Entrevista com Ana Bento (Festival Que Jazz É Este?)

À porta da 14.ª edição do Que Jazz É Este?, que decorre entre os dias 8 e 19 de julho, em Viseu, conversámos com Ana Bento, da organização do festival promovido pela Associação Gira Sol Azul. Nesta entrevista, fala-nos da identidade do evento, da importância da democratização da cultura, da aposta na formação de novos músicos e da programação diversificada que continua a afirmar o festival como uma referência no panorama do jazz nacional.
Está tudo preparado para a 14.ª edição do Que Jazz É Este? O que podem esperar os visitantes este ano?
Podem esperar um festival muito diversificado e pensado para todos os públicos. A programação espalha-se por vários espaços da cidade de Viseu, como os Claustros do Museu Grão Vasco, o Teatro Viriato, o Parque Aquilino Ribeiro e o recinto da Feira Semanal, mas também chega à aldeia de Várzea de Calde, um lugar extraordinário que merece ser descoberto.
Ao longo destes dias haverá muito para conhecer, não apenas em termos musicais, mas também do próprio território de Viseu. A programação percorre diferentes linguagens dentro do universo do jazz, que é, por si só, muito vasto. No fundo, o próprio nome do festival Que Jazz É Este? é um convite à descoberta.
O festival chega à sua 14.ª edição. O que mudou desde o início e o que continua a definir a sua identidade?
Os pilares fundamentais mantêm-se praticamente inalterados desde o início e, na verdade, alguns são até anteriores ao próprio festival. A Associação Gira Sol Azul, responsável pela sua organização, celebra este ano 20 anos de atividade e o festival é um reflexo da missão que a associação desenvolve ao longo de todo o ano.
Um desses exemplos é o Workshop de Jazz de Viseu, que existe há 18 anos e integra atualmente a programação oficial. É uma iniciativa direcionada sobretudo para jovens que estão a concluir a sua formação e a dar os primeiros passos rumo à profissionalização.
Outro dos pilares passa pela construção de uma programação equilibrada, capaz de reunir diferentes estilos dentro do jazz, projetos emergentes e artistas já consolidados, cruzando músicos locais, nacionais e internacionais.
Existe ainda uma preocupação permanente em não esperar apenas que o público venha até nós. Procuramos desenvolver iniciativas que vão ao encontro das pessoas, levando a música a diferentes contextos e criando oportunidades para que públicos muito diversos possam descobrir o festival de forma espontânea.
Naturalmente, todos os anos acompanhamos aquilo que está a acontecer no panorama artístico e ajustamos a programação às novas propostas, quer através dos concertos, quer das oficinas, dos programas de rádio ao vivo ou de outras iniciativas paralelas.
Este ano, por exemplo, teremos também um mercado de livros e discos dedicado sobretudo ao jazz, mas aberto à cultura em sentido mais amplo.
O Que Jazz É Este? leva a música muito para além das salas de espetáculo. Porque é tão importante apresentar concertos em hospitais, lares, estabelecimentos prisionais ou nas ruas da cidade?
Porque acreditamos profundamente na democratização da cultura.
Há pessoas que, ao longo da vida, tiveram oportunidade de construir uma relação próxima com a cultura e que procuram naturalmente este tipo de iniciativas. Mas existe também uma parte significativa da sociedade para quem a cultura continua a ser algo extraordinário, quando deveria fazer parte do quotidiano de todos.
É precisamente por isso que sentimos a responsabilidade de ir ao encontro dessas pessoas.
Quando levamos música à Feira Semanal, estamos a chegar a um público que provavelmente nem sabia que o festival estava a decorrer. Quando entramos num estabelecimento prisional ou na unidade de Psiquiatria do Hospital de Viseu, estamos a proporcionar uma experiência cultural a pessoas que, pelas suas circunstâncias, não podem deslocar-se até aos espaços do festival.
O mesmo acontece com os utentes do Internato Vítor Fontes, onde alguns vivem em regime de internato e outros frequentam apenas atividades de ocupação dos tempos livres.
Para nós, esta descentralização da cultura não é apenas um complemento da programação: faz parte da identidade do festival.
O cartaz reúne artistas consagrados, projetos emergentes e talentos locais. Como conseguem equilibrar esta diversidade?
É uma escolha muito consciente.
Costumo comparar a programação à preparação de uma refeição equilibrada: para ser completa, precisa de diferentes ingredientes, sabores, cores e texturas. Com o festival acontece exatamente o mesmo.
Este ano contamos, por exemplo, com Maria Luísa Jobim, que transporta consigo um legado incontornável da música popular brasileira, mas que construiu uma identidade artística muito própria, cruzando influências contemporâneas, eletrónica e outras sonoridades.
Recebemos também Omar, vindo de Londres, um artista com cerca de quatro décadas de carreira e uma referência internacional nas áreas do soul, funk e groove. Estará acompanhado pela Gira Big Band, um projeto muito importante para a região, que reúne jovens músicos oriundos de bandas filarmónicas e conservatórios, em conjunto com músicos profissionais do universo do jazz.
Outro destaque é Vera Morais, cantora e compositora portuguesa radicada em Amesterdão, que apresenta uma formação invulgar composta por três vozes e duas flautas.
O público poderá ainda assistir ao novo trabalho de Miguel Rodrigues, um dos nomes da nova geração do jazz português, que apresenta o seu terceiro álbum acompanhado por Demian Cabaud e José Diogo.
O programa inclui igualmente o Hugo Santos Quintet, vencedor da mais recente edição do Concurso Internacional de Jazz da Universidade de Aveiro, iniciativa da qual o festival é parceiro, contribuindo para a circulação de novos projetos no panorama nacional.
Estarão também presentes Rita Maria e Nuno Costa, formadores do Workshop Jazz de Viseu, que além do trabalho pedagógico apresentam o projeto SongSayer, num formato intimista de voz e guitarra.
A programação integra ainda o coletivo Chinfrim, composto por músicos locais de várias gerações, que levará a sua música a diferentes espaços da cidade, incluindo uma atuação em Várzea de Calde.
Por fim, o festival acolhe também o projeto Três Tempos, desenvolvido pelo Teatro Viriato sob orientação de Bruno Pinto e CHullage, envolvendo jovens músicos numa forte ligação entre o jazz e o hip-hop.
O festival aposta igualmente na formação através do Workshop de Jazz de Viseu. Que importância tem esta componente para o futuro do jazz em Portugal?
A formação é absolutamente essencial. É a base de tudo.
Numa região do interior como Viseu, continua a existir alguma escassez de oferta especializada nesta área. Felizmente, o Conservatório de Música de Viseu tem desenvolvido um trabalho extraordinário, sobretudo desde a implementação dos cursos de ensino articulado, tornando o ensino da música mais acessível aos jovens.
Ainda assim, não existe um curso profissional de música na cidade nem uma formação específica em jazz. Muitos jovens descobrem este género precisamente através das atividades promovidas pelo festival.
O contacto com músicos profissionais permite-lhes conhecer ferramentas muito próprias do jazz, como a improvisação, competências que acabam por ser úteis em qualquer percurso musical.
O workshop funciona, por isso, como um complemento à formação que já recebem e, para aqueles que pretendem seguir uma carreira profissional, representa um verdadeiro ponto de partida. Projetos como a Gira Big Band, o Chinfrim ou o próprio Workshop de Jazz criam oportunidades únicas de aprendizagem, contacto com profissionais e desenvolvimento artístico, permitindo que muitos destes jovens continuem depois o seu percurso com uma ligação forte ao território de Viseu.
Um dos aspetos mais interessantes do festival é o facto de todas as atividades terem entrada livre, mediante um donativo consciente. Como tem sido a adesão do público a este modelo?
Confesso que não é um modelo consensual e também não é fácil de implementar, mas acreditamos profundamente nele.
Queremos que todas as pessoas tenham acesso à programação, independentemente da sua condição económica. Ainda por cima, tratando-se de um projeto que beneficia de financiamento público, faz sentido que a comunidade possa usufruir dele.
Naturalmente, o orçamento continua a ser bastante limitado quando comparado com a dimensão da programação. Grande parte do financiamento provém do Município de Viseu e contamos também com o apoio de algumas entidades privadas. Este ano, infelizmente, não nos foi possível apresentar candidatura à DGArtes devido ao atraso na abertura do respetivo concurso.
Apesar das limitações financeiras, procuramos garantir uma programação diversificada e de qualidade, assegurando não apenas a remuneração dos artistas e das equipas envolvidas, mas toda a complexa logística de doze dias de festival.
O donativo consciente representa, por isso, uma forma de envolver o público e de o responsabilizar pela sustentabilidade do projeto. Quem pode contribuir ajuda a garantir que o festival continue a crescer e a manter esta filosofia de acesso livre.
Nos espaços onde existe um ponto de entrada definido, essa sensibilização acontece de forma mais direta e os visitantes aderem com bastante naturalidade. Já em locais ao ar livre, como o Parque Aquilino Ribeiro, onde existem vários acessos, essa comunicação torna-se mais difícil. Ainda assim, é um caminho que temos vindo a construir ao longo dos últimos anos e acreditamos que a consciência do público tem vindo a crescer.
Acredita que o festival tem conseguido conquistar pessoas que, à partida, não são apreciadoras de jazz?
Sem qualquer dúvida.
Muito desse trabalho resulta precisamente das iniciativas de mediação de públicos que desenvolvemos desde a primeira edição. Ao longo destes catorze anos fomos criando uma relação de proximidade com a comunidade e as pessoas passaram a conhecer melhor a identidade do festival.
Hoje, muitos visitantes chegam já com a confiança de que vão encontrar propostas diferentes e que vale a pena deixar-se surpreender.
Nem todas as pessoas se identificam imediatamente com todos os concertos, e isso é perfeitamente natural. Mas a diversidade da programação faz com que, ao longo do festival, cada um encontre momentos com os quais se identifica mais.
Ao mesmo tempo, essa diversidade abre portas à descoberta. Muitas pessoas acabam por contactar pela primeira vez com determinadas linguagens musicais e regressam nas edições seguintes precisamente porque perceberam que o jazz pode assumir formas muito diferentes daquelas que imaginavam.
É essa curiosidade que procuramos despertar e sentimos que o público tem respondido de forma muito positiva.
Para terminar, que mensagem gostaria de deixar a quem está a pensar visitar Viseu entre os dias 8 e 19 de julho?
Gostaria de convidar todas as pessoas a aproveitarem esta oportunidade para conhecerem Viseu e, ao mesmo tempo, viverem uma experiência cultural muito rica.
É um território com um património histórico e natural extraordinário, uma excelente gastronomia e muitos espaços que merecem ser visitados.
Ao longo destes dias, o festival oferece uma programação muito diversificada, que inclui concertos, oficinas, rádio ao vivo, intervenções em espaço público e várias outras iniciativas pensadas para públicos de todas as idades.
Mais do que um festival de jazz, o Que Jazz É Este? é um convite à descoberta da música, dos artistas, da cidade e das pessoas.
Esperamos por todos entre os dias 8 e 19 de julho, em Viseu.
Mais do que um festival dedicado ao jazz, o Que Jazz É Este? continua a afirmar-se como um espaço de encontro entre artistas, públicos e comunidades, onde a música ultrapassa os palcos e se transforma numa verdadeira ferramenta de proximidade, inclusão e descoberta. Ao longo de doze dias, Viseu volta a abrir as portas à criatividade, à diversidade e à partilha, convidando todos a viver uma experiência cultural única. Como sublinha Ana Bento, o desafio mantém-se o mesmo desde a primeira edição: levar o jazz ao encontro das pessoas e mostrar que há sempre um novo caminho para descobrir dentro deste universo musical.
