Entrevista com Mimicat

24-06-2026

Depois de conquistar Portugal com "Ai Coração", tema que a levou ao Festival Eurovisão da Canção, Mimicat continua a afirmar-se como uma das artistas mais autênticas e versáteis da música portuguesa. A cantora e compositora regressa recentemente com "A Minha Gente", uma canção profundamente pessoal que celebra as suas raízes, a família e a identidade portuguesa, numa fusão elegante entre a soul, a Motown e a tradição da canção nacional.

Paralelamente, a artista voltou a surpreender o público com "Tipicamente Casados", um dueto com Ana Bacalhau que retrata, com sensibilidade e cumplicidade, as relações de longa duração, confirmando a capacidade de Mimicat para criar canções que unem emoção, autenticidade e proximidade com o público.

Nesta entrevista, Mimicat fala sobre a inspiração por detrás de "A Minha Gente", a importância da portugalidade na sua vida e na sua música, a experiência da Eurovisão, o momento especial vivido na Final da Taça de Portugal Feminina, a colaboração com Ana Bacalhau e os novos projetos que prepara para os próximos meses.


"A Minha Gente" é uma canção muito pessoal. O que te inspirou a escrevê-la?

Estava ao piano quando comecei a escrever e a canção foi surgindo quase sozinha. Quando cheguei ao refrão e disse "A Minha Gente", comecei imediatamente a pensar na minha família, em quem são as pessoas que me fizeram ser quem sou.

A música acabou por se tornar uma descrição da alma das pessoas que me rodearam durante o crescimento e também daquelas que fui escolhendo para fazer parte da minha vida. Mais tarde percebi que a minha família é apenas uma amostra do povo português.

"A Minha Gente" não fala apenas da minha família. Fala de todas as pessoas que, de alguma forma, foram importantes para mim e de todos aqueles que acolhem a minha música. É uma homenagem às minhas pessoas, mas também ao meu país.

Dizes que a tua família é uma amostra do povo português. De que forma essa portugalidade está presente no teu dia a dia e na tua música?

Está no meu ADN. Herdei muitas características das pessoas que me criaram, não apenas a nível genético, mas também comportamental.

Cresci rodeada de pessoas muito intensas, apaixonadas e emocionalmente expressivas. Havia muito drama, muito caos e muita verdade. À medida que fui crescendo, fui absorvendo diferentes formas de estar, mas nunca deixei de valorizar essa paixão.

Acredito que a minha dedicação à música, a vontade de perseguir objetivos e a determinação que tenho vêm desse fogo que vi nas pessoas à minha volta. Tenho muito orgulho nisso.

Musicalmente, "A Minha Gente" recupera influências Motown e Soul. O que te levou a revisitar essas sonoridades?

Saudades. Sentia muitas saudades desse universo sonoro.

O meu primeiro álbum estava muito ligado a essa estética e senti vontade de regressar a ela. A grande questão era perceber se conseguiria juntar essas influências à identidade portuguesa.

Queria mostrar que uma artista portuguesa não precisa necessariamente de recorrer aos elementos mais óbvios da tradição para afirmar a sua identidade. Uma portuguesa também pode soar assim.

Como foi o processo de composição ao lado de Filipe Survival e Duarte Carvalho?

A canção começou comigo. Fiz uma primeira fase de pré-produção e desenvolvi uma ideia muito clara sobre o som que queria.

Quando trabalhei com o Filipe Survival chegámos a um ponto em que percebemos que tínhamos visões diferentes para a música. Como existe um enorme respeito entre nós, decidimos trazer uma terceira pessoa para o processo.

O Duarte Carvalho entrou numa fase já bastante avançada e ajudou a concluir a produção. No final, ficámos todos muito satisfeitos com o resultado.

Sentiste desde o início que esta música tinha algo de especial?

Sim. Curiosamente, a primeira versão era completamente diferente.

Houve uma altura em que percebi que a canção não estava a transmitir a profundidade que pretendia. Voltei ao piano e reescrevi a parte musical, mantendo a letra.

Precisava que tivesse mais força, identidade e emoção. Hoje sinto que essa decisão foi essencial para concretizar a visão que tinha para o tema.

O videoclipe apresenta uma forte ligação ao mar e ao campo. Porquê?

Porque representam muito bem aquilo que somos enquanto povo.

O mar faz parte da nossa história, das descobertas e da forma como Portugal se afirmou ao longo dos séculos. Mostra essa vontade de explorar o desconhecido.

O campo representa o Portugal profundo, o interior, as pessoas e as suas histórias. É um lado do país que muitas vezes não recebe a atenção que merece e que eu quis valorizar.

Recentemente interpretaste o Hino Nacional e apresentaste "A Minha Gente" na Final da Taça de Portugal Feminina. Como viveste esse momento?

Foi muito especial.

Partilhei o palco com 30 bailarinos, muitos deles companheiros da minha participação no Festival da Canção e na Eurovisão. Estar rodeada pelas minhas pessoas tornou tudo ainda mais significativo.

Foi um momento de celebração, de união e de confirmação da mensagem que quero transmitir através da minha música.

Como recebeste o convite da Federação Portuguesa de Futebol?

Com enorme alegria.

Acho importante que eventos desta dimensão valorizem também as artistas portuguesas e, neste caso, o futebol feminino. A Federação está de parabéns pelo trabalho que tem desenvolvido nessa área.

Foi particularmente simbólico ver um estádio com cerca de 22 mil pessoas a assistir a uma final de futebol feminino.

Depois do sucesso de "Ai Coração" e da Eurovisão, sentes que a tua carreira entrou numa nova fase?

Vejo-o mais como uma continuação natural do meu percurso.

Sou uma artista que está constantemente a evoluir e a experimentar. O importante é continuar a crescer sem perder a identidade.

Neste momento sinto-me muito feliz com o caminho que estou a seguir e com a forma como as pessoas têm recebido a minha música.

Que memórias guardas da experiência de representar Portugal em Liverpool?

Sobretudo as memórias do palco.

Senti que a equipa conseguiu criar momentos verdadeiramente mágicos. Existia uma enorme união entre todos e isso refletiu-se na atuação.

Representar Portugal foi um privilégio e uma experiência que recordarei sempre com muito orgulho.

"Ai Coração" continua a conquistar ouvintes. Imaginavas um impacto tão grande?

Não.

Sabia que a canção era especial e, por isso, guardei-a durante cerca de dez anos. Sempre senti que tinha potencial para o Festival da Canção, mas nunca imaginei que chegasse tão longe.

Acredito que o sucesso se deve ao facto de as pessoas se identificarem com a emoção que a música transmite. É uma canção que reúne tudo aquilo que sou enquanto artista.

O álbum "Peito" marcou uma fase importante da tua carreira. O que aprendeste sobre ti própria?

Aprendi a gerir-me melhor, sobretudo a nível emocional.

Foi um disco que me permitiu revisitar diferentes influências musicais e perceber melhor quem sou enquanto artista.

Acabou por representar o encerramento de um ciclo e o início de uma nova etapa de autodescoberta.

Temas como "Agostinho", "Santa" e agora "A Minha Gente" revelam uma ligação mais forte à canção portuguesa. É um caminho para continuar?

Sem dúvida.

A canção portuguesa sempre esteve presente na minha vida. Cresci a ouvir muitas referências ligadas ao Festival da Canção das décadas de 60, 70 e 80.

Essa estética faz parte de mim e combina naturalmente com outras influências que trago da soul, do jazz e da música popular internacional.

Recentemente lançaste uma música com Ana Bacalhau. Como surgiu essa parceria?

Era uma colaboração que já estava para acontecer há vários anos.

Conheço a Ana Bacalhau há muito tempo e sempre admirei o seu trabalho. Inicialmente pensei oferecer-lhe a canção, mas acabámos por decidir interpretá-la juntas.

Foi um processo muito natural, porque existe amizade, admiração mútua e uma excelente sintonia artística entre nós.

Para terminar, o que podemos esperar da Mimicat nos próximos meses?

Há novos projetos e algumas surpresas que ainda não posso revelar.

Posso apenas dizer que me deixam muito feliz e orgulhosa. Assim que for possível, partilharei todas as novidades através das minhas redes sociais


Entre a celebração das raízes portuguesas em A Minha Gente, a maturidade artística conquistada ao longo dos últimos anos e a vontade de continuar a explorar novas sonoridades, Mimicat vive uma fase de grande afirmação na sua carreira. Sem perder a identidade que a caracteriza, a artista continua a unir a alma da canção portuguesa às influências soul e jazz que sempre fizeram parte do seu percurso. Paralelamente, mantém-se aberta a novos desafios e colaborações, como aconteceu recentemente no dueto com Ana Bacalhau em Tipicamente Casados, um tema que retrata com sensibilidade e humor as relações duradouras. Enquanto prepara novas surpresas para os próximos meses, Mimicat reafirma-se como uma das vozes mais autênticas e cativantes da música portuguesa contemporânea.

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