Entrevista com Luís Bittencourt

17-07-2026

Percussionista, investigador e criador sonoro, Luís Bittencourt apresenta "Arquiteturas da Água", um espetáculo que transforma um dos elementos mais essenciais à vida em matéria artística. Nesta conversa, explica como nasceu o projeto, de que forma a água se torna protagonista em palco e porque continua a acreditar que a experimentação é um dos caminhos mais fascinantes da música contemporânea.


Para quem nunca ouviu falar de "Arquiteturas da Água", como descreveria este espetáculo em poucas palavras?

É um espetáculo que, como o próprio nome indica, presta homenagem à água no universo da música moderna e contemporânea. Reuni cinco obras com o mesmo título — Water Music —, algo relativamente raro na história da música, e construí um percurso que celebra o potencial deste elemento tão precioso, não apenas enquanto símbolo, mas também como matéria artística e sonora.

A água faz parte do nosso quotidiano. Como surgiu a ideia de a transformar na protagonista de um espetáculo?

Esse interesse nasceu da minha investigação académica e artística. Em 2009, durante o mestrado em Performance Musical, dedicado à percussão, comecei a estudar a forma como a água era utilizada na música contemporânea.

Ao longo desse processo percebi que muitos compositores recorreram à água, tanto como elemento simbólico como fonte sonora real. Desde então fui catalogando obras, analisando diferentes abordagens e percebendo como cada compositor interpretava este elemento. Uns recorrem-lhe de forma mais abstrata, outros utilizam-na literalmente como instrumento.

"Arquiteturas da Água" resulta precisamente desse percurso de investigação que desenvolvo há quase duas décadas.

Neste espetáculo, a água é apenas um tema ou também um instrumento? O público vai realmente ouvir a água "tocar"?

Sem dúvida.

Das cinco obras apresentadas, uma delas utiliza efetivamente a água no seu estado líquido como instrumento musical. Em palco existe uma grande bacia hemisférica cheia de água que é tocada como se fosse um tambor.

Existem diversas técnicas para produzir som através da água, recorrendo também a objetos metálicos, como gongos, que alteram completamente a sua sonoridade quando entram em contacto com o líquido. O resultado é surpreendente.

Essa obra é Water Music, do compositor chinês Tan Dun, conhecido também pelas suas bandas sonoras para cinema. Trata-se de uma peça muito especial para mim, porque foi um dos principais estudos de caso da minha investigação.

Creio que foi uma das primeiras obras da história da música a tratar verdadeiramente um recipiente com água como um instrumento de percussão. Outros compositores, como John Cage, também recorreram à água, mas de uma forma muito mais conceptual. No caso de Tan Dun, a água é literalmente tocada como um tambor.

O espetáculo reúne várias obras intituladas Water Music, mas compostas por autores muito diferentes. O que as une?

O que as liga é precisamente a forma como cada compositor olha para a água enquanto fonte de inspiração.

Cada um desenvolve uma perspetiva completamente distinta.

A obra de Toru Takemitsu, por exemplo, nasceu originalmente como uma peça eletrónica construída a partir do som de uma torneira a pingar. O compositor gravou esses sons, manipulou-os em estúdio e criou uma composição de música concreta.

Neste espetáculo trabalhei essa peça em colaboração com o compositor e artista multimédia Rui Penha. Adaptámos os sons originais para um instrumento eletrónico — o Xylosynth — permitindo que a obra deixasse de existir apenas em gravação e passasse a ser interpretada ao vivo.

Depois encontramos Water Music, de John Cage, que convida o público a ouvir os sons do quotidiano como música. A obra inclui apitos com água, recipientes onde a água é vertida, piano preparado, cartas de jogar e vários objetos comuns, transformando ações banais em acontecimentos musicais.

Já a obra de Tan Dun representa talvez a abordagem mais física e direta, utilizando a água como verdadeiro instrumento de percussão.

Outra peça pertence ao compositor norte-americano Joseph Byrd, um dos pioneiros do minimalismo. Trata-se de uma composição escrita para fita magnética, sons pré-gravados e instrumentos acústicos de percussão, dedicada ao percussionista Max Neuhaus, figura fundamental no desenvolvimento da arte sonora contemporânea.

Finalmente, o espetáculo inclui uma nova Water Music, criada especialmente para este projeto por Rui Penha. É uma obra de linguagem muito atual, baseada em sons digitais, espacialização sonora e ambientes que evocam cascatas, superfícies líquidas e paisagens aquáticas.

No fundo, aquilo que une todas estas composições é precisamente a diversidade de olhares sobre um mesmo elemento.

Como surgiu a colaboração com Rui Penha?

O Rui é um amigo e um compositor cujo trabalho admiro profundamente. Já colaborámos noutros projetos, mas esta foi a primeira vez que trabalhámos juntos num espetáculo em nome próprio.

Sempre gostei da sua linguagem criativa e da sua enorme abertura à experimentação. É alguém que não rejeita ideias à partida; prefere explorá-las e perceber até onde podem chegar. Isso cria uma excelente dinâmica de trabalho.

Expliquei-lhe o conceito do espetáculo e desafiei-o a compor uma nova Water Music, uma obra contemporânea que dialogasse com todas as outras.

Aceitou imediatamente o desafio. Tivemos várias sessões de trabalho entre o meu estúdio e o dele, onde fomos desenvolvendo ideias até chegarmos ao resultado final que agora integra "Arquiteturas da Água".

Foi uma colaboração muito natural e extremamente enriquecedora.

O seu trabalho cruza música, performance, tecnologia e improvisação. Gosta de desafiar quem o ouve?

Diria que sim, embora não de forma assumida.

Mais do que desafiar, procuro despertar uma escuta diferente. Vivemos numa cultura profundamente visual e, muitas vezes, esquecemo-nos da riqueza do universo sonoro.

O ouvido acaba frequentemente por ocupar um plano secundário em relação à visão.

O meu trabalho pretende precisamente convidar o público e também a mim próprio a prestar atenção a sons que normalmente passam despercebidos. Existem inúmeras nuances sonoras que ignoramos no dia a dia.

O som é uma matéria-prima extraordinariamente rica. Basta estarmos disponíveis para a escutar de outra forma.

O espetáculo estreou recentemente. Como tem sido a reação do público?

"Arquiteturas da Água" estreou há cerca de um mês, na Bienal de Cerveira, em Vila Nova de Cerveira, e esta será apenas a segunda apresentação. Ainda não teve oportunidade de circular internacionalmente enquanto espetáculo completo, embora algumas das obras que o integram já tenham sido apresentadas isoladamente em diferentes contextos.

O mais interessante tem sido observar a surpresa das pessoas ao descobrirem que um elemento tão comum como a água pode tornar-se matéria artística e musical.

Todos convivemos diariamente com a água, mas raramente pensamos nela como fonte de criação sonora. Quando o público percebe essa possibilidade, a reação costuma ser de espanto, curiosidade e admiração.

Há também uma dimensão conceptual muito interessante. Tal como Marcel Duchamp questionou os limites da arte ao apresentar um urinol como obra artística, este espetáculo coloca uma pergunta semelhante: será que conseguimos ouvir a água como música? Onde termina o som quotidiano e começa a experiência musical?

Esse questionamento faz parte da experiência.

Já foi descrito como um "mestre da experimentação sonora". Sente-se confortável com esse rótulo?

Prefiro sempre que seja o público a tirar as suas próprias conclusões.

Esse rótulo nunca partiu de mim. Surgiu numa crítica publicada após um dos meus espetáculos e acabou por ganhar alguma expressão.

Os rótulos têm a sua utilidade porque ajudam as pessoas a enquadrar aquilo que vão encontrar. Quando alguém lê "jazz", "música contemporânea" ou "pop", cria imediatamente uma expectativa.

Mas procuro não ficar preso a nenhuma classificação.

Ainda na semana passada apresentei um espetáculo completamente diferente deste, intitulado Sons da Resistência, construído a partir de objetos do quotidiano e materiais reutilizados. O meu trabalho muda constantemente, tal como mudam os meus interesses.

Dito isto, reconheço que existe uma forte componente experimental no que faço.

O meu estúdio funciona como um verdadeiro laboratório sonoro. É um espaço de investigação permanente, onde passo muitas horas a explorar instrumentos, objetos e materiais, procurando descobrir novas possibilidades acústicas.

Grande parte das ideias nasce precisamente dessa experimentação.

Por isso, apesar de receber esse rótulo com algum sentido de humor, admito que ele acaba por refletir uma característica importante do meu percurso artístico.

Para quem nunca assistiu a um espetáculo de música experimental, porque poderá "Arquiteturas da Água" ser uma boa porta de entrada?

Porque parte de algo que pertence à experiência de todos nós.

A música experimental pode, por vezes, parecer distante ou demasiado especializada, sendo muitas vezes apreciada sobretudo por quem já frequenta esse universo.

Neste caso acontece precisamente o contrário.

O elemento central do espetáculo é a água, algo com que qualquer pessoa se relaciona diariamente.

Todos sabemos como soa a água. Todos temos memórias associadas ao seu som.

Isso cria uma ligação imediata entre o público e a obra.

Se quisermos ir um pouco mais longe, diria até que o som da água poderá ser o primeiro som que escutamos na vida. Ainda no ventre materno vivemos rodeados pelo líquido amniótico, completamente imersos num ambiente aquático.

Existe, por isso, uma relação profundamente ancestral entre o ser humano e este universo sonoro.

Talvez seja essa proximidade que torne este espetáculo particularmente acessível. O público é convidado a redescobrir um elemento absolutamente familiar, mas através de uma perspetiva completamente nova.

Além de músico, é investigador e professor. Existe uma ligação direta entre a investigação académica e aquilo que apresenta em palco?

Sem dúvida.

Para mim, investigação e criação artística fazem parte do mesmo processo.

Tudo aquilo que desenvolvo enquanto artista nasce, de alguma forma, da investigação. E, ao mesmo tempo, muitas das perguntas que orientam o meu trabalho académico surgem precisamente da prática artística.

É um ciclo contínuo de aprendizagem e descoberta.

No caso de "Arquiteturas da Água", tudo começou precisamente com um estudo de caso realizado durante o meu percurso académico.

Foi ao descobrir a obra Water Music, de Tan Dun, que comecei a questionar-me sobre a possibilidade de tratar a água como um verdadeiro instrumento musical.

Como se toca a água?

Pode um líquido tornar-se um instrumento?

Que características definem, afinal, um instrumento musical?

Essas perguntas deram origem à investigação. Mais tarde, acabaram por transformar-se num espetáculo.

Muitas pessoas desconhecem que este projeto começou num contexto académico e que continuou a ser desenvolvido posteriormente durante o doutoramento.

Mas, para mim, faz todo o sentido. Nunca consegui separar a investigação da criação artística.

São duas dimensões que caminham sempre lado a lado.

Acha que ainda há espaço para surpreender o público através do som ou sente que já está tudo inventado?

Estou convencido de que ainda existe um enorme caminho por explorar.

E quando falo de som, não me refiro apenas à música. Refiro-me ao som enquanto fenómeno, enquanto matéria de investigação e ferramenta com aplicações muito para além do universo artístico.

Hoje já existem estudos que analisam o potencial terapêutico do som, a forma como determinadas frequências podem contribuir para o tratamento de algumas patologias e até investigações que procuram compreender o seu impacto em diferentes áreas da ciência.

Por outro lado, sabemos também que o som tem vindo a ser explorado em contextos militares, através das chamadas armas sónicas. Ou seja, trata-se de um campo extremamente vasto, onde ainda há muito por descobrir.

Basta olharmos para os oceanos.

No meio aquático, o som propaga-se muito mais rapidamente do que no ar e constitui o principal meio de comunicação de inúmeras espécies, como baleias, golfinhos e tantos outros animais marinhos.

Em grandes profundidades, onde a luz praticamente não chega, o som torna-se a principal forma de orientação e comunicação.

Tenho a sensação de que ainda conhecemos muito pouco desse universo. Há um potencial enorme que permanece por explorar e acredito que, nas próximas décadas, iremos assistir a descobertas muito importantes.

Para terminar, o que gostaria que o público levasse consigo depois de assistir a "Arquiteturas da Água"?

Gostava, acima de tudo, que as pessoas saíssem da sala a olhar para a água de forma diferente.

O objetivo do espetáculo é precisamente esse: mostrar que um elemento aparentemente comum pode revelar uma riqueza estética e sonora extraordinária quando o observamos por outro prisma.

Naturalmente, trata-se de um espetáculo artístico e não de uma intervenção política ou ambiental. Ainda assim, seria muito positivo que também despertasse uma reflexão sobre a forma como utilizamos um recurso tão precioso.

Vivemos numa parte do mundo onde, apesar de já existirem alguns problemas relacionados com a escassez de água, continuamos a ter uma realidade bastante privilegiada.

No entanto, existem regiões onde milhares de pessoas percorrem diariamente quilómetros apenas para conseguir água suficiente para cozinhar ou beber.

Essa realidade não pode ser ignorada.

A água não é um recurso infinito e acredito que todos temos responsabilidade na forma como a utilizamos.

Não acredito muito em soluções universais que resolvam todos os problemas de uma só vez.

Acredito, isso sim, nas pequenas mudanças.

Mudanças que começam em cada um de nós, passam pela nossa família, pelos nossos vizinhos, pela nossa comunidade e que, pouco a pouco, podem transformar a sociedade.

É dessa forma que acredito ser possível construir um futuro mais sustentável e mais consciente.


Percussionista, investigador, professor e criador sonoro, Luís Bittencourt tem desenvolvido um percurso singular na música contemporânea, cruzando performance, investigação científica, tecnologia e arte sonora.

O seu trabalho caracteriza-se pela experimentação constante e pela procura de novas linguagens musicais, transformando objetos do quotidiano e elementos naturais em verdadeiros instrumentos de criação artística.

Em "Arquiteturas da Água", reúne cinco obras intituladas Water Music, de diferentes compositores e épocas, propondo uma experiência sensorial que desafia o público a escutar a água sob uma perspetiva completamente nova.

Mais do que um concerto, o espetáculo é um convite à descoberta, à reflexão e à capacidade de ouvir aquilo que tantas vezes passa despercebido no quotidiano.

Num tempo em que a música procura constantemente novos caminhos, Luís Bittencourt demonstra que a inovação pode nascer de algo tão simples — e tão essencial — como uma gota de água.

Próximas datas:

26 de julho | Teatro Helena Sá e Costa no Porto | 17h00

27 de setembro | Black Box, Leiria | 19h30

22 de outubro | Cine-Teatro Avenida, Castelo Branco | 21h30

12 de novembro | Favo das Artes, Mondim de Basto | horário a anunciar

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