Entrevista com Ana Paula Martins

07-11-2026

Entre o fado, o desporto e a paixão pela música, Ana Paula Martins construiu um percurso marcado pela dedicação, pela autenticidade e pela vontade de concretizar sonhos. Influenciada desde criança pelo pai e pela voz de Amália Rodrigues, a artista encontrou no fado uma forma de expressão que a acompanha ao longo da vida. Depois de A Mesma Saudade e Ao Pé de Ti, continua a explorar diferentes sonoridades da música tradicional portuguesa. Em conversa, fala das suas raízes, dos desafios da carreira, das emoções que transporta para o palco e de um novo sonho que espera concretizar em 2027.


Começaste a ouvir fado ainda em criança, por influência do teu pai. Lembras-te de alguma música ou de algum momento em que percebeste que o fado tinha algo de especial para ti?

Lembro-me, sim. O fado sempre esteve na minha vida. Desde que me lembro de mim, lembro-me de ouvir fado. O meu pai, quando estava em casa, tinha sempre fado a tocar, e eu, naturalmente, acompanhava-o. Recordo-me de vários temas e, apesar de ser muito pequenina, também já cantava. Cantava sobretudo Amália Rodrigues e dois ou três temas de Jorge, que na altura era viola dela. Vivi sempre em modo fado.

O teu pai era um grande admirador de Amália Rodrigues e em tua casa ouvia-se muita música. Que recordações guardas desses momentos?

Agora até me bate aqui uma certa saudade e nostalgia. Ouvíamos fado na rádio ou em cassetes, porque ainda sou do tempo das cassetes! Não havia CDs, isso só chegou mais tarde. Estávamos sempre a ouvir música em casa. O meu pai adora música e, aliás, se tivesse vivido noutros tempos, possivelmente teria sido músico.

Na Beira Baixa, naquela altura, o fado era um pouco démodé. Os jovens não ouviam fado e até diziam, na gíria da época, que era «fuleiro». Mas eu continuava a ouvir, porque sempre adorei fado e me identificava com ele. A minha vida foi sempre acompanhada pelo fado, em todas as épocas e idades.

O fado é um género muito ligado à emoção e à interpretação. O que sentes quando estás a cantar e percebes que uma letra também conta um bocadinho da tua história?

Acho que só faz sentido cantar fado quando o sentimos verdadeiramente. O fado vem do coração e da nossa alma. Colocamos todo o sentimento naquilo que dizemos e cantamos. Só assim faz sentido.

Quando nos revemos nas letras, acabamos também por escolher os fados de acordo com o nosso estado de espírito. Se estamos num dia alegre, é provável que escolhamos temas mais animados. Se estamos mais nostálgicos ou tristes, o alinhamento acaba por refletir esse estado de alma. É assim que funciona.

Durante alguns anos deixaste a música um pouco de lado e dedicaste-te ao desporto federado. Como surgiu essa paixão pelo desporto?

Desde os seis ou sete anos que os meus pais me perguntavam o que queria ser quando fosse grande. Eu respondia que queria ser bailarina e cantora. Não fui bailarina, mas acabei por seguir uma área que também está ligada ao movimento: sou professora de Educação Física.

A partir dos dez ou onze anos nasceu em mim a paixão pelo atletismo. Também pratiquei andebol durante bastante tempo, mas depois especializei-me no atletismo. Foram mais de vinte anos, quase trinta, ligados à modalidade, ao mais alto nível nacional. Enquanto atleta competia sobretudo em provas nacionais e regionais, mas, enquanto treinadora, também acompanhei alguns atletas a competições internacionais.

Em 2015 decidiste que estava na altura de concretizar um grande sonho: lançar o teu primeiro álbum. Como aconteceu esse passo?

Esse era mesmo um sonho que tinha. Tive a sorte de o mestre Custódio Castelo ter vindo para Castelo Branco, o que tornou tudo muito mais fácil. Ajudou-me imenso, deu-me aulas de aperfeiçoamento e, a certa altura, perguntou-me porque não gravava um trabalho discográfico. Fiquei supercontente com a ideia. E foi assim que, em 2015, comecei a concretizar esse sonho.

Em 2019 lançaste A Mesma Saudade, um álbum que teve uma receção muito positiva. Estavas à espera de uma resposta tão boa por parte do público?

Não estava à espera, para ser sincera. Penso que o grande mote deste trabalho é precisamente A Mesma Saudade, um tema muito especial, com letra e música do mestre Custódio Castelo.

É uma canção que nos representa a todos. Quando a canto, sinto que toda a gente a acompanha, mesmo sem conhecer a letra. É um tema que toca profundamente e que vou levar comigo para o resto da vida.

Costumo dizer que nós, portugueses, vivemos sempre em modo saudade. Temos saudades de alguma coisa ou de alguém. Para mim, saudade é sinónimo de amor. Só existe saudade quando existe amor. É precisamente esse sentimento que está presente neste álbum. Foi uma verdadeira surpresa e um sucesso que não estava à espera de alcançar.

Em 2024 chegou Ao Pé de Ti, um trabalho que inclui poesia de grandes nomes da literatura portuguesa, como Luís de Camões, Fernando Pessoa e Pedro Homem de Mello. Como nasceu a ideia de dar voz a estes poetas através da música?

Alguns dos temas foram sugeridos pelo mestre Custódio Castelo, outros foram escolhas minhas, porque sou fã de muitos destes autores. Este álbum nasceu como uma homenagem aos escritores de que mais gosto e aos fados com os quais mais me identifico.

Temos, por exemplo, «Havemos de Ir a Viana», um tema que cruza o fado com o folclore, um género de que gosto muito. Aqui, na Beira Baixa, somos um pouco isso: temos raízes no folclore, no campo e no meio rural. Antigamente, enquanto se trabalhava no campo, havia sempre alguém a cantar.

A escolha passou por juntar os temas com que me identifico aos autores que mais admiro. Daí nasceu Ao Pé de Ti, um álbum que espero que esteja sempre também ao pé de todos os que o escutam.

Quando interpretas poemas tão conhecidos, sentes uma responsabilidade acrescida? Como consegues dar-lhes a tua própria identidade?

São temas que, normalmente, toda a gente conhece ou já cantou. Eu dou-lhes o meu jeito. As pessoas dizem que tenho uma forma especial de interpretar, que sou muito expressiva e que dou tudo quando estou a cantar.

Para mim, isso acontece naturalmente. Sou genuína, sou da Beira Baixa e venho de um meio rural. Tenho muito orgulho nas minhas raízes e acredito que essa identidade também se reflete na forma como interpreto cada canção.

No início deste ano presenteaste o público com «Lisboa, Menina e Moça», uma canção emblemática da música portuguesa. O que te levou a escolher este tema?

Adoro este tema! É uma canção que representa Lisboa, a grande cidade onde nasceu o fado. Surgiu também como uma homenagem ao nosso saudoso Carlos do Carmo, pelo que foi uma forma de homenagear a cidade, o fado e, naturalmente, o próprio Carlos do Carmo.

Depois surgiu «Vira da Desgarrada», um tema que nos transporta para as festas, as romarias e as tradições populares portuguesas. Como nasceu a ideia de juntar o vira à desgarrada minhota?

Gosto muito de viras, malhões e de outros temas ligados à música tradicional. Neste caso, trata-se de um vira ribatejano. Como sabemos, o mestre Custódio Castelo é de Almeirim e este é um tema que se dança e canta no rancho de Santarém e em alguns ranchos ribatejanos.

A ideia foi juntar essa tradição à desgarrada do Norte, com a qual também me identifico. Um dia, o mestre virou-se para mim e disse: «Olha, acho que este vira te ficava mesmo bem. Tu gostas tanto de cantar e dançar, porque não fazermos este vira da desgarrada?» E foi assim que surgiu.

Para quem associa o teu nome sobretudo ao fado, esta novidade pode ser uma surpresa. Já tinhas vontade de explorar outros ritmos da música tradicional portuguesa?

Já tenho alguns temas nos meus discos que fogem um pouco ao fado. Tenho canções que cruzam o fado com o folclore e também temas ligados às tradições da nossa Beira Baixa.

Gosto muito de explorar essas sonoridades. Não sou aquela fadista pura, como algumas pessoas dizem, ou puritana. O mestre costuma dizer que sou uma cantora, que canto bem e que consigo interpretar diferentes géneros, não apenas fado. Por isso, já existem alguns temas no meu percurso que vão além do registo mais tradicional.

Ana Paula, quando não estás a cantar, como gostas de ocupar os teus dias? O que te ajuda a desligar da vida artística?

Faço imensas coisas! Não sou apenas cantora e fadista. Tenho uma escola, uma creche, com cerca de 100 crianças. Na área do desporto, também dou aulas de localizada, Pilates e outras atividades ao final do dia.

Como se costuma dizer, não tenho sarna para me coçar! Aproveito praticamente todos os minutos do meu dia.

A experiência no desporto federado ensinou-te disciplina e espírito de equipa. Sentes que essas aprendizagens também te ajudaram na carreira musical?

Sem dúvida alguma. Subir a um palco e olhar para mil pessoas não é fácil. Digo muitas vezes que não é para toda a gente. Eu também sou tímida, mas o desporto ajudou-me a encarar a subida ao palco de uma forma completamente diferente.

Ensinou-me a ser mais rigorosa, deu-me força, coragem e espírito de cooperação. O atletismo de alto nível, por exemplo, é extremamente exigente e duro. Toda essa experiência me deu uma capacidade maior de superação, força de vontade e determinação.

Há alguma música do teu repertório que seja especialmente difícil de interpretar, porque mexe contigo de uma forma diferente?

Tive algumas dificuldades em cantar «A Mesma Saudade» quando a minha avó partiu. Foi muito duro voltar a interpretar esse tema, porque começava imediatamente a chorar.

Mas há outras canções que também me tocam profundamente. «Ao Pé de Ti» não é fácil de cantar e «Estranha Forma de Vida», um tema de Amália Rodrigues, também mexe muito comigo.

São músicas que dependem bastante do nosso estado emocional. Quando cantamos com alma e sentimento, conseguimos chegar ao público, embora haja dias em que isso se torna particularmente difícil.

Depois de tantos anos de percurso e de vários trabalhos editados, que sonhos continuam por concretizar?

Acho que temos de ter sempre sonhos, porque são eles que fazem a nossa vida avançar. Ainda tenho outro sonho, mas, para já, não posso revelar muito. Espero conseguir concretizá-lo no próximo ano.

Vou apenas deixar uma pista: tem a ver com crianças e com música. Não posso dizer mais nada, mas espero que esse sonho se concretize em 2027, se Deus quiser.

Para quem está agora a começar a cantar e sonha construir uma carreira na música, que conselho gostarias de deixar?

Nunca desistam! Temos de ser resilientes. Não é fácil, mas nunca devemos perder o espírito de entrega. Sigam os vossos sonhos.

Há dias menos bons e dias fantásticos. Acreditem em vocês, mantenham a esperança e lutem muito. A esperança é sempre a última a morrer!

Para terminar, que mensagem gostarias de deixar a todos aqueles que te acompanham, ouvem as tuas canções e continuam a apoiar o fado e a música portuguesa?

Aos meus fãs e a todos os amantes de fado, que é a nossa canção nacional, peço que continuem a ouvi-lo e que o descubram cada vez mais.

O fado está diferente. Já não é aquele género tão monótono, tão enraizado e tradicional, que parecia ser ouvido apenas pelos mais velhos. Hoje chegou às massas mais jovens e os jovens também vão ao fado.

Ouçam fado! Está disponível em todas as plataformas digitais e, atualmente, é muito mais fácil chegar a esta música. Estamos também nas rádios, por isso continuem a ouvir e a apoiar o fado, porque faz parte da nossa essência.


Entre as raízes da Beira Baixa e a paixão pelo fado, Ana Paula Martins construiu um percurso marcado pela autenticidade, pela emoção e pela dedicação à música portuguesa. Com uma vida dividida entre a música, o ensino e o desporto, a artista continua a reinventar-se, explorando novas sonoridades sem nunca esquecer as suas origens. Depois de vários trabalhos discográficos e de canções que refletem a sua alma, mantém os sonhos bem vivos, com um novo projeto ligado às crianças e à música no horizonte de 2027. Porque, para Ana Paula Martins, cantar é muito mais do que interpretar: é sentir, viver e partilhar emoções

Foto: Direitos Reservados


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