Entrevista com CELSO

Entre a ironia e a autoanálise, os CELSO apresentam IndieCorno, um disco que transforma a estética e os tiques da cena indie lisboeta em matéria-prima criativa. Mais do que um título provocador, o álbum afirma-se como um retrato geracional feito de transições, incertezas e novas responsabilidades onde guitarras convivem com eletrónica, e a urgência emocional se cruza com um processo de criação meticuloso.
Resultado de um percurso mais longo e consciente do que o habitual, IndieCorno marca um ponto de viragem na identidade da banda. Miguel Casquinho e João Paixão falam sobre a liberdade e a pressão de assumirem a produção, a importância de olhar de fora no momento certo e a vontade de levar esta nova fase para a estrada. Entre referências cruzadas e uma abordagem cada vez mais híbrida, os CELSO mostram-se menos interessados em rótulos e mais focados em expandir o seu próprio território sonoro.
"Indie Corno" é um título bastante provocador. Como surgiu e o que representa para vocês?
João Paixão: No fundo, "IndieCorno" é uma crítica — mas uma crítica com humor, sobretudo dirigida a nós próprios e à cena indie de Lisboa. Já há uns bons cinco ou dez anos que existe esta ideia de um certo "tipo" de público: quem vai a todos os concertos indie, frequenta sempre os mesmos espaços, bebe cerveja artesanal, veste-se de uma determinada forma. Acabou por ser uma autocrítica, uma brincadeira com esse universo, até porque nós viemos dessa cena. Agora queríamos fazer um indie mais "rebranded", com outras sonoridades, e pareceu-nos o tema ideal também por ser um título forte e memorável.
Dizem que o disco reflete o caos geracional dos vinte e poucos anos. Que caos é esse?
João Paixão: Temos todos 26, 27 anos, portanto estamos nessa fase de transição: sair da faculdade, começar a trabalhar, lidar com responsabilidades, crescer. Antes escrevíamos mais sobre paixões, sair à noite, coisas mais juvenis. Agora começam a entrar temas como o caos da internet, a vida profissional, outras pressões.
Miguel Casquinho: E o próprio processo do disco acompanhou isso. Demorou mais tempo do que gostaríamos, mas isso permitiu-nos explorar novas influências e conceitos. Ao mesmo tempo, fomos vivendo essas mudanças pessoais, e tudo isso acabou por se refletir na estética do álbum.
Referem que foi um processo muito "cerebral". O que significa isso na prática?
Miguel Casquinho: Significa pensar muito e ser extremamente autocrítico. Foi um processo exigente, mas no bom sentido: cada secção, cada detalhe, cada som foi trabalhado até estarmos mesmo satisfeitos.
João Paixão: No primeiro álbum, o processo era mais tradicional, banda, gravação com outras pessoas, tudo mais rápido. Desta vez, como produzimos praticamente tudo, tivemos tempo para ir ao detalhe. Estivemos mesmo fechados no estúdio, a experimentar e a pensar como fazer algo diferente dentro do indie. Foi menos imediato, mas mais trabalhado.
Assumir quase toda a produção trouxe mais liberdade ou mais pressão?
João Paixão: As duas coisas. Foi importante ter liberdade para explorar, sobretudo esta ideia de misturar banda, guitarras, bateria com eletrónica, beats, até influências de hip hop ou metal. Mas também trouxe pressão, porque fomos aprendendo ao longo do processo. O disco demorou dois, três anos, e nota-se uma evolução técnica enorme. Felizmente tivemos ajuda do nosso produtor e misturador, o Pedro Joaquim Borges, que aliviou bastante essa pressão e ajudou a dar fluidez ao processo.
De que forma é que trabalhar com o Pedro Joaquim Borges influenciou o resultado final?
Miguel Casquinho: Foi essencial. Ele estava muito alinhado com a nossa visão, e isso faz toda a diferença.
João Paixão: Quando produzes tudo internamente, é fácil ficares preso nos detalhes e perderes a visão global. O Pedro trouxe esse olhar externo, ajudou-nos a perceber o que era realmente importante, a avançar quando era preciso. Teve um papel fundamental na coesão estética do álbum.
O disco mistura eletrónica, folk, indie e pós-punk. Foi algo intencional ou natural?
João Paixão: Foi muito natural. Sempre ouvimos muita coisa diferente. Nunca quisemos fazer um álbum fechado num só estilo, gostamos de criar momentos.
Miguel Casquinho: No primeiro disco já tentámos isso, mas aqui conseguimos concretizar melhor essa ideia. Cada elemento da banda traz influências diferentes, metal, folk, indie e isso acabou por enriquecer o resultado final.
Há referências específicas que tenham sido importantes?
Miguel Casquinho: Muitas, é difícil destacar.
João Paixão: Cada música tem as suas. Por exemplo, na "Atriza" há influências de Young Fathers, The 1975, Model/Actriz.
Miguel Casquinho: Houve também uma fase em que eu ouvi muito Alex G. Ele mistura folk, country, eletrónica, samples, e isso ajudou-nos a perceber que podíamos conjugar guitarras com experimentação eletrónica de forma mais livre.
Qual é o tema que melhor resume o disco?
(risos)
Miguel Casquinho: É difícil não confundir com as nossas preferidas, mas diria "Atriza", porque reúne várias influências e reflete bem o conceito do álbum.
João Paixão: Eu ia dizer o mesmo. A "IndieCorno", por outro lado, é a que melhor traduz o conceito lírico.
Miguel Casquinho: A "Atriza" destaca-se também pela construção, é uma música em crescendo contínuo, sem a estrutura típica de verso/refrão, com muitos elementos eletrónicos e harmonizações. É algo que nunca tínhamos feito.
João Paixão: E ouvindo as três primeiras faixas, percebe-se logo a estética do disco.
E há alguma faixa que, mesmo sendo diferente, gostariam de destacar?
Miguel Casquinho: "Flores Falsas". Talvez não represente totalmente o disco, mas é uma boa porta de entrada, sobretudo para quem vem do nosso som anterior. Mostra a evolução sem ser tão ousada como o início do álbum.
Comparando com "Não Se Brinca Com Coisas Sérias", o que mudou mais na banda?
João Paixão: Ao vivo, sobretudo. Antes havia menos eletrónica e mais sobreposição de instrumentos. Agora temos elementos pré-programados que nos libertam para focar na performance.
Miguel Casquinho: Estamos mais concentrados em tocar e em transmitir intensidade. Há uma maior objetividade na forma como encaramos o concerto.
Depois de um álbum tão controlado por vocês, vão manter este modelo de produção?
Miguel Casquinho: Sim, mas com equilíbrio. Este tipo de produção demora muito tempo, e também queremos explorar abordagens mais imediatas.
João Paixão: Vamos continuar a fazer coisas detalhadas, mas também lançar conteúdos mais orgânicos, sessões ao vivo, versões mais cruas, experimentais.
Querem levar esta sonoridade ainda mais longe ou explorar novos caminhos?
Miguel Casquinho: Sim, mas de forma orgânica. Este disco cresceu com o tempo e com as experiências que fomos tendo. A nossa forma de trabalhar é muito baseada nisso, começamos com uma ideia, mas deixamo-la evoluir. O importante agora é viver este álbum, absorver o que ele nos dá e deixar que isso influencie o próximo passo.
Para terminar: o que falta fazer?
João Paixão: Tocar. O objetivo agora é levar este disco ao maior número de sítios possível.
Miguel Casquinho: Queremos percorrer o país, apresentar o álbum ao vivo e partilhar esta experiência com as pessoas. Este disco é uma espécie de ode em forma de autocrítica e faz sentido celebrá-lo ao vivo.
João Paixão: Fica o convite: queremos ver toda a gente a festejar connosco, os "Indicornos" de Portugal, no bom sentido.
Mais do que um exercício de estilo ou uma provocação bem-humorada, Indie Corno afirma-se como um manifesto de crescimento pessoal e artístico. Entre a autocrítica e a vontade de reinventar o indie que os formou, os CELSO constroem um disco que é simultaneamente reflexo e rutura, detalhe e impulso.
Agora, com o álbum cá fora, a prioridade é clara: levá-lo para a estrada e testá-lo onde tudo ganha verdadeiro sentido em palco. É aí que estas canções, pensadas ao milímetro, se transformam em energia partilhada. E é também aí que a banda parece mais interessada em continuar a escrever o seu percurso: menos preocupada em encaixar numa cena, mais focada em expandir os seus próprios limites.
