Os Pink Floyd lançaram esta sexta-feira "8-Tracks", uma nova compilação oficial que reúne oito temas emblemáticos da banda britânica, retirados de um dos períodos mais criativos e influentes da sua carreira, entre 1971 e 1979.
Entrevista com Ana Tereza

Entre o Norte e o Sul do país, entre o rock, o indie e a canção de autor, Ana Tereza construiu um percurso singular na música portuguesa. Conhecida pelo seu trabalho com As Gaijas, pela participação no Festival da Canção e pela sua constante procura artística, a cantora e compositora prepara agora uma nova fase da carreira, marcada por composições em português e por uma identidade musical cada vez mais vincada. Numa conversa descontraída e genuína, falou-nos sobre influências, desafios, o papel das mulheres na música e os próximos projetos.
Crescer entre Faro e Guimarães
Ana Tereza nasceu entre duas realidades distintas: Guimarães e Faro. Embora nunca tenha refletido profundamente sobre a influência dessa dualidade, reconhece que o Algarve teve um papel decisivo no seu percurso artístico.
"A minha primeira banda foi em Guimarães e era uma banda de heavy metal. Quando vim para o Algarve comecei a encarar a música de forma mais séria. Foi aqui que surgiram as grandes oportunidades e onde comecei a escrever em português."
A artista recorda que a mudança para o Sul acabou por definir o rumo da sua carreira, contrariando até os planos iniciais de regressar ao Norte.
Quando a música deixou de ser apenas um hobby
Apesar de não conseguir identificar um momento exato, Ana afirma que sempre soube que a música seria parte fundamental da sua vida.
"Desde que ouvi um álbum do princípio ao fim e percebi o impacto que aquilo teve em mim, soube que era isto que queria fazer."
O álbum em questão foi o lendário White Album, dos The Beatles, uma das muitas influências herdadas do pai, que sempre lhe proporcionou contacto com diferentes estilos musicais.
O desafio de escrever em português
Embora tenha começado por escrever em inglês, foi a participação no Festival da Canção, através do convite da cantora Viviane, que a levou a apostar definitivamente na língua portuguesa.
"Escrever em português é muito mais difícil. É uma língua mais dura, mais complexa, mas também mais desafiante. Tenho dezenas de letras que nunca aproveitei."
Esse processo de aprendizagem tornou-se uma das maiores ferramentas de crescimento artístico da compositora.
O regresso de As Gaijas
As Gaijas marcaram uma geração dentro do rock nacional e continuam a ocupar um lugar especial na vida de Ana Tereza.
"Orgulha-me tudo naquela banda. E agora estamos a voltar. Isso deixa-me feliz porque significa que todo aquele trabalho não foi em vão."
Mais do que os concertos ou as músicas, a artista destaca o crescimento musical e humano que o projeto lhe proporcionou.
Mulheres no rock e a importância da representação
Ao falar da presença feminina na música, Ana não esconde a sua opinião sobre as desigualdades históricas existentes na indústria.
Segundo a cantora, muitas bandas lideradas por mulheres não receberam o reconhecimento merecido, apesar da qualidade artística apresentada.
A participação no documentário Ela é Música, realizado por Francisca Marvão, ajudou-a também a ganhar novas perspetivas sobre os diferentes percursos das mulheres no panorama musical português.
"Percebi que não existe uma forma certa de fazer música. Existem muitos caminhos possíveis e isso é uma coisa bonita."
Festival da Canção: um sonho tornado realidade
O convite para participar no Festival da Canção surgiu de forma inesperada, através de Viviane.
Ana recorda com humor o momento em que recebeu o telefonema e a emoção de concretizar um sonho que alimentava desde criança.
Apesar da enorme exposição mediática, admite que a experiência não se traduziu automaticamente em oportunidades profissionais.
"Uma semana estava na televisão nacional, a dar entrevistas e a viver toda aquela realidade. Na semana seguinte estava a descascar batatas no meu trabalho."
Uma sinceridade que ilustra bem os desafios que muitos músicos enfrentam fora dos holofotes.
Influências sem fronteiras
Entre as referências assumidas encontram-se nomes como David Bowie, Fleetwood Mac, Rádio Macau e Delfins.
A artista admite não saber exatamente como todas essas influências se misturam no seu processo criativo, mas acredita que acabam por surgir naturalmente nas suas composições.
O estado atual da música portuguesa
Ana Tereza considera que existe atualmente muita música de qualidade a ser produzida em Portugal, embora reconheça uma certa saturação de alguns estilos mais comerciais.
"Portugal é um país pequeno, mas cheio de pessoas talentosas, criativas e trabalhadoras."
A cantora destaca ainda a descoberta constante de novos artistas através de festivais, redes sociais e projetos independentes.
O futuro: novos lançamentos e um álbum em construção
Quanto aos próximos passos, Ana Tereza prepara-se para lançar novas músicas de forma gradual, acompanhando as tendências atuais da indústria.
O próximo single deverá chamar-se "Está Tudo Normal", tema que antecipa o álbum que está a construir.
Embora admita que os CDs perderam relevância, mantém o desejo de editar o trabalho em vinil.
"Gostava muito de lançar o álbum em vinil. Sou colecionadora e continuo a achar que há algo especial nesse formato."
Com uma autenticidade rara e uma visão muito própria da música, Ana Tereza continua a construir o seu caminho sem pressas nem fórmulas pré-definidas. Entre o rock que a formou, a escrita em português que a desafia e os novos temas que prepara, a artista mostra que a evolução faz parte do processo. E, se depender da sua vontade, o Festival da Canção poderá voltar a cruzar-se com o seu percurso. Até lá, segue em frente, fiel àquilo que sempre soube desde o início: a música é o lugar onde tudo faz sentido.
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