Entrevista com Davi Santiago

Com um EP marcado pela honestidade emocional e por uma fusão natural entre influências portuguesas e brasileiras, Davi Santiago afirma-se como uma das vozes emergentes a acompanhar na nova música em Portugal. Em conversa, fala-nos de vulnerabilidade, perseverança e do poder transformador do amor.
"Fui Só Amor" é descrita como uma
peça-chave do teu EP. O que representa esta canção dentro do projeto?
Dentro do EP, não é necessariamente a minha faixa favorita, mas é aquela que
carrega uma espécie de essência do projeto, quase como uma "nave-mãe". É a
canção que melhor transmite o sentimento final que eu gostava que as pessoas
levassem depois de ouvir o EP.
E que sentimento é esse?
É difícil de definir, porque não tem um nome específico, é uma mistura de
emoções. Mas há uma ideia central: a perseverança. Sobretudo em situações em que
o mais fácil seria desistir, numa discussão, numa relação, ou até deixar de
falar com alguém. Fala sobre fazer um esforço consciente pelo bem do outro e
também pelo nosso, e sobre cuidar do amor.
A tua música tem uma forte carga
emocional. Foi difícil expor essa vulnerabilidade?
Não, nunca tive dificuldade nisso. Desde as minhas primeiras canções que a
vulnerabilidade está muito presente. É algo natural para mim. Aliás, sinto-me
estranho quando não escrevo sobre algo que vivi ou que não reflita um momento
mais íntimo.
Há uma fusão clara de influências
portuguesas e brasileiras. Como acontece esse equilíbrio?
Acho que acontece da mesma forma que na minha vida. A minha identidade já é uma
mistura dessas duas culturas, mas não é algo em que eu pense conscientemente.
Surge de forma muito natural, quase subconsciente, tanto na minha personalidade
como na música.
Este EP marca um momento importante na
tua carreira. O que pode o público esperar destas seis faixas?
Podem esperar muita honestidade nas letras e na produção. É um EP muito cru, no
bom sentido. Sente-se o ambiente do estúdio, os instrumentos, o espaço. E
espero que seja uma viagem emocional que termine bem.
Os temas passam pela morte, amor, Deus
e a ligação entre Portugal e Brasil. Como se cruzam estas ideias?
Para mim, esses conceitos estão todos interligados. A morte, por exemplo, não é
abordada de forma mórbida, mas como uma ferramenta de aprendizagem. Está ligada
ao amor porque aquilo que é verdadeiro ultrapassa o tempo. E também está ligada
a Deus não num sentido religioso tradicional, mas como uma ideia de propósito,
de existência. Tudo isso converge.
Quanto à ligação entre Portugal e Brasil, é algo muito pessoal, enquanto imigrante. Mas também vejo isso como uma metáfora para relações humanas: há um passado complexo, com mágoas e preconceitos, mas também uma oportunidade de reconciliação, perdão e amor.
O videoclipe de "Fui Só Amor" foi
gravado na Serra da Estrela. Porquê essa escolha?
Primeiro, porque é um lugar lindíssimo. Mas também pela simbologia: queria
explorar a ideia de expansão e contração. O vídeo alterna entre o meu quarto
onde componho e a vastidão da Serra. Quando estou a escrever, estou fisicamente
no quarto, mas mentalmente noutro lugar. Essa dualidade representa também a
intensidade e a entrega da canção.
Como foi trabalhar com a realizadora
Rita Cruz?
Foi ótimo. Ela é minha namorada, o que facilita muito a comunicação. Estuda
artes plásticas e multimédia no Porto e tem um enorme talento. Foi a primeira
pessoa em quem pensei para este projeto, e o resultado tem sido incrível.
Referes influências que vão de nomes
brasileiros a universos mais alternativos. Como unes referências tão distintas?
Tal como com a mistura cultural, é algo que acontece naturalmente. As
influências fazem parte de mim, mas não são uma preocupação consciente quando
estou a compor. Toda a gente encontra o seu próprio equilíbrio nesse processo.
Nasceste com uma condição que afetava a
tua voz. Como isso moldou a tua relação com a música?
Moldou completamente. Foi um percurso difícil. Em criança, tinha muita
dificuldade em fazer-me ouvir. E, na música, comecei praticamente do zero, cantava
muito mal. Foi através da persistência e da vontade de me expressar que fui
aprendendo, sozinho, a trabalhar a minha voz. Ainda hoje estou nesse processo
de descoberta.
Começaste a tua carreira em 2024.
Sentes que tudo está a acontecer rapidamente?
Sim, sem dúvida. Sinto-me muito sortudo. Houve momentos em que estive no sítio
certo à hora certa. Participei num concurso — o Sons da Solta — e, apesar de
não ter ganho, um dos jurados gostou do meu trabalho e convidou-me para gravar
num estúdio. A partir daí, surgiram oportunidades, concertos e até o apoio da
Câmara de Viseu para este EP. Tenho tido muita sorte em encontrar pessoas que
acreditam em mim.
O que esperas que o público leve
consigo depois de ouvir o EP?
Gostava que quisessem ouvir outra vez, já seria incrível. Acima de tudo, quero
que as pessoas se sintam bem. Se estiverem num momento difícil, que se sintam
acolhidas; se estiverem felizes, que se entreguem ainda mais a esse sentimento.
Quero contribuir para o bem-estar de quem ouve a minha música.
Já pensas nos próximos passos ou estás
focado no presente?
Neste momento, estou muito focado no presente. Há ainda muitas coisas para
concluir com este EP, especialmente por causa dos prazos associados ao
financiamento. Mas claro que já tenho ideias e novos temas em desenvolvimento.
Para terminar: como gostavas de ser visto na nova música
portuguesa?
Antes de tudo, como um artista, alguém genuíno. Gostava que as pessoas
sentissem que aquilo que faço é verdadeiro. E que um concerto meu seja quase
como uma sessão de terapia, tanto para mim como para quem está a ouvir.
Num panorama musical cada vez mais diverso, Davi Santiago destaca-se pela veracidade e pela forma desarmante como transforma experiências pessoais em canções universais. Entre a introspeção e a entrega emocional, o artista constrói um caminho próprio, onde a vulnerabilidade não é fraqueza, mas força criativa. Se este EP é um ponto de partida, então o que se segue promete consolidar uma voz que, mais do que se ouvir, se sente.
