Entrevista com Filipe Tavares (Festival Azores Burning Summer)

O Azores Burning Summer regressa para a sua 12.ª edição e continua a afirmar-se como um dos festivais mais singulares do país. Realizado na Praia dos Moinhos, na Ribeira Grande, São Miguel, o evento alia música, natureza, sustentabilidade e comunidade. Filipe Tavares, fundador e diretor do festival, fala sobre a identidade do projeto, o seu crescimento e a visão que tem para o futuro.
Antes de mais, para quem ainda não conhece o Azores Burning Summer, como descreves o festival em poucas palavras?
O Azores Burning Summer é um festival profundamente ligado a um lugar muito especial: a Praia dos Moinhos. É um espaço carregado de memórias, onde várias gerações cresceram entre convívios, música, caldeiradas, noites de verão e amizades que ficaram para a vida.
Também eu vivi muitos desses momentos e senti vontade de transformar esse legado num festival que homenageasse tudo aquilo que este lugar representa. Foi assim que nasceu o Azores Burning Summer, em 2015.
Desde o início quisemos proporcionar às pessoas a oportunidade de regressarem à Praia dos Moinhos e ao Parque dos Moinhos para reviver esse espírito de convivência, mas também para desfrutarem de um contacto pleno com a natureza. Quem conhece este local sabe que a sua paisagem é verdadeiramente extraordinária, com uma baía de enorme beleza.
Ao mesmo tempo, sempre existiu uma preocupação muito forte com a sustentabilidade e com o impacto positivo que o festival pode deixar, tanto junto do público como da comunidade. Queremos que cada pessoa leve consigo não apenas boas memórias da música, mas também uma maior consciência ambiental e social.
Este ano o festival celebra a sua 12.ª edição. Quando olhas para trás, imaginavas que o projeto pudesse crescer desta forma?
Quando se fala em crescimento, normalmente pensa-se em festivais maiores, com mais público e mais dimensão. Mas essa nunca foi a nossa ambição.
Desde o primeiro dia idealizámos o Azores Burning Summer como um festival de lotação controlada. O objetivo sempre foi preservar a autenticidade da Praia dos Moinhos e evitar a massificação daquele espaço natural.
Por isso, em termos de dimensão, praticamente mantemos a mesma capacidade desde a primeira edição. Aquilo que realmente evoluiu foi a qualidade do recinto, das infraestruturas, das condições de segurança e do conforto oferecido ao público.
Foi aí que concentrámos grande parte do investimento. Sempre que existiam receitas disponíveis, optávamos por reinvesti-las na melhoria da experiência do festival, muito mais do que em aumentar a dimensão do cartaz.
Esse trabalho acabou por dar frutos. O festival ganhou notoriedade nacional e internacional e foi distinguido nos Iberian Festival Awards, onde recebeu, por duas vezes, os prémios de Melhor Contributo para a Sustentabilidade, tanto na categoria ibérica como nacional. Mais recentemente, foi ainda reconhecido com o prémio ibérico de Melhor Hospitalidade e Acolhimento.
Estes reconhecimentos refletem o percurso que temos vindo a construir ao longo dos anos e confirmam que vale a pena investir na qualidade da experiência proporcionada ao público.
O cartaz deste ano volta a reunir artistas de diferentes países e culturas. O que procuras quando escolhes os nomes que integram o festival?
Costumo dizer uma frase que, por vezes, pode ser mal interpretada, mas que traduz bem a nossa filosofia: mais do que trazer grandes nomes, queremos criar uma experiência.
O Azores Burning Summer nasceu com a missão de aproximar pessoas. Queremos que o festival seja um ponto de encontro entre quem vive nos Açores, quem nos visita como turista e quem escolheu as ilhas para viver, independentemente da sua nacionalidade. É esse cruzamento de culturas que torna o festival tão especial.
A música desempenha um papel fundamental nessa missão. Há sonoridades que aproximam naturalmente as pessoas e promovem o convívio, e é precisamente isso que procuramos. Daí a forte ligação do festival à música africana e, de uma forma mais abrangente, à world music. Essa tornou-se a nossa identidade artística.
O cartaz deste ano reflete essa visão. Recebemos Lura, uma das maiores vozes de Cabo Verde, que celebra 30 anos de carreira; Paulo Flores, uma referência incontornável da música angolana; e os Tabanka Djaz, um dos nomes mais emblemáticos da música da Guiné-Bissau.
Na música portuguesa contamos com o regresso dos Capitão Fausto, uma das bandas mais marcantes da atualidade, que volta ao festival pela segunda vez.
Outro destaque é Zé Ibarra, jovem músico brasileiro que respeita profundamente a tradição da música do seu país, mas que lhe acrescenta uma abordagem contemporânea, com letras de enorme qualidade e arranjos muito ricos.
Recebemos ainda novamente os Throes + The Shine, um grupo muito acarinhado pelo nosso público e cujo regresso era pedido há já bastante tempo.
No fundo, mais do que construir um cartaz, procuramos criar uma viagem musical onde diferentes culturas dialogam entre si e onde o público descobre novas sonoridades.
O Azores Burning Summer já deixou de ser apenas um festival de música. Hoje fala-se também de cinema, literatura, sustentabilidade, saúde e projetos comunitários. Como nasceu essa ideia?
Essa evolução surgiu naturalmente da vontade que sempre tivemos de deixar uma marca positiva em quem passa pelo festival.
Não queríamos limitar-nos a proporcionar dois dias de boa música. Sentíamos que podíamos ir mais longe e contribuir para uma maior consciência ambiental, social e cultural.
A sustentabilidade é um dos pilares do Azores Burning Summer e traduz-se não apenas nas práticas ambientais implementadas durante o evento, mas também numa forte componente educativa.
Ao longo dos anos criámos uma feira de eco-design, uma exposição dedicada à mobilidade elétrica e desenvolvemos o programa comunitário Habitat, que leva centenas de crianças a contactar com temas como a conservação dos oceanos e a literacia ambiental.
Mas quando falamos de sustentabilidade falamos também da sua dimensão social. É por isso que nasceu o programa comunitário VIVE, que procura criar oportunidades para populações de zonas mais rurais participarem em atividades culturais que, muitas vezes, apenas existem nos grandes centros urbanos.
Grande parte desta programação paralela é de acesso gratuito, porque acreditamos que a cultura deve estar ao alcance de todos.
Este ano estreia-se também o projeto "Letras na Areia". Em que consiste?
É uma das novidades desta edição.
O "Letras na Areia" consiste na apresentação de dois livros, na presença dos respetivos autores, seguida de uma conversa moderada pela Livraria Sol Mar.
Uma das obras aborda o universo do surf e do mar, enquanto a outra explora a experiência dos viajantes nos Açores. A conversa procurará refletir sobre estes temas, sempre numa perspetiva de desenvolvimento sustentável da região.
O cinema continua igualmente a ter um papel importante no festival.
Sem dúvida.
Voltamos a apresentar o Cinema na Praia, uma iniciativa já consolidada, que este ano cumpre a sua sexta edição. Instalamos um grande ecrã junto ao Bar dos Moinhos e transformamos a própria baía da Praia dos Moinhos no cenário natural das sessões de cinema.
Ao longo de quatro noites serão exibidos vários filmes de acesso gratuito, entre eles A Viagem Autonómica, dedicado ao processo autonómico dos Açores; 7.2, de Jorge Jardim, sobre o sismo de 1980; José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, centrado na vida de José Saramago e Pilar del Río; e o documentário dedicado a Orlando Pantera, uma das figuras mais marcantes da música cabo-verdiana.
Paralelamente, levaremos ainda o filme A Viagem Autonómica a diversas freguesias do concelho da Ribeira Grande, reforçando o objetivo de aproximar a cultura das comunidades locais.
A Praia dos Moinhos é um cenário absolutamente único. Podemos dizer que o próprio lugar é um dos grandes cabeças de cartaz do festival?
Sem qualquer dúvida.
Desde o início que nunca quisemos criar um festival onde o destaque fosse apenas o palco ou os artistas. Queríamos que as pessoas descobrissem a Praia dos Moinhos de uma forma diferente e que criassem uma ligação emocional com este lugar tão especial.
O festival procura recuperar as memórias associadas à praia, aos convívios de outros tempos e ao ambiente que marcou várias gerações. Queremos que quem nos visita viva uma experiência completa, onde a música, a paisagem e a história do local se complementam.
Um dos momentos que melhor simboliza esse espírito é o Moinhos Revival, um evento de acesso gratuito que antecede o festival e que celebra precisamente esse legado de encontros e partilha.
Antigamente realizávamos uma grande fogueira na praia na última noite antes do festival. Com a evolução do projeto e por uma questão de coerência com os princípios da sustentabilidade, essa tradição foi adaptada. Hoje fazemos apenas uma pequena fogueira simbólica, semelhante a um fire pit, mantendo o ambiente de convívio sem colocar em causa os valores ambientais que defendemos.
Este ano teremos ainda um concerto de Héctor, guitarrista e construtor de guitarras, conhecido pelo projeto "Volta ao Mundo em 80 Guitarras", numa atuação de acesso livre que reforça essa ligação entre música, natureza e comunidade.
Tudo isto faz com que o local esteja sempre no centro da experiência do festival.
Também existe uma preocupação evidente em preservar a tranquilidade da Praia dos Moinhos.
Sem dúvida.
Apesar de haver espaço para receber mais pessoas, optámos por manter uma lotação máxima de cerca de 2.500 espectadores. Preferimos privilegiar a qualidade da experiência em vez de aumentar a dimensão do evento.
Outro aspeto importante passa pela mobilidade. O trânsito é interrompido a alguma distância do recinto e os parques de estacionamento ficam localizados entre um e dois quilómetros da praia. Desta forma evitamos congestionamentos, reduzimos o impacto ambiental e proporcionamos uma chegada muito mais tranquila.
Há residentes e unidades de alojamento na zona da praia, pelo que também existe uma preocupação em respeitar quem ali vive ou passa férias.
No final, aquilo que pretendemos é que as pessoas desfrutem da Praia dos Moinhos com calma, conforto e qualidade.
Organizar um festival numa ilha traz desafios muito diferentes dos que existem no continente. Qual é o maior?
O principal desafio é, sem dúvida, o financeiro.
Organizar um festival nos Açores representa um acréscimo significativo de custos quando comparado com um evento semelhante realizado em Portugal continental. Entre viagens de avião, alojamento, alimentação e toda a logística necessária para transportar artistas e equipas, estimamos que os custos sejam entre 30% e 40% superiores.
Isso obriga-nos a um enorme esforço na procura de apoios e parceiros que garantam a sustentabilidade do projeto.
Depois existe um fator que ninguém controla: o estado do tempo.
As condições meteorológicas podem determinar o sucesso ou o insucesso de um festival ao ar livre. Quando já existem custos acrescidos devido à localização geográfica, esse risco torna-se ainda maior.
Por isso, procuramos sempre planear o evento com grande rigor e manter um equilíbrio financeiro que nos permita continuar a crescer de forma sustentável.
Depois de tantos anos, ainda há espaço para sonhar? Existe algum artista que gostasses especialmente de trazer ao Azores Burning Summer?
Claro que sim. Há muitos artistas que gostaria de receber.
Mas a programação nunca pode ser pensada apenas em função dos nomes. Tem de respeitar a identidade do festival, a nossa visão artística e, naturalmente, a realidade financeira.
Existem projetos que, neste momento, estão fora do nosso alcance devido aos custos que implicam. Não faria sentido assumir riscos que colocassem em causa o futuro do festival.
O nosso objetivo continua a ser consolidar um evento que aproxima pessoas e culturas, que promove uma música positiva e que cria momentos genuínos de partilha.
Vivemos numa época em que passamos demasiado tempo ligados aos telemóveis. No Azores Burning Summer gostamos de pensar que oferecemos um espaço onde as pessoas conseguem desligar um pouco do mundo digital, conversar, sorrir, dançar e aproveitar verdadeiramente a companhia umas das outras.
O Parque dos Moinhos proporciona naturalmente esse ambiente. É um anfiteatro ao ar livre rodeado por uma vegetação exuberante, com uma acústica extraordinária e uma paisagem que dificilmente se esquece.
Mais do que um festival, queremos continuar a criar um espaço onde se valorizam as relações humanas e onde as pessoas regressam a casa com boas memórias.
Para terminar, o que gostavas que o público levasse consigo quando regressasse a casa depois do festival?
Acima de tudo, alegria.
Gostava que as pessoas levassem consigo a satisfação de terem vivido momentos especiais, de terem descoberto boa música, convivido com outras culturas e criado memórias felizes num lugar único.
Se conseguirmos proporcionar essa experiência, então sentimos que o Azores Burning Summer cumpriu a sua missão.
Mais do que um festival de música, o Azores Burning Summer afirma-se como uma experiência onde a natureza, a cultura e a sustentabilidade caminham lado a lado. Ao longo de 12 edições, Filipe Tavares construiu um projeto fiel à sua identidade, recusando a massificação em favor da qualidade, da proximidade e da criação de momentos verdadeiramente memoráveis.
Num cenário único como a Praia dos Moinhos, o festival continua a reunir artistas de diferentes geografias e sonoridades, promovendo o encontro entre culturas e proporcionando uma programação que vai muito além dos concertos, com cinema, literatura, projetos comunitários e iniciativas de sensibilização ambiental.
Apesar dos desafios inerentes à organização de um festival nos Açores, a visão mantém-se inalterada: criar um espaço onde as pessoas possam desligar-se do ritmo acelerado do quotidiano, reencontrar-se umas com as outras e regressar a casa com boas memórias.
Porque, no final, é precisamente essa a missão do Azores Burning Summer: celebrar a música, a natureza e a humanidade, num dos cenários mais inspiradores do arquipélago açoriano.
