Entrevista com Dreia

30-05-2026

Há canções que nascem de uma ferida e outras que surgem quando finalmente encontramos coragem para a olhar de frente. Em Morrer Devagarinho, Dreia transforma um processo íntimo de mudança numa reflexão luminosa sobre crescimento, despedida e renascimento. O novo single antecipa Pela e Carne, um EP onde a artista portuguesa se apresenta de forma mais crua, honesta e consciente do que nunca.

Com formação em jazz, uma passagem pelo jornalismo e uma escrita profundamente ligada à palavra, Dreia constrói canções que equilibram vulnerabilidade e lucidez. Neste novo trabalho, revisita uma história de desamor, mas também os padrões, as dúvidas e as versões de si própria que precisaram de ficar para trás para dar lugar a algo novo.

Nesta conversa cantora e compositora fala sobre o simbolismo de Morrer Devagarinho, a importância da componente visual no seu universo artístico, o impacto da sua formação musical e o momento particularmente fértil que a música portuguesa atravessa.


"Morrer Devagarinho" fala de renascimento. Em que momento da tua vida percebeste que era preciso enterrar essa versão antiga de ti?

Já fui enterrando várias versões de mim ao longo da vida, mas esta em particular surgiu quando me aproximei dos 30 anos. Essa mudança de década coincidiu com vários acontecimentos pessoais e profissionais e fez-me sentir que estava a deixar para trás a Andréa jovem-adulta para entrar numa fase mais madura.

Há uma frase muito forte na canção: «Celebro quem fui, mas sei que já não há espaço para continuar a ser». Foi difícil aceitar isso?

Foi um processo demorado. Temos sempre carinho pelas versões que fomos e acabam por se tornar lugares de conforto. Perceber que certas atitudes e escolhas já não servem o presente deixa um nó no estômago. Mas, quando enfrentamos essas questões e resolvemos o que ficou por resolver, o que vem a seguir costuma ser melhor.

Sentiste que escrever esta música foi terapêutico?

Sem dúvida. Foi terapêutico durante a escrita, que fiz com a Rita Onofre, mas também depois. A canção acabou por antecipar coisas que eu própria ainda não tinha percebido. Era quase um presságio do que viria a acontecer mais tarde.

Como foi o processo de composição com Rita Onofre e a produção de Choro?

Foi maravilhoso. A Rita é a minha pessoa favorita para escrever música. Tem uma postura muito genuína e cria um espaço seguro para partilhar histórias. Com o Choro aconteceu algo semelhante: gosto muito da forma como a musicalidade dele vai ao encontro das ideias que levamos para as canções.

O que podemos esperar do EP 'Pela e Carne'?

É um EP mais cru e mais alinhado com aquilo que sou hoje. No primeiro trabalho experimentei caminhos muito diferentes. Neste sinto uma identidade mais coesa. As canções falam de tudo sem medo do julgamento e abordam temas pesados com alguma leveza e até humor, algo que me caracteriza bastante.

Este EP nasce de uma história específica de desamor?

Sim. É uma história que comecei a contar em 'Não É Mudo', a última faixa do meu primeiro EP. Mas, quando mergulhamos verdadeiramente numa experiência de desamor, acabamos também por revisitar tudo o que veio antes. Foi um exercício profundo de reflexão sobre padrões, decisões e feridas antigas.

Sentes que encontraste finalmente a tua identidade artística?

A identidade artística está sempre a crescer connosco. Ainda assim, este EP e a sonoridade de 'Morrer Devagarinho' representam-me muito bem neste momento da minha vida.

Como surgiu a ideia do videoclipe, centrado num funeral e num renascimento?

Nasceu da própria letra. Falo de morrer devagarinho e de precisar de enterrar essa versão antiga para poder viver de outra forma. Houve também referências como o rio do esquecimento em 'Hércules' e o quadro 'Ofélia'. Queria, no entanto, evitar uma visão demasiado sombria do funeral. Para mim, despedirmo-nos de quem fomos deve ser uma celebração.

Qual é a importância da componente visual no teu trabalho?

É enorme. Penso muito em imagens, cores e símbolos. Acredito que cada elemento visual acrescenta uma nova camada à história que estou a contar e ajuda a aprofundar a experiência emocional das canções.

O que trouxeste do jornalismo para a música?

Aprendi a ouvir os outros com empatia e respeito. Também tentei sempre fugir às perguntas mais óbvias. Curiosamente, escrever canções obriga-me a fazer um trabalho semelhante: entrevistar-me a mim própria e questionar o que realmente estou a sentir.

De que forma a formação no Hot Clube de Portugal influencia o teu trabalho?

Influenciou-me muito, sobretudo na composição. Gosto de explorar harmonias menos previsíveis. Ao mesmo tempo, tenho trabalhado para adaptar a técnica vocal que aprendi no jazz a uma abordagem mais próxima da pop, procurando novas formas de usar a voz.

Quando compões, começas pela emoção, pela melodia ou pela letra?

Varia de canção para canção. A letra é extremamente importante para mim, talvez por causa da minha ligação à literatura e à escrita. Muitas vezes preciso de encontrar um verso forte para iniciar o processo criativo.

As tuas referências vão de Billie Holiday a Billie Eilish. Como convivem essas influências?

O que me atrai em todas elas é a verdade com que cantam e escrevem. Apesar das diferenças estéticas, encontro essa autenticidade em todas. Essas influências acabam por surgir naturalmente quando me sento para criar.

A nova música portuguesa vive um momento especialmente criativo?

Acredito que sim. Há muito talento e uma qualidade comparável à da música internacional. Além disso, vemos cada vez mais mulheres compositoras e intérpretes a ocupar espaço, o que é extremamente importante.

Vamos poder ouvir estes temas ao vivo em breve?

Sim. Vou participar numa celebração organizada pelo Hot Clube Portugal, que reúne antigos alunos para apresentarem o trabalho que desenvolveram depois da escola. Será um momento muito especial.

Que sonhos ainda faltam concretizar?

São muitos. Gostava de escrever um livro, fazer uma digressão nacional e internacional e colaborar com artistas portugueses que admiro. O desafio é escolher qual o próximo sonho a perseguir.


A atravessar uma fase de transformação pessoal e artística, Dreia assume em Pela e Carne a sua versão mais autêntica. Entre a delicadeza da escrita, a profundidade emocional das canções e uma identidade cada vez mais definida, a cantora e compositora confirma-se como uma das vozes emergentes mais interessantes da nova música portuguesa.

Enquanto continua a explorar novos caminhos criativos, mantém intacta a curiosidade que a levou até aqui, seja através da música, da escrita ou das histórias que escolhe contar. E se Morrer Devagarinho representa o adeus a uma versão antiga de si mesma, também marca o início de um novo capítulo que promete ser vivido com mais consciência, mais verdade e, como a própria canta, mais devagar.

Foto: Direitos Reservados

O novo single chega acompanhado de uma estética intimista e melancólica, reforçando a identidade emocional que tem marcado a carreira da artista. Na capa oficial, Olivia surge a segurar um fio vermelho que desenha o título da faixa — um detalhe simbólico que a própria cantora já tinha antecipado numa entrevista à Cosmopolitan.

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