Entrevista com Fulha

12-07-2026

O Hip-Hop é, para muitos, uma forma de expressão. Para Fulha, é também uma missão de vida.

Natural do Algarve, o rapper tem vindo a construir um percurso marcado pela autenticidade, pela superação e por uma forte ligação às suas raízes. Muito para lá da música, é empresário, mentor de novos artistas e impulsionador de vários projetos sociais e culturais, procurando provar que o sucesso pode nascer mesmo nos contextos mais difíceis.

Depois de lançar o single "Fascínio", integrado no álbum "Prefácio", Fulha revela-nos a história por detrás das suas canções, fala da infância no bairro da Atalaia, da importância da família, do amor, dos desafios da vida e da responsabilidade que acredita que um artista deve assumir perante a sociedade.

Numa conversa franca, o rapper algarvio abre o coração e mostra que, por trás das rimas, existe um homem que continua a acreditar que os sonhos se conquistam com trabalho, resiliência e, acima de tudo, humanidade.


Para quem ainda não conhece o teu trabalho, quem é o Fulha e quem é o Diogo Lima?

O Fulha nasceu em 2011, quando fundámos a nossa crew de amigos, os WTDPG. Na altura vivíamos intensamente a cultura Hip-Hop: freestyle, graffiti, skate… era uma verdadeira família.

O nome "Fulha" surgiu de forma divertida. Cresci no bairro da Atalaia e comecei a trabalhar muito cedo, aos 13 anos, porque havia necessidades em casa. Sempre procurei formas de ganhar algum dinheiro extra. Trabalhei em cafés e bares, vendi roupa, óculos, CDs de Hip-Hop… A malta dizia que eu arranjava sempre umas "trafulhices" para conseguir levar comida para casa, e daí nasceu a alcunha.

Mais tarde houve outro momento engraçado, relacionado com o clube inglês Fulham, que acabou por reforçar ainda mais esse nome. Ficou para sempre.

Hoje, para mim, o Fulha representa muito mais do que um nome artístico. É a prova de que qualquer pessoa pode superar as dificuldades da vida. Venho de um contexto complicado, mas consegui construir o meu caminho. Tenho vários negócios, projetos sociais e artísticos e orgulho-me de poder ajudar a minha família.

O meu pai sofre de demência e Alzheimer e vive num lar. Sou eu quem suporta grande parte dessas despesas. Tudo isto faz parte da minha história e da pessoa que sou.

Na verdade, o Diogo Lima e o Fulha são exatamente a mesma pessoa. Nunca criei uma personagem para subir ao palco. Aquilo que as pessoas veem na música é exatamente quem eu sou no dia a dia.

Acabas de lançar "Fascínio". O que representa este tema dentro da história do álbum "Prefácio"?

"Fascínio" retrata uma fase muito bonita da minha vida. Estive numa relação durante nove anos e meio com uma pessoa com quem, felizmente, ainda mantenho uma boa relação, apesar de já não estarmos juntos.

Grande parte do álbum Prefácio foi escrita durante essa relação. Na altura, acabei por não lançar o projeto porque a minha companheira não apoiava muito a minha carreira a solo. Preferia que me dedicasse apenas aos outros projetos que tinha.

Com o tempo percebi que também precisava de lutar pelos meus sonhos. Amar alguém é importante, mas o amor-próprio também é. Sentia que precisava de contar as minhas histórias e mostrar quem realmente sou enquanto artista.

"Fascínio" fala precisamente daquela fase em que acreditávamos que o amor era eterno. É uma canção muito verdadeira e muito especial para mim.

Escolhi gravar o videoclipe na Ria Formosa porque era um lugar onde passávamos muito tempo juntos. Depois do trabalho íamos frequentemente caminhar junto ao mar. São memórias muito felizes e fazia sentido eternizá-las nesta música.

Hoje continuo apaixonado pela natureza. Sempre sonhei viver perto do mar e sinto que, depois de tudo aquilo que vivi, estou finalmente a concretizar esse sonho.

Os teus últimos singles têm títulos muito marcantes — "Plenitude", "Reconhecimento", "Emoção", "Fascínio" e "Amor". Existe um significado especial nesta sequência?

Sem dúvida.

Todos os títulos foram escolhidos de forma muito consciente e fazem parte de um conceito maior. As iniciais das músicas formam a palavra PREFÁCIO, precisamente o nome do álbum.

Cada canção representa um sentimento específico e não apenas uma frase retirada da letra, como acontece muitas vezes.

"Plenitude" representa o momento em que senti que me estava a tornar uma pessoa mais completa e equilibrada.

"Reconhecimento" é dedicado ao meu pai. Apesar da ausência que sempre existiu, consegui perdoar e reconhecer também aquilo que ele fez de bom. Foi um exercício de maturidade e de paz interior.

"Emoção" é talvez uma das músicas mais sensíveis do disco. Antes de a lançar mostrei-a a várias mulheres da minha equipa e todas sentiram uma ligação muito forte à mensagem.

"Fascínio" representa a beleza do início de uma grande história de amor.

"Amor" acaba por resumir aquilo que considero ser o sentimento mais importante do mundo. Curiosamente, o videoclipe foi gravado com a minha ex-companheira, numa altura em que já não estávamos juntos, o que lhe dá ainda mais significado.

Os próximos temas também seguem esta lógica. "Contágio" fala da capacidade que um sorriso tem para transformar quem está à nossa volta. "Intimidade" aborda o lado mais privado de uma relação amorosa. Já "Ó Deus" joga com um duplo significado: é simultaneamente um desabafo dirigido a Deus e uma referência à palavra "adeus", refletindo o fim de um ciclo.

Todo o álbum foi pensado como uma história, onde cada música representa uma emoção diferente da vida.

O Algarve está muito presente na tua música. O que significa representar esta região através do Hip-Hop?

Significa muito para mim.

Ao longo dos anos viajei de norte a sul do país graças aos meus projetos e à editora independente DRUGS. Isso permitiu-me conhecer muitos artistas e perceber que, muitas vezes, o Algarve continua a ser esquecido quando se fala da cultura Hip-Hop.

Há muito talento aqui em baixo, mas faltam estruturas, espaços para eventos e maior reconhecimento nacional.

Apesar disso, nunca deixei de representar a minha terra.

Tenho um enorme orgulho em ser algarvio e acredito que vivemos numa das regiões mais bonitas do mundo. Sempre que subo a um palco levo o Algarve comigo.

Gostava que existisse mais união entre todos os artistas da região. Podemos seguir caminhos diferentes, mas devemos caminhar todos na mesma direção: fazer crescer a cultura e mostrar que o Algarve tem muito para oferecer ao panorama nacional.

Cresceste num contexto difícil e transformaste muitas dessas experiências em música. Continuas a escrever como uma forma de libertação?

Sem dúvida.

Escrever continua a ser uma das minhas maiores formas de libertação. É quase uma terapia e, ao mesmo tempo, uma meditação. Nos poucos momentos que consigo dedicar exclusivamente à escrita, desligo-me completamente do resto.

A minha vida é muito intensa. Entre os desafios familiares e os vários negócios que tenho para gerir, surgem problemas todos os dias. Liderar equipas, tomar decisões e assumir responsabilidades exige muito de nós.

Mas acredito que são precisamente esses desafios que nos fazem crescer. A música permite-me transformar tudo isso em algo positivo e ajuda-me a manter o equilíbrio.

Começaste a fazer freestyle no bairro da Atalaia. Quando percebeste que a música podia deixar de ser apenas um sonho?

Foi graças ao meu irmão Hi-Rock.

Ele já tinha muita experiência no meio, conhecia vários artistas e acreditava verdadeiramente no meu potencial. Foi ele quem me dizia constantemente que eu tinha de começar a escrever porque via em mim talento, flow e vontade.

Na altura respondia-lhe sempre que fazia música apenas por amor e que nunca queria depender dela para pagar contas.

Ele dizia-me exatamente o contrário: "Um dia ainda vais viver da música."

A verdade é que acabou por acontecer.

Começámos a trabalhar juntos em 2015, em 2017 demos os primeiros concertos e, em 2018, já estávamos a atuar profissionalmente.

Hoje olho para trás e percebo que aquele miúdo do bairro da Atalaia nunca imaginaria receber cachês de milhares de euros por fazer aquilo que mais gosta.

Quando acreditamos verdadeiramente nos nossos sonhos e trabalhamos para eles, as coisas acabam por acontecer.

Em 2011 fundaste os WTDPG. O que representou esse projeto na tua evolução enquanto artista?

Os WTDPG nasceram muito antes de serem um projeto ligado ao Hip-Hop.

Era, acima de tudo, um grupo de amigos que cresceu unido. Partilhávamos os mesmos valores, a mesma paixão pela cultura urbana e a vontade de evoluir juntos.

Ainda hoje considero os WTDPG como uma verdadeira família.

Além da minha mãe, são as pessoas mais importantes da minha vida.

Tenho muito orgulho em olhar para os 14 elementos da crew e perceber que praticamente todos conseguiram construir um futuro sólido. Uns criaram os seus próprios negócios, outros seguiram carreiras profissionais de sucesso.

Mais do que formar artistas, crescemos como homens.

Esse sempre foi o verdadeiro objetivo.

Além da música, és empresário e lideras vários projetos. Como consegues equilibrar o lado artístico com o lado empresarial?

Não é fácil.

Há mais de dois anos que praticamente não tiro férias. Estava tudo preparado para descansar em Andorra, onde ia praticar snowboard, um dos desportos de que mais gosto, mas, na véspera da viagem, um fenómeno meteorológico danificou gravemente a casa que estou a comprar.

Perdi a viagem, o dinheiro e tive de reorganizar completamente a minha vida.

Mas faz parte.

Tenho negócios em áreas muito diferentes. Trabalho na informática e eletrónica, na indústria têxtil, na produção musical, na edição de vídeo, fotografia e gestão da minha editora independente.

Além disso, desenvolvo um projeto ligado ao programa Erasmus+, onde damos formação a jovens de vários países, como Itália, Espanha, Alemanha, França, Polónia e Ilha da Reunião.

Esse projeto vai muito além da formação técnica.

Tentamos ajudá-los a crescer enquanto pessoas, a desenvolver valores e a ganhar uma nova perspetiva sobre a vida.

No fundo, gosto de trabalhar. Há quem me chame "workaholic", mas eu não sinto que seja isso. Quando fazemos aquilo de que gostamos, o trabalho deixa de ser apenas uma obrigação.

Também és conhecido pelo teu trabalho solidário. De onde nasce essa vontade constante de ajudar os outros?

Sempre senti que essa é a minha missão.

Não vivo apenas para mim.

Acredito sinceramente que passei por muitas dificuldades precisamente para compreender melhor quem precisa de ajuda.

Claro que também cuido de mim. Pratico desporto, faço calistenia, jogo futebol, não fumo, não bebo álcool, não consumo refrigerantes e tento manter um estilo de vida saudável.

Mas aquilo que realmente me realiza é sentir que consigo melhorar a vida de outras pessoas.

Vivemos numa sociedade muito focada nas aparências e nas redes sociais. Muita gente perde a própria identidade porque tenta viver a vida de outra pessoa.

Eu procuro exatamente o contrário.

Quero manter a minha essência e incentivar quem me acompanha a fazer o mesmo.

Achas que um artista tem também uma responsabilidade social junto da comunidade?

Sem qualquer dúvida.

Tudo aquilo que escrevemos influencia alguém.

Nem todas as pessoas vão sentir as nossas músicas da mesma forma, mas aquelas que se identificam levam muito a sério as palavras que ouvem.

Por isso acredito que um artista deve pensar muito bem na mensagem que transmite.

As palavras têm força.

Têm energia.

Podem inspirar alguém a mudar de vida ou, pelo contrário, levá-lo por um caminho errado.

No meu caso, procuro sempre escrever sobre crescimento pessoal, superação, respeito e amor-próprio.

Essa é a responsabilidade que sinto enquanto artista.

Que artistas mais influenciaram o teu percurso, tanto em Portugal como lá fora?

As minhas primeiras grandes influências vieram sobretudo do Hip-Hop português e brasileiro.

Durante muitos anos ouvi quase exclusivamente rap em português, brasileiro e crioulo. Só mais tarde comecei a explorar o Hip-Hop norte-americano.

Do Brasil marcaram-me artistas como Trilha Sonora do Gueto, Sabotage, Racionais MC's, MV Bill e Câmbio Negro. Em Portugal cresci a ouvir nomes como NGA, Halloween e Chullage, artistas que me fizeram refletir e evoluir enquanto pessoa.

Mais tarde descobri Tupac e Eminem, que passaram a ser referências incontornáveis no meu percurso. Hoje continuo a inspirar-me em artistas como J. Cole e Kendrick Lamar, entre outros.

Gosto de aprender com todos, mas acima de tudo procuro absorver conhecimento e retirar algo positivo da música que ouço.

Ao longo da carreira já dividiste palco com vários nomes importantes da música portuguesa. Houve algum momento que nunca vais esquecer?

Felizmente houve muitos.

Tenho memórias muito especiais das cinco edições dos Drug Sounds, um festival que organizámos e que nos permitiu trazer ao Algarve vários artistas de referência do Hip-Hop nacional.

Outro momento inesquecível aconteceu quando vencemos um concurso que nos deu a oportunidade de abrir um concerto do Plutónio. Foi uma experiência muito importante para nós e guardo excelentes recordações desse dia.

Também nunca esquecerei um concerto na Foia, em Monchique. Não foi pelo número de pessoas presentes, mas pela envolvência. Estava rodeado pela natureza, num cenário absolutamente incrível. Foi um daqueles momentos em que percebi que a música também vive muito da energia do lugar.

Outro marco importante foi atuar na Festa do Avante!, onde fomos recebidos de forma extraordinária. Foi também um dos primeiros grandes concertos com a nossa banda e isso tornou a experiência ainda mais especial.

Cada palco tem a sua história e todos contribuíram para o artista que sou hoje.

Como vês atualmente a cena do Hip-Hop em Portugal?

É uma questão que gera sempre opiniões diferentes.

Venho de uma escola de Hip-Hop muito ligada às ruas, à mensagem e à consciência social. Por isso, sinto que parte do Hip-Hop atual se afastou desses valores.

Hoje existe uma grande influência da cultura norte-americana, onde muitas vezes predominam a ostentação, o ego, o materialismo e uma imagem muito superficial da realidade.

Naturalmente, há exceções e continuam a existir artistas que escrevem com conteúdo, que fazem poesia e deixam uma mensagem positiva.

Mas acredito que o Hip-Hop deve ser muito mais do que um bom beat ou um flow impressionante.

Para mim, Hip-Hop é verdade.

É contar histórias reais.

É inspirar quem nos ouve.

Vejo muitos artistas que começaram por falar das suas vivências e, quando alcançam o sucesso, passam a construir personagens que pouco têm a ver com aquilo que realmente são.

Não critico ninguém, cada um faz o seu caminho. Mas esse não é o Hip-Hop com que cresci.

Que conselho darias aos jovens que vivem uma realidade difícil, mas sonham construir uma carreira na música?

Diria para nunca deixarem de acreditar neles próprios.

Sinto que hoje muitos jovens perderam a confiança, a vontade de lutar e a capacidade de sonhar.

As redes sociais criam demasiadas comparações e fazem com que muitos pensem que nunca serão suficientes.

O meu conselho é simples: trabalhem para ser a vossa melhor versão todos os dias.

Tenham amor-próprio.

Acreditem nos vossos sonhos.

Não desistam quando aparecerem os primeiros obstáculos.

Também gostava de deixar uma mensagem às raparigas e aos rapazes que vivem presos aos padrões impostos pelas redes sociais.

A verdadeira beleza não está na aparência.

Está no caráter, na personalidade e na forma como tratamos os outros.

É isso que permanece.

Quais são os próximos objetivos para o Fulha?

Tenho muitos objetivos e continuo a fazer planos todos os dias.

Sou uma pessoa muito organizada. Tenho um quadro onde escrevo aquilo que quero alcançar e acompanho diariamente a minha evolução.

No que diz respeito à música, posso revelar que já tenho um segundo álbum concluído, produzido em parceria com um dos produtores mais importantes da lusofonia.

Ao mesmo tempo, já comecei a trabalhar no terceiro disco.

Gosto de fazer tudo com calma. Este álbum esteve guardado durante vários anos antes de ser lançado, porque acredito que cada projeto tem o seu momento certo.

Paralelamente, estou a desenvolver novos projetos que vão envolver mais de vinte artistas algarvios e que acredito que irão colocar o Algarve ainda mais em destaque no panorama nacional.

Também quero continuar a fazer crescer o meu estúdio, ajudar novos artistas e investir em todos aqueles que procuram evoluir, não apenas enquanto músicos, mas também enquanto pessoas.

No fundo, esse sempre foi o meu maior objetivo: crescer e levar comigo quem acredita no mesmo caminho.

E há ainda um sonho muito pessoal que espero concretizar em breve.

Quero reformar a minha mãe.

É uma promessa que lhe faço há vários anos e acredito que 2027 será finalmente o ano em que conseguirei cumprir esse objetivo.

Para terminar, completa a frase: "Fulha é..."

Fulha é um sonhador.

Acho que essa é a definição que melhor resume quem sou. Tudo aquilo que conquistei começou por ser um sonho e continuo a acreditar que é essa capacidade de sonhar que nos faz avançar.


Com um percurso construído entre as dificuldades da vida, o empreendedorismo e a paixão pela música, Fulha continua a afirmar-se como uma das vozes mais autênticas do Hip-Hop algarvio. As suas letras refletem experiências reais, marcadas pela superação, pela família, pelo amor e pela vontade constante de inspirar quem o acompanha.

Enquanto prepara novos projetos e novos lançamentos, o rapper mantém os pés bem assentes na terra e o olhar no futuro, sem nunca esquecer as suas origens. Porque, como faz questão de repetir ao longo desta conversa, não existem impossíveis para quem acredita, trabalha e nunca desiste dos seus sonhos.

O caminho continua a escrever-se, uma rima de cada vez.

Foto: Direitos Reservados

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