"Morrer
Devagarinho" fala de renascimento. Em que momento da tua vida percebeste que
era preciso enterrar essa versão antiga de ti?
Já fui enterrando várias versões de mim ao
longo da vida, mas esta em particular surgiu quando me aproximei dos 30 anos.
Essa mudança de década coincidiu com vários acontecimentos pessoais e
profissionais e fez-me sentir que estava a deixar para trás a Andréa
jovem-adulta para entrar numa fase mais madura.
Há
uma frase muito forte na canção: «Celebro quem fui, mas sei que já não há
espaço para continuar a ser». Foi difícil aceitar isso?
Foi um processo demorado. Temos sempre carinho
pelas versões que fomos e acabam por se tornar lugares de conforto. Perceber
que certas atitudes e escolhas já não servem o presente deixa um nó no
estômago. Mas, quando enfrentamos essas questões e resolvemos o que ficou por
resolver, o que vem a seguir costuma ser melhor.
Sentiste
que escrever esta música foi terapêutico?
Sem dúvida. Foi terapêutico durante a escrita,
que fiz com a Rita Onofre, mas também depois. A canção acabou por antecipar
coisas que eu própria ainda não tinha percebido. Era quase um presságio do que
viria a acontecer mais tarde.
Como
foi o processo de composição com Rita Onofre e a produção de Choro?
Foi maravilhoso. A Rita é a minha pessoa
favorita para escrever música. Tem uma postura muito genuína e cria um espaço
seguro para partilhar histórias. Com o Choro aconteceu algo semelhante: gosto
muito da forma como a musicalidade dele vai ao encontro das ideias que levamos
para as canções.
O que
podemos esperar do EP 'Pela e Carne'?
É um EP mais cru e mais alinhado com aquilo
que sou hoje. No primeiro trabalho experimentei caminhos muito diferentes.
Neste sinto uma identidade mais coesa. As canções falam de tudo sem medo do
julgamento e abordam temas pesados com alguma leveza e até humor, algo que me
caracteriza bastante.
Este
EP nasce de uma história específica de desamor?
Sim. É uma história que comecei a contar em
'Não É Mudo', a última faixa do meu primeiro EP. Mas, quando mergulhamos
verdadeiramente numa experiência de desamor, acabamos também por revisitar tudo
o que veio antes. Foi um exercício profundo de reflexão sobre padrões, decisões
e feridas antigas.
Sentes
que encontraste finalmente a tua identidade artística?
A identidade artística está sempre a crescer
connosco. Ainda assim, este EP e a sonoridade de 'Morrer Devagarinho'
representam-me muito bem neste momento da minha vida.
Como
surgiu a ideia do videoclipe, centrado num funeral e num renascimento?
Nasceu da própria letra. Falo de morrer
devagarinho e de precisar de enterrar essa versão antiga para poder viver de
outra forma. Houve também referências como o rio do esquecimento em 'Hércules'
e o quadro 'Ofélia'. Queria, no entanto, evitar uma visão demasiado sombria do
funeral. Para mim, despedirmo-nos de quem fomos deve ser uma celebração.
Qual
é a importância da componente visual no teu trabalho?
É enorme. Penso muito em imagens, cores e
símbolos. Acredito que cada elemento visual acrescenta uma nova camada à
história que estou a contar e ajuda a aprofundar a experiência emocional das
canções.
O que
trouxeste do jornalismo para a música?
Aprendi a ouvir os outros com empatia e
respeito. Também tentei sempre fugir às perguntas mais óbvias. Curiosamente,
escrever canções obriga-me a fazer um trabalho semelhante: entrevistar-me a mim
própria e questionar o que realmente estou a sentir.
De
que forma a formação no Hot Clube de Portugal influencia o teu trabalho?
Influenciou-me muito, sobretudo na composição.
Gosto de explorar harmonias menos previsíveis. Ao mesmo tempo, tenho trabalhado
para adaptar a técnica vocal que aprendi no jazz a uma abordagem mais próxima
da pop, procurando novas formas de usar a voz.
Quando
compões, começas pela emoção, pela melodia ou pela letra?
Varia de canção para canção. A letra é
extremamente importante para mim, talvez por causa da minha ligação à
literatura e à escrita. Muitas vezes preciso de encontrar um verso forte para
iniciar o processo criativo.
As
tuas referências vão de Billie Holiday a Billie Eilish. Como convivem essas
influências?
O que me atrai em todas elas é a verdade com
que cantam e escrevem. Apesar das diferenças estéticas, encontro essa
autenticidade em todas. Essas influências acabam por surgir naturalmente quando
me sento para criar.
A
nova música portuguesa vive um momento especialmente criativo?
Acredito que sim. Há muito talento e uma
qualidade comparável à da música internacional. Além disso, vemos cada vez mais
mulheres compositoras e intérpretes a ocupar espaço, o que é extremamente
importante.
Vamos
poder ouvir estes temas ao vivo em breve?
Sim. Vou participar numa celebração organizada
pelo Hot Clube Portugal, que reúne antigos alunos para apresentarem o trabalho
que desenvolveram depois da escola. Será um momento muito especial.
Que
sonhos ainda faltam concretizar?
São muitos. Gostava de escrever um livro,
fazer uma digressão nacional e internacional e colaborar com artistas
portugueses que admiro. O desafio é escolher qual o próximo sonho a perseguir.