Entrevista com Kumpania Algazarra

17-05-2026

O décimo disco dos Kumpania Algazarra, Tudo ao Contrário, surge num tempo em que o mundo parece, de facto, virado do avesso. Conversámos com Luís Barrocas sobre esta nova fase da banda, a aposta na eletrónica e a importância da celebração coletiva.


O vosso décimo disco, Tudo ao Contrário, chega numa altura em que o mundo parece mesmo virado do avesso. Este título nasce mais de uma reflexão ou de uma reação ao momento atual?
É um misto. A ideia já existia e, de repente, parece que tudo se alinhou. Estamos a assistir a mudanças muito rápidas e intensas. O título acabou por encaixar perfeitamente, porque transmite essa sensação de que o mundo tem vindo a ficar cada vez mais de pernas para o ar.

Sentem que este álbum marca uma viragem clara no vosso percurso ou é uma evolução natural do som dos Kumpania Algazarra?
Diria que é uma evolução natural. Como músicos, gostamos de explorar diferentes sonoridades. Neste disco, decidimos apostar mais na eletrónica, que traz uma nova dimensão à música. Acrescenta textura e potência, e acabou por resultar numa fusão muito interessante.

Nessa aposta na eletrónica, o que vos atraiu e como equilibraram isso com as vossas raízes de fanfarra, ska e balcã?
Foi quase um trabalho de "corte e costura". A eletrónica amplia a base rítmica e permite destacar ainda mais os sopros e a componente acústica. Funciona como um trampolim mais denso para o resto da banda. Foi um processo de experimentação, testámos, ajustámos e, como todos gostámos do resultado, avançámos para as gravações.

Como conseguem manter uma identidade tão própria ao longo de dez discos sem cair na repetição?
Tocamos muito e estamos atentos quando compomos. Se sentimos que algo soa demasiado familiar, tentamos limar essas arestas. Há esse cuidado constante de evitar repetições. É um processo bastante natural para nós.

A vossa música sempre esteve ligada à celebração coletiva. Hoje, essa necessidade de dançar juntos é ainda mais urgente?
Sem dúvida. Quando nos juntamos, esquecemos as diferenças e deixamos de pensar tanto. Entregamo-nos ao momento. Isso gera uma energia positiva que faz muita falta. Vivemos numa era em que cada pessoa está na sua "janela" digital e, por vezes, afastamo-nos. Quanto mais pessoas se juntarem, maior é a energia e isso pode fazer a diferença no mundo.

Também veem isso como uma forma de intervenção?
Sim, é o nosso contributo. A música e a energia que cria conseguem atravessar barreiras, chegam aos corpos, aos corações. Esperamos que, pouco a pouco, isso ajude a provocar mudanças dentro de cada pessoa.

Este disco foi pensado mais para ouvir ou para viver ao vivo?
Para ambos. Dá para ouvir no carro, numa festa, numa discoteca… mas ao vivo tem sempre outra força. Há aquela vertente quase "aula de aeróbica" que partilhamos com o público. Ainda assim, quisemos que o disco também funcionasse em contexto de DJ e chegasse a outros públicos. A eletrónica ajuda-nos a atravessar fronteiras que, dentro do nosso género, às vezes eram mais difíceis de ultrapassar.

O novo single "Ignite" é apresentado como um hino à celebração. Foi uma escolha óbvia?
Sim, porque a mensagem passa muito por reacender a chama que todos temos dentro. Quando nos juntamos, essa chama cresce e ilumina mais caminho. É uma celebração da partilha que no fundo, é o que dá sentido à vida.

Essa mensagem de união reflete o espírito de todo o álbum?
Completamente. O disco fala muito da importância de estarmos juntos. Vivemos um momento que tende a dividir, a criar pequenos grupos. Mas para mudar alguma coisa é preciso união e muita energia coletiva. Até as letras vão nesse sentido de aproximação, de partilha. E fazemos isso através da festa, porque só com discursos mais sérios talvez não chegássemos lá.

O videoclipe filmado em Sintra reforça essa ideia de comunidade. Foi importante essa ligação às origens?
Sim, faz parte do nosso percurso. É o sítio de onde vimos, a nossa ligação ao espaço e às pessoas. Aproveitámos o que já tínhamos à nossa volta para transmitir essa ideia: qualquer lugar pode ser um bom lugar para uma festa. A festa está dentro de nós.

Como é que a banda se reinventa ao longo dos anos sem perder a essência?
É um processo contínuo. Vamos experimentando, conversando, sentindo o que faz sentido. Através dessa troca de ideias e sensações, a música vai ganhando forma.

O que podemos esperar dos concertos desta nova fase?
Mais energia, mais interação, mais "aeróbica". Queremos reforçar essa ligação entre banda e público, criar momentos de partilha ainda mais intensos. Há algumas surpresas em preparação, ainda estamos a desenvolver.

Alguma recomendação para quem vai assistir?
Levar roupa confortável! Ténis, algo que permita saltar e dançar à vontade.

Num mundo "ao contrário", o que continua a fazer sentido para vocês?
Seguir o coração e o propósito de cada um. Mas, acima de tudo, juntar energias. Fazer algo que seja bom para todos, não apenas individualmente. Todos fazemos parte disto e todos podemos contribuir, por mais pequeno que seja o gesto.

E para terminar: o que nunca pode faltar numa festa dos Kumpania Algazarra?
(Risos) Boa disposição, sem dúvida. E amor. O público também é essencial, essa troca de energia é o que faz tudo acontecer.


Num tempo em que o ruído do mundo parece afastar-nos uns dos outros, os Kumpania Algazarra continuam a insistir no contrário: na proximidade, na partilha e na celebração coletiva como força transformadora. Tudo ao Contrário não é apenas um reflexo do presente é também uma proposta de futuro, onde dançar juntos ainda pode ser um gesto de resistência. E, pelo que Luís Barrocas deixa claro, essa festa está longe de terminar.

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