Entrevista com DA SKILL

22-09-2026

Da Skill tem uma história feita de persistência, música e identidade. Entre Angola, Portugal e o Reino Unido, o rapper construiu um percurso de mais de duas décadas ligado ao hip-hop, mantendo sempre uma forte ligação às suas raízes e à intervenção através da palavra.

Foi no final dos anos 90, no Barreiro, que começou a viver o rap de forma intensa, antes de se mudar para Lagos, onde ajudou a dinamizar a cultura hip-hop numa época em que o movimento ainda dava os primeiros passos no Algarve. Organizador de eventos, músico e autor, Da Skill nunca esperou que as oportunidades surgissem: criou-as, insistiu perante os "nãos" e procurou sempre fazer chegar as suas mensagens ao público.

Depois de uma passagem pelo gospel, de uma mudança para Inglaterra e de alguns anos afastado dos lançamentos, regressou à música com uma nova abordagem, adaptando a sua escrita e sonoridade aos tempos atuais. O projeto Vidas e Sentimentos reúne histórias e experiências pessoais, recuperando temas que nasceram muitos anos antes e ganhando agora uma nova vida.

A identidade angolana permanece, contudo, no centro da sua música. "Saí de Angola, mas Angola não saiu de mim" é uma frase que resume uma ligação profunda às origens e que se reflete também nas colaborações com outros artistas angolanos.

Com "Barulho", a sua música chegou também ao Brasil e a Angola, levando a mensagem de Da Skill a novos públicos. Hoje, continua a assumir-se como um artista de intervenção e, acima de tudo, como um mensageiro que acredita no poder da música para contar histórias, transmitir sentimentos e deixar uma marca.


Depois de alguns anos afastado, regressaste ao Algarve. O que significa voltar às tuas raízes?

É muito bom. Saí de um clima cinzento, de um país cinzento, e vim para a minha origem, onde posso falar sobre o meu projeto e, principalmente, falar a minha língua portuguesa. É sempre muito bom regressar.

Quando percebeste que o rap podia deixar de ser apenas um hobby e tornar-se parte da tua vida?

O rap sempre fez parte da minha vida. Nasci numa família de rappers e músicos e sempre fui muito ligado à intervenção social. Profissionalmente, foi entre 2017 e 2018 que decidi dedicar-me ao rap a sério e tentar viver também desta paixão. Os frutos começaram agora a aparecer.

Começaste no Barreiro, em 1999, com a Kappa Family. Que memórias guardas dessa época?

São grandes memórias. Naquela altura vivíamos mesmo o rap. Havia uma cultura muito forte, uma forma própria de vestir e mensagens muito mais agressivas e diretas. Era um rap feito sobretudo na rua, de rua para a rua. Foi um período muito marcante.

A convivência com rappers de diferentes nacionalidades africanas influenciou-te?

Muito. Havia pessoas de Senegal, Cabo Verde, Guiné e de outros países. Éramos muitos e tínhamos de aprender a conviver com culturas diferentes. Isso ensinou-me que, quando estamos unidos, conseguimos fazer coisas boas. Também aprendi a viver e a trabalhar com todo o tipo de pessoas.

Em 2001 mudaste-te para Lagos. Como era fazer hip-hop no Algarve naquela altura?

O rap ainda não estava muito desenvolvido. Havia poucos grupos e era preciso muita força de vontade para entrar nos espaços e conseguir apresentar a nossa música. Em Lagos criei os Aliados no Rap, com o Fire K e o Shadow Nigga, e fomos sempre muito ligados a mensagens positivas. Tivemos o apoio de escolas e instituições e conseguimos desenvolver várias atividades.

Ainda sentes nervosismo antes de subir ao palco?

Sim, acho que esse nervosismo vai existir sempre. Subir a um palco é uma responsabilidade enorme. Eu não gosto de errar e gosto de preparar muito bem os concertos. Se puder, ensaio durante uma semana, estudo os passos, a entrada e todos os pormenores. O público está ali porque acredita em nós e, muitas vezes, pagou para nos ver. Temos de respeitar isso e dar o nosso melhor.

Sempre tiveste uma enorme capacidade de insistência. De onde vem essa força?

Sempre fui assim. Se não me dão, vou atrás. Se não me dão concertos, faço os meus próprios concertos. Lembro-me de, ainda muito novo, ter enviado várias vezes uma carta à Câmara Municipal de Lagos para conseguir realizar uma atividade. Foram cinco ou seis vezes até ser aceite. Tive de tratar de apoios, policiamento, ambulância e tudo o que era necessário. Foi uma luta, mas consegui. Hoje percebo que muitos dos "nãos" que recebi ajudaram-me a aprender a acertar mais.

Organizaste vários eventos de hip-hop em Lagos. Há algum que guardes de forma especial?

Tenho muitas memórias. Lembro-me, por exemplo, de ter trazido a Força Suprema pela primeira vez à região, além de outros artistas e grupos. O que mais me marcou foi a união que existia. Depois dos concertos, muitos artistas ficavam connosco, saíamos juntos, íamos comer e conviver. Havia uma ligação muito forte entre rappers, público e organizadores.

Sentes que essa paixão pela música e essa união se perderam um pouco?

Acho que a paixão pela arte diminuiu em muitos casos. Não quero generalizar, mas hoje a música também pode representar dinheiro e negócio. Antigamente, muitos artistas faziam música sobretudo por amor. Hoje ouve-se muita música tecnicamente boa, mas às vezes falta o sentimento, o feeling.

A passagem pela música gospel mudou a tua forma de fazer rap?

Mudou bastante. Eu era muito mais frontal e não media as palavras. Com a música gospel aprendi a ser mais cuidadoso. Continuei a ser um artista de mensagem, frontal e interventivo, mas passei a transmitir as minhas ideias sem recorrer à linguagem obscena. Foi uma aprendizagem muito importante.

Em 2015 foste viver para Inglaterra. Como foi deixar Portugal?

Foi difícil. Deixar um país onde crescemos, onde temos amigos, memórias e toda a nossa vivência nunca é fácil. Depois existe a dificuldade da língua, do clima e da adaptação. A imigração é sempre um processo difícil.

Foi em Inglaterra que voltaste a encontrar inspiração para a música?

Sim. Através da minha tia, que é pastora, comecei a frequentar a igreja e a atuar. As pessoas começaram a gostar das minhas mensagens e isso deu-me liberdade e inspiração para voltar a criar. Foi muito importante para eu recuperar a vontade de fazer música.

Houve momentos em que pensaste desistir?

Muitas vezes. Mas a música está no sangue. Sinto que faz parte de mim. Durante algum tempo deixei de cantar, mas percebi que me faltava alguma coisa. Em 2018 decidi voltar a fazer música e começar finalmente a lançar os trabalhos que tinha guardados.

Em 2021 entraste numa fase mais profissional. Foi difícil adaptar o teu rap aos novos tempos?

Foi. Passei muitos anos fechado no meu quarto a fazer música à minha maneira. Quando comecei a acompanhar melhor o rap atual, percebi que tinha de evoluir. Hoje existem novas formas de escrever, trocadilhos e duplos sentidos. Tive de adaptar o meu estilo à nova geração, mas com trabalho e dedicação consegui encontrar o meu caminho.

O que podemos encontrar em Vidas e Sentimentos?

É um projeto moderno, mas baseado em histórias e experiências que vivi ao longo dos anos. Muitas dessas músicas poderiam ter sido lançadas em 2005 ou 2006, mas nunca cheguei a fazê-lo. Peguei nessas histórias, adaptei-as aos instrumentais e à sonoridade atual e construí o projeto.

É um álbum muito pessoal?

Sim. São histórias minhas, algumas vividas, outras contadas, mas sempre baseadas em experiências reais. Até os títulos das músicas têm uma mensagem positiva. "Corro Atrás" e "Nunca Pares", por exemplo, são quase conversas que tenho comigo próprio. É como olhar para o espelho e dizer: tens de continuar, tens de lutar.

A ligação a Angola continua muito presente no teu trabalho.

Sem dúvida. Eu costumo dizer: "Saí de Angola, mas Angola não saiu de mim." A minha personalidade, o meu sotaque e a minha forma de estar continuam muito ligados às minhas raízes. Sou angolano e faço questão de mostrar isso. Por isso também quis ter vários artistas angolanos neste projeto.

"Barulho" levou a tua música até ao Brasil e a Angola. O que sentiste quando percebeste que estava a chegar tão longe?

Foi uma surpresa. Comecei a receber mensagens e telefonemas de pessoas no Brasil a dizer que tinham ouvido a minha música e que queriam entrevistar-me. Foi aí que percebi que a música estava realmente a chegar longe.

O que significa para ti ver milhares de pessoas a ouvir e a partilhar a tua música?

É muito importante, porque o meu objetivo nunca foi apenas o dinheiro. Eu faço música por amor. Sou um artista de mensagem e sempre quis que as pessoas ouvissem aquilo que tenho para dizer. Quando vejo milhares de pessoas a ouvir, a partilhar e a identificar-se com as minhas músicas, sinto que um dos meus grandes sonhos está a concretizar-se.

Hoje, quem é Da Skill?

Sou um mensageiro. Sempre fui. Quero continuar a fazer música, contar as minhas histórias e transmitir mensagens que possam chegar às pessoas. Se alguém ouvir uma música minha e se identificar, encontrar força ou inspiração, então já valeu a pena.


Da Skill olha para o seu percurso com a consciência de quem nunca desistiu, mesmo quando o caminho parecia mais difícil. Do hip-hop vivido nas ruas do Barreiro e de Lagos à experiência no gospel, da emigração para Inglaterra ao regresso à música e à afirmação através das plataformas digitais, são muitos os capítulos de uma história construída com persistência e dedicação.

Hoje, mais do que procurar apenas reconhecimento, Da Skill quer que a sua música chegue às pessoas. Vidas e Sentimentos representa essa vontade de transformar experiências pessoais em mensagens capazes de inspirar quem as ouve. A ligação a Angola, às suas raízes e à cultura hip-hop continua igualmente presente, numa identidade que o artista faz questão de preservar.

A chegada da sua música a países como Angola e Brasil mostra-lhe que a mensagem está a ultrapassar fronteiras. E é precisamente essa a sua maior motivação: continuar a criar, continuar a comunicar e deixar uma marca através da música.

Porque, para Da Skill, a música não é apenas uma profissão ou um projeto. É parte de quem é. E enquanto houver histórias para contar e mensagens para transmitir, continuará a "correr atrás" e a não parar.

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