Entrevista com Goldcobra

Hoje falamos com um artista que nos convida a viajar diretamente para o universo sonoro dos anos 80, mas com uma energia moderna e muito própria. goldcobra, o alter-ego de Marcos Alfares, acaba de lançar OUTRUN, o seu álbum de estreia.
Depois dos EPs Paris, Los Angeles e Late Night Nostalgia, o projeto regressa em 2026 com um disco dividido em dois momentos — Side A e Side B — onde a pop se cruza com eletrónica mais ousada, sem nunca perder as influências rock e synthwave daquela década dourada.
Com sintetizadores marcantes, linhas de baixo pulsantes, saxofones aveludados e canções que falam de amor, paixão e perda, OUTRUN promete ser uma verdadeira viagem sonora e visual.
Vamos conhecer melhor este novo capítulo e tudo o que
está por trás do universo goldcobra.
Para quem ainda não conhece bem o projeto, quem é o Goldcobra e em que se distingue de Marcos Alfares?
Que pergunta! Começamos bem. Diria que, de certa forma, é impossível separar totalmente as duas coisas. Dou muito de mim de Marcos Alfares ao Goldcobra. Apesar de este projeto ser muito influenciado pelos anos 80, muito do que escrevo acaba também por refletir quem sou e outros projetos em que já trabalhei.No fundo, Goldcobra é um alter‑ego de Marcos Alfares, mas continua a ser quem eu sou. As letras refletem aquilo que vivo, aquilo por que passo e as influências que fui acumulando ao longo da vida. Por isso diria que, no final do dia, Goldcobra é Marcos Alfares… mas com uma pitada de anos 80.
Sentiste necessidade de criar esse alter‑ego para explorar sonoridades diferentes?
Mais do que tudo, senti necessidade de me distanciar de projetos anteriores, sobretudo de um projeto de rock pop com o qual estive ligado durante mais de uma década.Como a sonoridade aqui também era diferente, mais eletrónica e com outra estética, fez sentido assinar com um nome diferente. Assim, as pessoas conseguem perceber melhor que GoldCobra é algo distinto do que fiz anteriormente.
O álbum Outrun está dividido em lado A e lado B. Porquê essa ideia?
Essa ideia surgiu quando comecei a construir o conceito do projeto. Queria que fosse um álbum, mas gostei muito da ideia de o dividir em duas partes. São oito faixas e fazia sentido separá‑las em dois momentos.É também uma espécie de piscadela de olho às cassetes. Eu cresci a ouvir música em cassetes e gosto muito dessa experiência: ouvir o lado A, virar a cassete e continuar a viagem do álbum.Além disso, hoje em dia a forma como consumimos música mudou. Achei interessante lançar primeiro uma parte do trabalho, o lado A, em 2025 e depois, algum tempo mais tarde, lançar o lado B, em 2026, como se estivéssemos a virar a cassete.
Se tivesses de descrever Outrun numa palavra, qual seria?
Talvez duas: viagem ou nostalgia. A nostalgia está presente no projeto desde o início, sobretudo pela relação com os anos 80. Quando mergulhamos nessa estética, acabamos inevitavelmente por sentir essa nostalgia.
Há uma mistura muito forte de pop, eletrónica e rock dos anos 80. O que te fascina tanto nessa década?
É precisamente essa mistura. Os riffs de guitarra, os sintetizadores, toda a cena New Wave… Foi uma década que abriu portas para muita coisa que ainda hoje ouvimos.E depois há a forma como se cantava o amor. As letras eram apaixonadas, muito emotivas, e tudo isso dentro de arranjos fortes de guitarra e baixos marcantes. Essa combinação sempre me fascinou.
Há artistas dos anos 80 que estejam sempre presentes quando estás a criar?
Sim, claro. Há nomes que surgem imediatamente quando penso nessa década. Por exemplo, Whitesnake. Apesar de ser uma banda mais rock do que aquilo que faço em Goldcobra, o espírito está lá.Também George Michael, que traz aquela pitada pop que adoro, e Sade, que marcou muito o final dos anos 80. E, claro, David Bowie. Há vários artistas que acabam por influenciar tanto a estética sonora como a visual.
"Dark Water" foi o primeiro tema apresentado. Porquê começar por essa faixa?
Porque é bastante diferente de tudo o que já fiz, tanto em Goldcobra como no resto da minha carreira. É uma balada, mas com uma batida meio trap, o que a torna bastante distinta.Uma das coisas de que mais gosto neste projeto é precisamente essa liberdade: posso manter referências dos anos 80, mas também experimentar caminhos diferentes. "Dark Water" pareceu‑me perfeita para apresentar o lado B por mostrar essa faceta mais inesperada.
Há alguma música do disco que seja particularmente especial para ti?
Sim, diria "Colorblind", que faz parte do lado A. É a primeira vez que abordo temas como depressão e ansiedade.Apesar de ser um tema pesado, a estrutura da música tem uma função libertadora. A canção cresce até um momento final que parece ser o fim… mas não é. Há uma explosão sonora com drum and bass que representa precisamente essa libertação.No lado B destacaria também "Dancing With the Devil", que é o tema que estou atualmente a promover e que tem uma estética muito anos 80.
Neste disco trabalhaste com três produtores. Como foi essa experiência?
Foi incrível, porque cada um trouxe algo diferente.Temos Diogo Piçarra, com quem trabalho em GoldCobra desde o início; Tomás Antunes, que também tem contribuído muito para a estética oitentista do projeto; e Luís Barradas (Low Mak), um amigo de longa data, DJ e produtor, que trouxe uma abordagem mais eletrónica e contemporânea.
Como nasce normalmente uma música tua?
Na maioria das vezes começa pela letra. Cada vez mais também componho as bases e as melodias, às vezes começo por uma batida ou por uma ideia nas teclas, mas geralmente tudo parte da letra.
As tuas letras falam muito de amor, paixão e perda. São histórias pessoais?
Algumas são pessoais, outras são ficção. Muitas vezes revisito histórias antigas ou inspiro‑me em cinema. Há muito dessa mistura entre realidade e narrativa.
O projeto tem também uma estética visual muito forte. Isso é tão importante quanto a música?
Sim, sempre foi. Quando trabalho num projeto gosto de desenvolver também a parte estética.A própria ideia do nome Goldcobra vem daí: a cobra muda de pele. Gosto dessa metáfora de, em cada projeto ou álbum, mudar de pele e apresentar uma estética visual diferente.
Quando crias música já imaginas cores ou cenários?
Muitas vezes, sim. Às vezes surge uma imagem, uma fotografia, um cenário ou até uma cor que se associa imediatamente à música.
Se tivesses de ouvir apenas uma música dos anos 80 para o resto da vida, qual seria?
Essa é difícil! Talvez algo do David Bowie… ou então "Is This Love", dos Whitesnake.
Se Outrun fosse um filme, que tipo de filme seria?
Sem dúvida um filme de ação policial dos anos 80, com drama e muita atmosfera.
O que ainda falta cumprir na tua lista de sonhos?
Gostava de explorar mais músicas em português. Já lancei "Juno", mas tenho vontade de desenvolver mais essa vertente.E, claro, tocar ao vivo. Tocar cada vez mais.
O que gostarias que as pessoas sentissem ao ouvir Outrun do início ao fim?
Que se divirtam. Que dancem. Há muitas músicas feitas para isso, como "Hurricane", "End of the World" ou "Dancing With the Devil". Quero que as pessoas entrem nessa energia.
O que vem a seguir para Goldcobra em 2026?
Espero fechar mais datas de concertos. Uma delas já está confirmada: vou tocar pela primeira vez com Goldcobra na Ovibeja.Vai ser muito especial porque, apesar de ser de Portimão, nasci em Beja. Vai ser uma espécie de regresso a casa, com família e amigos.Acima de tudo, quero continuar a levar este projeto ao palco e encontrar as pessoas que têm acompanhado Goldcobra.
