Entrevista com Ensemble 17

Num panorama musical cada vez mais dominado pela rapidez e pela lógica do consumo imediato, há projetos que insistem em contrariar a corrente. Os Ensemble 17 são um desses casos. Vindos do Algarve, o coletivo cruza influências do rock sinfónico, da música progressiva e da experimentação contemporânea para construir uma identidade sonora própria, ambiciosa e assumidamente fora dos padrões comerciais.
A recente nomeação para os International Portuguese Music Awards, na categoria de música original instrumental, veio reforçar a relevância de um projeto que se define como um verdadeiro "organismo artístico" — um espaço de criação coletiva onde som e imagem se fundem numa experiência imersiva.
À conversa com Jorge Carrilho, Pedro Calquinha e Pedro Piteira, percebemos como nasceu este universo, que caminhos se abrem a partir deste reconhecimento internacional e de que forma o Ensemble 17 continua a afirmar-se como um laboratório criativo em permanente transformação.
O que representa para vocês, enquanto projeto algarvio, esta nomeação para os International Portuguese Music Awards?
Jorge Carrilho - Para nós tem um significado
enorme. É uma vitória, mesmo que não tragamos a estatueta de Rhode Island. Na
nossa categoria música original instrumental estávamos num universo com mais de
170 mil inscrições de todo o mundo e fomos um dos quatro nomeados. É algo muito
especial. Sentimos que é um reconhecimento não só em Portugal e na vizinha
Espanha, mas à escala global.
Serem escolhidos entre mais de 170 mil candidaturas é impressionante. Como reagiram quando receberam a notícia?
Jorge Carrilho - Inicialmente, pensei que fosse
uma brincadeira. Recebi um e-mail há cerca de um mês a dar os parabéns pela
nomeação e a falar da ida aos Estados Unidos. Como me tinha inscrito quase por
acaso, em novembro do ano passado, e nunca mais pensei no assunto, achei
estranho.
No dia seguinte, recebi uma chamada de alguém ligado à organização, um
português a trabalhar nos EUA, que me perguntou de que precisávamos em termos
logísticos. Foi aí que percebi a dimensão da coisa. Para quem está "neste
cantinho à beira-mar plantado", ter um reconhecimento destes a nível mundial é
absolutamente extraordinário.
Muitas pessoas não conhecem o IPMA. Estamos a falar de um evento verdadeiramente global, certo?
Pedro Piteira - Exatamente. Não é apenas algo
ligado a Portugal. Envolve artistas de todo o mundo. Ser nomeado entre tantos
participantes é extremamente gratificante. Quando o Jorge me ligou com a
notícia, eu estava a trabalhar e fiquei incrédulo. Pode ser um impulso
importante para o projeto, quem sabe até para uma digressão internacional.
Já existem contactos nesse sentido?
Jorge Carrilho - Sim. Temos contactos nos Estados
Unidos, incluindo dois colaboradores ligados à produção e promoção de
concertos. Vamos também ter reuniões com uma editora e com uma empresa de
promoção de digressões.
Estas oportunidades abrem portas, mas sabemos que tudo depende do momento e do
interesse que se venha a gerar. Ainda assim, acreditamos que podem surgir
oportunidades interessantes, tanto a nível nacional como internacional.
Representar o Algarve num palco destes traz uma responsabilidade acrescida?
Jorge Carrilho - Sem dúvida. Levamos o Algarve
connosco. Tentamos transmitir um pouco da identidade da região através da
música. Só o facto de termos chegado até aqui já implica uma grande
responsabilidade e também um enorme orgulho.
Descrevem o Ensemble 17 como um organismo artístico, mais do que uma banda tradicional. O que significa isso na prática?
Jorge Carrilho - Sempre procurámos fugir ao que é
comercial ou facilmente "vendável". Fazemos a música que gostamos, baseada nas
nossas influências, desde o rock sinfónico dos anos 70 até abordagens mais
contemporâneas.
O processo criativo começa muitas vezes com uma ideia do Pedro Calquinha,
depois desenvolvemos em conjunto: eu trabalho a bateria, o Pedro Piteira acrescenta
a sua visão, e vamos moldando o resultado final. Cada um traz as suas
influências e isso cria algo que foge ao convencional.
Há espaço para improvisação nos vossos concertos?
Jorge Carrilho - Em estúdio, tudo é planeado. Ao
vivo, seguimos a base das gravações, até porque usamos elementos pré-gravados como
secções de sopros que não seriam viáveis de reproduzir com grandes formações em
palco.
No entanto, estamos a pensar introduzir mais espaços de improvisação no futuro,
para dar maior liberdade criativa em concerto.
Já trabalharam com nomes relevantes da música nacional e internacional. Como surgiram essas colaborações?
Jorge
Carrilho - Muitas surgiram de relações pessoais. Por exemplo, toquei com o
saxofonista Howie Casey (associado a Paul McCartney) e convidei-o a participar
no nosso álbum. O mesmo aconteceu com Derek Sherinian, ex-Dream Theater.
Temos também participações de músicos como João Frade, Mark Griffith (dos The
Shadows) e Rui Veloso, entre outros. Para nós, é natural convidar músicos com
quem temos afinidade seja pessoal ou artística.
Os vossos concertos são descritos como experiências multimédia. Qual é o papel do vídeo e da tecnologia?
Pedro Piteira - É fundamental. Utilizamos um ecrã
gigante com imagens sincronizadas ao segundo com a música. Cada momento sonoro
tem uma correspondência visual pensada ao detalhe.
O objetivo é transportar o público para uma experiência imersiva. As imagens
não são convencionais tal como a música e ajudam cada espectador a construir a
sua própria interpretação.
De que forma a vossa música reflete a identidade cultural portuguesa ou algarvia?
Pedro Calquinha
- A nossa
música reflete não só essas identidades, mas também a contemporaneidade.
Vivemos numa era multicultural, rápida e marcada pelas redes sociais.
Enquanto agentes culturais, tentamos oferecer algo que consideramos relevante,
artístico e profundo. A tradição não é estática, constrói-se todos os dias. A
nossa música evolui com cada álbum e com cada nova colaboração.
No fundo, o Ensemble 17 é um laboratório experimental onde mostramos quem somos
e aquilo que queremos criar.
Para terminar, querem deixar algum agradecimento?
Jorge Carrilho - Queremos agradecer aos municípios
que nos têm apoiado, aos International Portuguese Music Awards pela nomeação, e
aos nossos parceiros.
Um agradecimento especial também a quem divulga e promove a cultura no Algarve.
Agora, vamos ver se conseguimos trazer a estatueta.
Mais do que uma banda, os Ensemble 17 afirmam-se como um espaço de exploração artística onde a identidade se constrói em movimento entre referências do passado e inquietações do presente. A nomeação para os International Portuguese Music Awards não é apenas um reconhecimento pontual, mas antes um sinal de que há lugar, mesmo num contexto global saturado, para propostas que recusam fórmulas fáceis e apostam na profundidade.
Num tempo de consumo rápido, o projeto algarvio insiste em desacelerar, em criar camadas, em desafiar o ouvinte. E talvez seja precisamente aí que reside a sua força: na convicção de que a música pode e deve ser mais do que imediata. O futuro dirá até onde chegará este percurso, mas uma coisa parece certa: o Ensemble 17 não está disposto a seguir caminhos previsíveis.
Entrevista: R.C. | Foto: Direitos Reservados
