passar do tempo e com as aparições na televisão, as pessoas começaram a associar a voz à artista.
O público acompanha-te há décadas. Como descreves a relação que construíste com os fãs?
Essa relação foi evoluindo ao longo dos anos. No início existia algo que hoje já quase desapareceu: as cartas. Tinha um apartado postal e recebia inúmeras mensagens. Algumas eram de parabéns, outras contavam histórias pessoais e explicavam como determinadas músicas refletiam momentos das suas vidas.
Mais tarde surgiu a proximidade dos concertos e, atualmente, as redes sociais criaram uma ligação ainda mais direta. As pessoas acompanham-nos diariamente, conhecem aspetos da nossa vida profissional e pessoal, e isso gera uma sensação de familiaridade muito interessante.
Há fãs que acompanham os meus concertos há muitos anos e que já reconheço imediatamente. Em muitos espetáculos, passo mais tempo a conversar com eles do que propriamente nos bastidores. É bonito assistir a esta evolução.
Ainda sentes emoção quando cantas temas como "Na Minha Cama Com Ela" ou "Anjos da Guarda"?
Sempre. Foram essas músicas que me permitiram construir a carreira que tenho hoje. É impossível cantá-las sem sentir emoção.
Além disso, há algo muito especial: ver várias gerações a cantá-las. Hoje encontro crianças que nem sequer eram nascidas quando os temas foram lançados e que sabem as letras de cor. Muitas vezes nem compreendem totalmente o significado das canções, mas cresceram a ouvi-las em casa através dos pais. Isso é extraordinário.
Há algum momento em palco que te tenha marcado particularmente?
Existem muitos, mas lembro-me especialmente de uma menina muito pequena que, durante um concerto, subiu ao palco. Não tinha seguranças; apenas alguém da equipa que me dava apoio.
Ela ficou tão emocionada que passou praticamente todo o espetáculo agarrada à minha perna. Não queria sair dali. Era um carinho genuíno, muito puro. Depois desse dia continuámos em contacto através dos pais durante algum tempo. Ela dizia que gostava das minhas músicas, mas também dos penteados e das roupas que eu usava. Para ela, eu era uma espécie de amiga imaginária que se tinha tornado real.
A maternidade mudou a mulher e a artista Mónica Sintra?
Mudou completamente. Como mulher, deu-me uma autoestima diferente, um sentido de responsabilidade maior e novas prioridades.
Continuo a fazer muitos espetáculos, e o Duarte cresceu habituado a esta realidade. No verão estou mais ausente devido ao trabalho, mas no inverno faço questão de estar muito presente.
A maternidade alterou também a forma como vejo o mundo. Antes pensava mais em mim e no meu futuro. Hoje penso sobretudo no legado que quero deixar ao meu filho, nos valores que lhe quero transmitir e no mundo que gostaria que ele encontrasse.
Em 2004 estreaste-te no teatro de revista. Foi um desafio sair da tua zona de conforto?
Foi muito interessante. Inicialmente fui convidada apenas para interpretar algumas músicas, mas acabámos por incluir momentos de representação.
A comédia é um registo muito exigente. Fazer rir é difícil. Houve momentos que resultaram melhor do que outros, mas foi uma experiência enriquecedora. No teatro existe uma dinâmica muito diferente da música. Fazemos parte de um coletivo e temos de respeitar o trabalho de todos. Gostei muito desse desafio.
Também lançaste o livro A Um Passo do Abismo. Sentiste necessidade de mostrar um lado mais íntimo ao público?
Sim. Muitas pessoas olhavam para mim e viam apenas uma vida perfeita. No entanto, enquanto vivia uma fase muito feliz em termos profissionais, estava simultaneamente a enfrentar problemas pessoais relacionados com distúrbios alimentares.
Quis partilhar essa experiência para alertar os jovens, mas também os pais. Muitas vezes existem sinais que passam despercebidos. Achei importante utilizar a minha visibilidade para chamar a atenção para essa realidade.
Em 2024 surpreendeste os fãs com um álbum marcado pela força feminina. Sentias necessidade de transmitir essa mensagem?
Sem dúvida. Depois de ser mãe ganhei uma autoestima diferente e comecei a refletir mais sobre o papel da mulher.
As mulheres acumulam muitas responsabilidades: cuidar dos filhos, da casa, da carreira, das amizades e da vida pessoal. Quis transmitir a ideia de que não precisamos de ser perfeitas em tudo. Gosto muito da frase: "é melhor feito do que perfeito". Precisamos de aliviar a pressão que colocamos sobre nós próprias e perceber que continuamos a ser extraordinárias mesmo assim.
Temas como "Mulher" e "Rainha" mostram uma Mónica Sintra mais afirmativa. O que mudou?
Foram as experiências da vida. Houve obstáculos, desilusões e momentos em que senti que precisava de afirmar mais a minha posição.
Aprendi a ser mais assertiva e a lutar pelo meu espaço. A música tornou-se a minha forma mais natural de expressão. É através das canções que partilho as minhas alegrias, as minhas tristezas e tudo aquilo que sinto.
O novo single "Barbie" traz uma sonoridade atual e uma crítica às relações modernas. Como nasceu esta música?
Nasceu de forma muito espontânea. Estava de férias e a percorrer as redes sociais quando comecei a reparar na quantidade de pessoas que mostram uma vida que não corresponde à realidade.
Vivemos rodeados de filtros e de uma ideia de perfeição que simplesmente não existe. O refrão surgiu precisamente dessa observação. Depois, o Ménito fez a sua magia e construiu o resto da canção.
A música fala também da validação nas redes sociais e das relações superficiais. Hoje é mais difícil criar ligações verdadeiras?
Penso que sim. Vivemos numa época muito rápida. Costumo dizer que estamos na era do "fast food" emocional. Muitas relações terminam sem uma conversa, sem uma explicação, apenas com um bloqueio numa rede social.
Antigamente, as relações duravam mais por várias razões. Algumas porque a sociedade era diferente, mas também porque as pessoas procuravam conversar, perceber o que estava mal e encontrar soluções. Não acredito que as pessoas mudem completamente de personalidade, mas acredito que pequenos ajustes podem fazer uma enorme diferença.
A mensagem final de "Barbie" é também de autonomia feminina?
Sim. Apesar da evolução da sociedade, ainda existem desigualdades em vários contextos. A mensagem é simples: quando nos dão oportunidades, também conseguimos fazer um excelente trabalho. Muitas vezes o problema não é a capacidade, mas sim a falta de oportunidade.
Musicalmente sentes que estás numa fase mais ousada?
Sim. Gosto de explorar diferentes sonoridades e perceber até onde posso levar a minha voz.
Antes de "Barbie" lancei "Sem Nunca o Ser", uma balada mais próxima daquilo que o público habitualmente associa ao meu percurso. Gosto dessa alternância entre o lado romântico e propostas mais contemporâneas.
Depois de tantos anos de carreira, o que continua a motivar-te?
Tudo. Gravar em estúdio, ensaiar, preparar espetáculos, escolher figurinos, trabalhar com bailarinas e chegar a cada localidade para perceber quem organizou a festa e qual será a energia do público naquela noite. Continuo fascinada por todo o processo.
Ainda há sonhos por concretizar?
Vários. Gostava muito de realizar um grande concerto numa sala emblemática que eternizasse o meu percurso na música. E adorava gravar duetos com artistas de diferentes estilos musicais. Seria uma experiência muito enriquecedora.
O que podemos esperar da Mónica Sintra nos próximos meses?
Temos novos temas já preparados e estamos atualmente em digressão com o espetáculo Viagem no Tempo, um concerto que percorre várias fases da minha carreira, desde 1999 até aos dias de hoje.
Podem continuar a esperar músicas diferentes, mas sempre sem perder a minha essência.
Para terminar, quem é hoje a Mónica Sintra fora dos palcos?
É praticamente a mesma pessoa. Talvez seja mais mãe, mais amiga e mais dedicada à família.
Não gosto de criar grandes diferenças entre a mulher e a artista. Claro que em palco sou um pouco mais ousada, sobretudo na forma de vestir e de me apresentar. Mas, no essencial, continuo exatamente a mesma pessoa.
Com novos projetos em preparação e uma digressão que celebra os momentos mais marcantes da sua carreira, Mónica Sintra continua a provar que a música é muito mais do que uma profissão: é uma forma de estar na vida. Entre a artista que sobe ao palco e a mulher que valoriza a família, a amizade e a autenticidade, permanece a mesma paixão que a acompanha desde a infância. E se o futuro reserva novos desafios, uma certeza mantém-se: a voz que marcou gerações continua pronta para escrever novos capítulos na música portuguesa.
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