Entrevista com Ally Garrido

29-07-2026

A voz marcante de Amy Winehouse continua a ecoar em palcos de todo o mundo, e em Portugal há quem mantenha vivo esse legado com respeito, autenticidade e uma interpretação muito pessoal. É o caso de Ally Garrido, cantora de reconhecido percurso, que há cerca de três anos e meio abraçou o desafio de criar um tributo dedicado à inesquecível artista britânica.

Com uma carreira de mais de duas décadas, Ally divide-se entre os seus projetos originais e este espetáculo que celebra uma das vozes mais influentes da música contemporânea. Nesta conversa, fala da inspiração que encontrou em Amy Winehouse, da paixão pelo jazz, da liberdade que encontra em palco e dos novos projetos que tem em mãos.

No próximo dia 15 de agosto, o tributo sobe ao palco do Rucla, em Portimão, para um concerto intimista que promete revisitar os grandes êxitos da cantora britânica, sem esquecer algumas pérolas menos conhecidas do álbum Frank. Antes desse encontro com o público, estivemos à conversa com Ally Garrido para descobrir a artista por detrás da voz.


Para quem ainda não conhece este projeto, como nasceu a ideia de criar um tributo à Amy Winehouse?

O projeto nasceu há cerca de três anos e meio. Houve várias pessoas que me incentivaram a criar este tributo, porque diziam que existiam algumas semelhanças entre mim e a Amy, tanto a nível vocal como físico. Acabei por reunir a banda e decidimos avançar com este desafio, que tem sido uma experiência muito gratificante.

A Amy Winehouse tinha uma voz muito própria e uma personalidade inconfundível. O que mais te fascina nela enquanto artista?

Sem dúvida, a irreverência. Hoje em dia, quando ouvimos um artista, normalmente já temos uma ideia do que vamos encontrar musicalmente. Com a Amy isso nunca acontecia. Ela surpreendia sempre.

Como interpreto o seu repertório, procuro conhecer bem a sua história. Vejo documentários, entrevistas e filmes para compreender melhor quem ela era, tanto enquanto artista como pessoa. E quanto mais descubro sobre ela, mais me fascina essa personalidade única, completamente fora do comum.

Há quem diga que a Amy mudou para sempre a forma como olhamos para o soul, o jazz e o R&B. Concordas? O que achas que ela trouxe de novo à música?

Concordo plenamente. Acho que ela trouxe algo muito difícil de encontrar nos dias de hoje: conseguiu transportar o improviso, tão característico do jazz, para o universo da pop e do R&B.

Misturou diferentes influências de uma forma muito natural e criou uma identidade própria. Hoje em dia, muitas cantoras continuam a vê-la como uma referência precisamente por essa capacidade de unir vários mundos musicais sem perder autenticidade.

Interpretar temas da Amy Winehouse não deve ser tarefa fácil. Qual é o maior desafio de subir ao palco com este repertório?

Subir ao palco já faz parte da minha vida. Sou cantora há cerca de 25 anos e tenho tido o privilégio de atuar em inúmeros festivais e palcos, quer com este tributo, quer com o meu projeto original, o Ally Garrido Collective.

Neste espetáculo somos seis músicos e o maior desafio passa por conseguir que tudo funcione em perfeita sintonia. As músicas da Amy são exigentes, tanto a nível harmónico como melódico, e é preciso muito trabalho de equipa para respeitar a essência dos temas e, ao mesmo tempo, interpretá-los com naturalidade.

Há alguma música do espetáculo que tenha um significado especial para ti?

Sim, "Take the Box".

Apesar de Back to Black ser o álbum mais conhecido da Amy, tenho um carinho muito especial por Frank, o seu primeiro disco. É um trabalho onde se nota claramente a forte influência do jazz e onde a qualidade vocal dela já era extraordinária.

"Take the Box" tornou-se uma música muito especial para mim, porque me identifico bastante com a sua mensagem. Sempre que chega esse momento do concerto, sinto uma ligação muito forte à interpretação e desfruto verdadeiramente de a cantar.

Estás acompanhada por excelentes músicos. Fala-nos um pouco da banda que partilha o palco contigo.

Tenho a felicidade de estar rodeada de músicos extraordinários. Neste momento, o projeto conta com um sexteto composto por profissionais de enorme qualidade e experiência.

O Fernando Esteves é o guitarrista que normalmente me acompanha, embora este ano tenha sido substituído em alguns espetáculos. No baixo tenho o Bonnie Godoy, uma pessoa por quem tenho uma enorme admiração. Costumo dizer que é como um tio para mim. É alguém com muita experiência, a quem recorro frequentemente para pedir conselhos. É, sem dúvida, o meu braço direito neste projeto.

Na bateria contamos com a Drica e com o Leo Tomis, dois excelentes músicos que se vão alternando conforme os espetáculos. Nos sopros temos o trompetista David Alzamora e, nas teclas, o Corey Smith, que está comigo desde o início desta aventura.

Tanto o Corey como o Bonnie desempenham um papel muito importante na coordenação musical da banda e têm sido fundamentais para o crescimento deste projeto. No fundo, todos contribuem para que cada concerto seja especial.

A Amy Winehouse deixou-nos demasiado cedo, mas continua a inspirar músicos em todo o mundo. Porque achas que o seu legado continua tão atual?

Precisamente pela sua irreverência e autenticidade. Nos dias de hoje é difícil encontrar artistas verdadeiramente diferentes, capazes de criar algo completamente seu.

A Amy conseguiu fazê-lo em muito pouco tempo. Criou uma identidade musical única e deixou uma marca que continua a inspirar gerações de músicos. Penso que é precisamente por isso que o seu legado permanece tão vivo e continuará a atravessar gerações.

Para além deste tributo, tens também um percurso próprio enquanto cantora. Como nasceu a tua paixão pela música?

Tudo começou graças à minha avó. Fui criada por ela e lembro-me perfeitamente de acordar todos os dias ao som dos discos de vinil que colocava a tocar na sala.

Enquanto ouvíamos música, explicava-me quem eram aqueles artistas e contava-me um pouco das suas histórias. Foi assim que nasceu a minha curiosidade e, pouco a pouco, comecei a apaixonar-me pela música.

Depois, já sozinha no meu quarto, passava horas a cantar. A minha avó aproximava-se e dizia-me, com um sorriso: "Parece que estou a ouvir a rádio. És tu ou é mesmo a rádio?" Na altura ficava envergonhada, mas hoje percebo que era a forma carinhosa que ela tinha de me incentivar a seguir este caminho.

Tens vindo também a apostar em temas originais. O que sentes quando cantas as tuas próprias músicas, comparando com a interpretação de grandes clássicos?

A grande diferença está na liberdade artística. Ao longo dos anos, todos os cantores acabam por desenvolver uma forma muito própria de interpretar as músicas e isso acontece também comigo.

Quer esteja a cantar um clássico, um original ou um tema da Amy Winehouse, procuro sempre deixar a minha identidade. Há sempre uma marca pessoal, uma espécie de impressão digital, que faz parte daquilo que sou enquanto cantora.

É essa autenticidade que tento levar para todos os projetos em que participo e para todas as músicas que interpreto.

Costumas passar por vários estilos musicais nos teus espetáculos. Há algum género onde te sintas verdadeiramente em casa?

Sem qualquer dúvida: o jazz.

Gosto de cantar vários estilos, desde fado à bossa nova, passando pela pop, pelo R&B e pelo soul. No entanto, é no jazz que me sinto verdadeiramente em casa. É um género que me dá liberdade para improvisar, explorar diferentes interpretações e reinventar cada atuação. Nenhum concerto tem de ser igual ao anterior, e essa liberdade criativa é aquilo que mais me apaixona.

Podemos esperar novidades em breve? Há novos originais ou projetos a caminho?

Sim, felizmente há vários projetos em andamento.

Um deles é o regresso do Ally Garrido Collective, um quinteto que voltou recentemente aos palcos, nomeadamente no Lota Cool Market, em Portimão.

Paralelamente, estou também a preparar um novo projeto chamado Ally Jazz & Soul, dedicado aos grandes clássicos do jazz e do soul. Em breve estaremos presentes no Festival da Sardinha e estou muito entusiasmada com tudo o que aí vem.

Enquanto cantora, o meu maior desejo é continuar a cantar, experimentar repertórios diferentes, subir a novos palcos e desafiar-me constantemente. Tenho tido essa oportunidade graças às pessoas com quem trabalho e às entidades que acreditam nos meus projetos.

No próximo dia 15 de agosto vais atuar em Portimão. O que pode o público esperar deste espetáculo?

Será um concerto bastante diferente dos festivais habituais. Trata-se de um espetáculo mais intimista, onde teremos tempo para apresentar um repertório mais alargado.

O concerto terá lugar no restaurante Rucla, em Portimão, e será interpretado pelo sexteto que me acompanha neste tributo.

Naturalmente, não faltarão os grandes êxitos de Amy Winehouse, mas o público poderá também ouvir temas menos conhecidos, sobretudo do álbum Frank, que raramente fazem parte dos concertos deste género.

Além disso, preparámos algumas surpresas especiais para essa noite, pelo que acredito que será uma experiência muito especial para quem nos vier ouvir.

Convido todos a juntarem-se a nós no dia 15 de agosto. Tenho a certeza de que será uma noite inesquecível para todos os admiradores da música de Amy Winehouse.

Para terminar, se a Amy Winehouse pudesse assistir ao teu espetáculo, o que gostarias que ela sentisse ao ouvir este tributo?

A primeira coisa que faria seria convidá-la a subir ao palco connosco.

Seria uma enorme honra partilhar esse momento com uma artista que tanto admiro e cuja música estudo e interpreto com enorme respeito. Gostava que sentisse que este tributo nasce da admiração genuína pelo seu trabalho e pelo legado extraordinário que deixou.

Se ela pudesse ouvir-nos, espero que reconhecesse o carinho, a dedicação e o respeito que colocamos em cada canção. Esse seria, para mim, o maior elogio que poderia receber.


Com uma carreira consolidada e vários projetos em desenvolvimento, Ally Garrido continua a afirmar-se como uma das vozes nacionais mais versáteis, conciliando os seus originais com um tributo sentido a Amy Winehouse. Uma homenagem que promete emocionar os fãs da cantora britânica e que poderá ser vista ao vivo no próximo dia 15 de agosto, no Rucla, em Portimão.

Foto: Direitos Reservados

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