Entrevista com Ana Pinto Coelho - Festival Mental

Numa altura em que a saúde mental ocupa finalmente um lugar mais visível no debate público, o Festival Mental assinala dez anos de existência afirmando-se como um dos projetos culturais mais consistentes em Portugal nesta área. Cruzando cinema, música, artes performativas e reflexão científica, o festival tem vindo a construir um espaço único de encontro entre artistas, especialistas e público.
À frente deste percurso está Ana Pinto Coelho, fundadora e diretora do projeto, que ao longo da última década tem defendido uma abordagem onde a cultura funciona como ferramenta de transformação, empatia e literacia. Nesta conversa, fala-nos do caminho feito, dos desafios de comunicar saúde mental num tempo de excesso de discurso e da importância de continuar a criar pontes entre arte e comunidade.
O Festival Mental
chega à sua décima edição. Que balanço faz desta década de trabalho e impacto
em Portugal?
O balanço é francamente positivo, mais do que positivo. Não apenas pelo
trabalho desenvolvido em Lisboa, mas também pelas itinerâncias que fomos
fazendo pelo país e pelas ilhas. Se olharmos para os nossos objetivos,
promoção, prevenção, combate ao estigma e literacia em saúde mental o resultado
só pode ser muito encorajador. Sempre através da cultura: cinema, teatro,
dança, literatura e muitas outras expressões que temos vindo a integrar desde
2017, mesmo com uma pandemia pelo meio. Ainda assim, tudo correu muito bem.
Quando começou este
projeto, a saúde mental era um tema mais silencioso. Sente que o Festival
ajudou a mudar esse paradigma?
Acredito que sim, dentro daquilo que nos compete. Foi um trabalho coletivo da
equipa, dos parceiros e de todos os que, ao longo destes 10 anos, estiveram
envolvidos. Quando há consistência, tanto do ponto de vista artístico como
científico, e quando se reúne um conjunto de convidados e conteúdos relevantes,
inevitavelmente gera-se impacto.
Não diria que estamos a mudar o mundo, porque as coisas não funcionam assim. Mas contribuímos, sem dúvida. A pandemia também teve um papel importante: a partir daí começou a falar-se mais de saúde mental e ainda bem. Nós já o fazíamos antes, mas houve um impulso. Ainda assim, há um alerta importante: falar mais não significa falar melhor. Hoje há muita gente a falar de saúde mental sem o devido conhecimento, e outras que deveriam falar e ainda não o fazem. É para isso que existem os nossos palcos.
O festival propõe
cruzar arte, ciência e comunidade. Por que razão esta combinação é tão eficaz?
A cultura é, por natureza, um espaço de comunicação. Permite cruzar
criatividade com experiência humana. Cada pessoa interpreta o que vê à sua
maneira, e isso inclui também aquilo que dói mas que pode ajudar a ultrapassar
momentos difíceis.
Importa sublinhar: falamos de saúde mental, não de doença mental. São coisas distintas. E aquilo que nos faz bem nem sempre é igual para todos. Para uns pode ser a dança ou uma exposição; para outros, o cinema, a música ou a literatura. Em todas estas formas encontramos histórias com as quais nos identificamos e isso tem um poder transformador.
O cinema continua a
ser central no festival, nomeadamente na Mostra Internacional de
Curtas-Metragens. O que distingue esta seleção?
Desde logo, o facto de sermos um festival temático. Mas, acima de tudo, o
rigor. Este ano recebemos mais de 200 filmes, vindos de todo o mundo.
O trabalho de seleção é duplo. Por um lado, avaliamos os critérios cinematográficos, desde a realização, argumento, interpretação, qualidade técnica. Por outro, há um olhar científico. Sendo uma mostra dedicada à saúde mental, é essencial garantir que os conteúdos respeitam esse enquadramento. Temos sempre uma avaliação técnica na área da saúde mental. Ou seja, cada filme é analisado sob dois pontos de vista.
Este ano há também
um destaque para o talento português. Como vê a evolução da criação nacional
nesta área?
Tem sido muito positiva. Desde a primeira edição que recebemos projetos
portugueses, mas a qualidade tem vindo a crescer significativamente. Importa
dizer que os filmes portugueses passam pelo mesmo processo de seleção que os
internacionais, não há exceções.
O que nos tem surpreendido é a maturidade e o interesse das propostas. Têm surgido perspetivas muito interessantes, e isso reflete-se na seleção. Este ano teremos realizadores portugueses presentes no Cinema São Jorge, o que é muito importante.
Fazer cinema sobre saúde mental exige coragem. E quando esses filmes são bons, temos a obrigação de os mostrar também para incentivar outros criadores.
As M-Talks propõem
uma reflexão sobre o "antes e depois". Que mudanças mais a surpreenderam?
Essa é precisamente a pergunta que será feita nas M-Talks deste ano. Prefiro
ouvir quem sabe. Será uma espécie de "radar" sobre a evolução da saúde mental
em Portugal ao longo da última década.
Todos os convidados já passaram pelo Festival Mental anteriormente. Agora regressam para refletir sobre o que mudou nas suas áreas e na sociedade. No final, teremos esse retrato coletivo, que depois ficará disponível no nosso canal de YouTube, como serviço público.
O My Story, My Song
é sempre um dos momentos mais emocionais do festival. O que o torna tão
especial?
É um ato de coragem. Os artistas que participam estão a expor as suas
fragilidades, a partilhar momentos difíceis das suas vidas, sem filtros.
Mas fazem-no num espaço seguro, seja no Cinema São Jorge, no Atmosfera M ou na Quinta das Conchas. Há uma intimidade que permite essa partilha.
Este ano contamos com Maria João, acompanhada por Paulo Farinha. Haverá a história e haverá a música. Estamos todos muito curiosos, mas tenho a certeza de que será um momento muito especial, no dia 17 de maio.
Daqui a 10 anos,
como gostaria que o Festival Mental fosse visto?
Gostava que deixasse de se chamar "Mental" e passasse a chamar-se apenas
Festival de Saúde. Isso significaria que o estigma tinha sido verdadeiramente
ultrapassado.
Não há saúde sem saúde mental. Somos um só corpo e mente. Esta separação não faz sentido, nem na forma como tratamos, nem na forma como pensamos a saúde. Se chegarmos a esse ponto, será motivo para uma grande celebração coletiva.
Para quem nunca
participou, o que pode esperar desta edição em Lisboa?
Pode esperar uma experiência completa. Os bilhetes são acessíveis e há também
atividades gratuitas. Basta consultar a programação e escolher.
O público encontrará conversas com propósito, diferentes perspetivas sobre a realidade atual, o My Story, My Song, teatro, a Mostra de Curtas-Metragens, workshops… Há muito por onde escolher.
Para terminar, que
mensagem deixa a quem ainda sente dificuldade em falar sobre saúde mental?
O nosso lema é simples: "Como se está a sentir?". E a partir daí: pensar,
falar, saber e reagir.
Se fizermos este exercício todos os dias, estamos a cuidar da nossa saúde mental. O mais importante é agir e dar o primeiro passo. Perceber que não estamos sozinhos, que há outras pessoas a sentir o mesmo. E que, muitas vezes, basta esse pequeno passo para que tudo o resto comece a acontecer.
Dez anos depois, o Festival Mental continua a afirmar-se como um espaço raro onde a cultura não serve apenas para entreter, mas também para questionar, aproximar e cuidar. Entre histórias partilhadas, filmes, música e conversas, o que fica é a ideia de que falar com responsabilidade, empatia e conhecimento, pode ser um ponto de partida transformador.
Num tempo em que o ruído em torno da saúde mental cresce, iniciativas como esta lembram que ouvir continua a ser tão importante quanto falar. E que, no cruzamento entre arte e experiência humana, há ainda muito por descobrir e sobretudo, por compreender.
Fica o convite para esta 10ª edição do Festival Mental, que regressa a Lisboa de 14 a 17 de maio, um espaço onde a arte e a reflexão se encontram para nos ajudar a compreender melhor aquilo que tantas vezes ainda custa dizer.
A conversa continua, dentro e fora das salas, porque falar de saúde mental é, cada vez mais, uma responsabilidade de todos nós.
