Entrevista com Kumpania Algazarra

O décimo disco dos Kumpania Algazarra, Tudo ao Contrário, surge num tempo em que o mundo parece, de facto, virado do avesso. Conversámos com Luís Barrocas sobre esta nova fase da banda, a aposta na eletrónica e a importância da celebração coletiva.
O vosso décimo disco, Tudo ao Contrário, chega numa altura em que o mundo
parece mesmo virado do avesso. Este título nasce mais de uma reflexão ou de uma
reação ao momento atual?
É um misto. A ideia já existia e, de repente, parece que tudo se alinhou.
Estamos a assistir a mudanças muito rápidas e intensas. O título acabou por
encaixar perfeitamente, porque transmite essa sensação de que o mundo tem vindo
a ficar cada vez mais de pernas para o ar.
Sentem que este álbum
marca uma viragem clara no vosso percurso ou é uma evolução natural do som dos
Kumpania Algazarra?
Diria que é uma evolução natural. Como músicos, gostamos de explorar diferentes
sonoridades. Neste disco, decidimos apostar mais na eletrónica, que traz uma nova
dimensão à música. Acrescenta textura e potência, e acabou por resultar numa
fusão muito interessante.
Nessa aposta na
eletrónica, o que vos atraiu e como equilibraram isso com as vossas raízes de
fanfarra, ska e balcã?
Foi quase um trabalho de "corte e costura". A eletrónica amplia a base rítmica
e permite destacar ainda mais os sopros e a componente acústica. Funciona como
um trampolim mais denso para o resto da banda. Foi um processo de
experimentação, testámos, ajustámos e, como todos gostámos do resultado,
avançámos para as gravações.
Como conseguem manter
uma identidade tão própria ao longo de dez discos sem cair na repetição?
Tocamos muito e estamos atentos quando compomos. Se sentimos que algo soa
demasiado familiar, tentamos limar essas arestas. Há esse cuidado constante de
evitar repetições. É um processo bastante natural para nós.
A vossa música sempre
esteve ligada à celebração coletiva. Hoje, essa necessidade de dançar juntos é
ainda mais urgente?
Sem dúvida. Quando nos juntamos, esquecemos as diferenças e deixamos de pensar
tanto. Entregamo-nos ao momento. Isso gera uma energia positiva que faz muita
falta. Vivemos numa era em que cada pessoa está na sua "janela" digital e, por
vezes, afastamo-nos. Quanto mais pessoas se juntarem, maior é a energia e isso
pode fazer a diferença no mundo.
Também veem isso como
uma forma de intervenção?
Sim, é o nosso contributo. A música e a energia que cria conseguem atravessar
barreiras, chegam aos corpos, aos corações. Esperamos que, pouco a pouco, isso
ajude a provocar mudanças dentro de cada pessoa.
Este disco foi pensado
mais para ouvir ou para viver ao vivo?
Para ambos. Dá para ouvir no carro, numa festa, numa discoteca… mas ao vivo tem
sempre outra força. Há aquela vertente quase "aula de aeróbica" que partilhamos
com o público. Ainda assim, quisemos que o disco também funcionasse em contexto
de DJ e chegasse a outros públicos. A eletrónica ajuda-nos a atravessar
fronteiras que, dentro do nosso género, às vezes eram mais difíceis de
ultrapassar.
O novo single "Ignite"
é apresentado como um hino à celebração. Foi uma escolha óbvia?
Sim, porque a mensagem passa muito por reacender a chama que todos temos
dentro. Quando nos juntamos, essa chama cresce e ilumina mais caminho. É uma
celebração da partilha que no fundo, é o que dá sentido à vida.
Essa mensagem de união
reflete o espírito de todo o álbum?
Completamente. O disco fala muito da importância de estarmos juntos. Vivemos um
momento que tende a dividir, a criar pequenos grupos. Mas para mudar alguma
coisa é preciso união e muita energia coletiva. Até as letras vão nesse sentido
de aproximação, de partilha. E fazemos isso através da festa, porque só com
discursos mais sérios talvez não chegássemos lá.
O videoclipe filmado
em Sintra reforça essa ideia de comunidade. Foi importante essa ligação às
origens?
Sim, faz parte do nosso percurso. É o sítio de onde vimos, a nossa ligação ao
espaço e às pessoas. Aproveitámos o que já tínhamos à nossa volta para
transmitir essa ideia: qualquer lugar pode ser um bom lugar para uma festa. A
festa está dentro de nós.
Como é que a banda se
reinventa ao longo dos anos sem perder a essência?
É um processo contínuo. Vamos experimentando, conversando, sentindo o que faz
sentido. Através dessa troca de ideias e sensações, a música vai ganhando
forma.
O que podemos esperar
dos concertos desta nova fase?
Mais energia, mais interação, mais "aeróbica". Queremos reforçar essa ligação
entre banda e público, criar momentos de partilha ainda mais intensos. Há algumas
surpresas em preparação, ainda estamos a desenvolver.
Alguma recomendação
para quem vai assistir?
Levar roupa confortável! Ténis, algo que permita saltar e dançar à vontade.
Num mundo "ao
contrário", o que continua a fazer sentido para vocês?
Seguir o coração e o propósito de cada um. Mas, acima de tudo, juntar energias.
Fazer algo que seja bom para todos, não apenas individualmente. Todos fazemos
parte disto e todos podemos contribuir, por mais pequeno que seja o gesto.
E para terminar: o que
nunca pode faltar numa festa dos Kumpania Algazarra?
(Risos) Boa disposição, sem dúvida. E amor. O público também é essencial, essa
troca de energia é o que faz tudo acontecer.
Num tempo em que o ruído do mundo parece afastar-nos uns dos outros, os Kumpania Algazarra continuam a insistir no contrário: na proximidade, na partilha e na celebração coletiva como força transformadora. Tudo ao Contrário não é apenas um reflexo do presente é também uma proposta de futuro, onde dançar juntos ainda pode ser um gesto de resistência. E, pelo que Luís Barrocas deixa claro, essa festa está longe de terminar.
