Entrevista com Alex Liberalli

25-06-2026

Ao longo de 33 anos de carreira, Alex Liberalli construiu um percurso marcado pela versatilidade, passando por diferentes projetos e estilos musicais sem nunca perder a paixão pelo palco. Depois de integrar bandas como Big Fat Mama, Monstrumal, Dona Carioca e Trio Pagú, a cantora dá agora um passo há muito aguardado: a edição do seu primeiro álbum a solo.

Montanha Russa 33 é mais do que um disco. É um retrato pessoal de uma artista que decidiu revisitar a sua história, reinterpretar temas que marcaram o seu percurso e assumir, finalmente, a identidade musical que procurou durante tantos anos. Entre o funk rock, a intensidade das emoções e uma criatividade sem limites, Alex Liberalli apresenta um trabalho que espelha a maturidade de quem nunca deixou de evoluir.

Nesta conversa, a artista fala-nos da inspiração por detrás do álbum, da cumplicidade com os músicos que a acompanharam nesta aventura, da descoberta da sua verdadeira voz e dos sonhos que continuam bem vivos. Uma entrevista onde a autenticidade, a paixão pela música e a liberdade criativa dão o tom a um novo capítulo da sua carreira.


Depois de 33 anos de carreira, porque sentiste que este era o momento certo para lançar o teu primeiro álbum a solo?

Na verdade, queria lançar um trabalho quando completasse 30 anos de carreira, mas o tempo foi passando e acabei por adiar esse objetivo. Depois pensei: "Vai ser aos 33". Esse número acabou por ganhar um significado muito especial para mim.

Ao longo destes anos gravei vários álbuns com bandas como os Big Fat Mama, Monstro Mau e Dona Carioca. Existem canções desses projetos que marcaram profundamente a minha vida e senti que estava na altura de lhes dar uma nova vida, agora através da minha própria identidade artística.

Neste disco regravei alguns desses temas, mas com novos arranjos, novos músicos e uma abordagem diferente. Foi também o momento em que percebi que finalmente sabia quem era enquanto artista. Durante muitos anos cantei estilos muito distintos e nunca conseguia encontrar verdadeiramente a minha identidade musical.

Hoje sinto que isso mudou. Este álbum representa exatamente quem eu sou neste momento. E, curiosamente, acredito que o próximo será completamente diferente, porque eu própria estou sempre em constante transformação. Nunca fui uma pessoa de rotinas e isso acaba por refletir-se também na minha música.

O álbum chama-se Montanha Russa 33. O que inspirou este título?

O número 33 representa, naturalmente, os meus 33 anos de carreira. Já "Montanha Russa" traduz aquilo que tem sido a minha vida.

Sempre vivi intensamente, entre altos e baixos, tanto a nível pessoal como profissional. Nunca fui uma pessoa previsível. A minha vida muda constantemente, os meus estados de espírito também, e isso faz parte da minha forma de estar.

Achei que este título descrevia perfeitamente esse percurso. É um disco que celebra a carreira, mas também toda essa intensidade emocional que me acompanha.

Como foi revisitar canções que já faziam parte da tua história e dar-lhes uma nova vida?

Foi uma experiência muito enriquecedora.

Ao voltar a estas músicas, também revisitei momentos importantes da minha vida. Hoje consigo compreender muitas situações para as quais, na altura, não tinha respostas.

Foi quase um reencontro comigo própria.

Além disso, adoro estas canções. Grande parte delas foi composta pelo Budda Guedes, que escreveu praticamente todas as músicas e letras do álbum, sendo que em duas delas assino a composição em parceria com ele.

Cada tema escolhido faz parte da minha história e continua a tocar-me profundamente. Foi um enorme prazer voltar a interpretá-los.

O funk rock foi o estilo escolhido para este trabalho. O que te atrai neste universo musical?

Talvez seja a intensidade.

Existe uma força muito grande na forma como interpreto estas músicas e isso combina perfeitamente com o funk rock. Não falo apenas do funk contemporâneo, mas também daquela influência mais clássica de James Brown, misturada com outras sonoridades e até com alguma da energia do funk brasileiro.

Identifico-me muito com essa linguagem musical porque transmite liberdade, atitude e autenticidade.

É um lado meu que não aparece, por exemplo, no Trio Pagu, onde interpreto bossa nova. Aqui posso explorar uma faceta mais crua, mais intensa, quase como um grito de liberdade.

É difícil explicar, mas sinto que este estilo faz parte da minha personalidade.

Existe alguma faixa do álbum que seja particularmente especial para ti?

Na verdade, várias.

"Continuo a Acreditar" é uma delas. É uma canção sobre alguém que continua a acreditar numa relação, mesmo sabendo que a outra pessoa nunca vai mudar. É um tema com o qual me identifico bastante.

Outra música muito importante é "Todo Errado". Curiosamente, o Budda Guedes escreveu-a inspirado em mim. Costumava dizer que eu era "toda errada", mas mais tarde descobri que tenho TDAH.

Essa descoberta ajudou-me a compreender muitas coisas sobre mim. Percebi que não era "errada"; simplesmente tenho uma forma diferente de funcionar.

Na gravação desta música quis criar um efeito especial, fazendo a voz deslocar-se constantemente entre o canal direito e o esquerdo. Foi uma forma simbólica de representar esse universo mental e, ao mesmo tempo, criar uma experiência diferente para quem ouve.

Também destaco "Tudo o Que Quiser", o primeiro single do álbum. É uma canção que fala da vontade de viver plenamente, de experimentar tudo aquilo que a vida nos oferece e de acreditar que somos capazes de ir sempre mais longe.

No fundo, cada música deste disco representa uma parte muito importante da minha história.

Este álbum representa também uma celebração da tua maturidade artística. Hoje vives a música de forma diferente?

Completamente.

Entrei na música por necessidade. Na altura precisava de trabalhar e surgiu a oportunidade de integrar uma banda de baile.

Nunca imaginei que seria cantora.

Os meus pais eram músicos e cresci rodeada pela música, mas o meu sonho era seguir outro caminho. Entretanto, percebi que o palco fazia parte de mim.

Comecei como bailarina e, pouco tempo depois, passei para o lugar de cantora. Primeiro porque precisava financeiramente, mas rapidamente descobri que cantar me fazia verdadeiramente feliz.

Ao longo destes anos participei em inúmeros projetos e gravei vários discos, mas só agora sinto que encontrei a minha identidade artística.

Hoje já não canto para provar nada a ninguém. Canto porque isso me faz feliz.

Essa, para mim, é a verdadeira maturidade.

Neste álbum rodeaste-te de músicos de grande prestígio, como Budda Guedes, Rui Rodrigues, Vasco Moura, Aury Santos, Vítor Bacalhau e João Andresen. Como foi trabalhar com todos eles?

Foi um enorme privilégio.

Tenho muita sorte nas pessoas com quem me cruzo, mas também acredito que devemos procurar rodear-nos de gente boa, tanto a nível humano como artístico. Todos eles são músicos extraordinários, mas, acima de tudo, são pessoas incríveis.

Para mim, a música faz-se de cumplicidade. Não basta tocar bem. É preciso existir uma ligação entre as pessoas, e foi exatamente isso que aconteceu durante a gravação deste álbum.

Com o Budda Guedes existe uma relação muito especial. Estamos casados há 20 anos e tocamos juntos há quase 30. Naturalmente, há uma cumplicidade diferente. Além disso, considero-o um compositor absolutamente brilhante. Apesar de ser muito reconhecido pelo blues, é um músico extremamente versátil e criativo.

O Rui Rodrigues participou na bateria em "Acabou". Conhecemo-nos há quase três décadas e já trabalhámos juntos nos Big Fat Mama e nos Dona Carioca.

O Vítor Bacalhau aceitou o convite para gravar o solo de "Olhando para o Céu", enquanto João Andresen participou em "Tudo o Que Quiser". O Vasco Moura, algarvio de enorme talento, também deu um contributo muito importante para este trabalho.

O Aury Santos, com quem continuo a trabalhar no Trio Pagú, trouxe igualmente muito da sua experiência.

No final, tudo aconteceu de forma muito natural. Sentimo-nos quase como uma família, e isso nota-se no resultado final.

Depois de tantos anos de carreira, ainda existem sonhos por concretizar?

Muitos.

Este álbum é apenas o começo.

Tenho imensas ideias e continuo a sentir uma enorme vontade de experimentar novas sonoridades. Não sou uma pessoa que acorde sempre da mesma forma. Todos os dias descubro novas inspirações e isso faz parte da minha personalidade.

Neste momento estou muito concentrada na apresentação de Montanha Russa 33, com vários concertos já agendados.

Ao mesmo tempo, continuo a trabalhar com o Trio Pagú num novo disco, bastante diferente daquilo que temos feito até agora.

Enquanto tiver vontade de criar, vou continuar a fazer música.

Vivemos numa época em que muitas vezes se valoriza apenas a juventude. Que mensagem gostarias de deixar a quem acredita que já é tarde para seguir os seus sonhos?

Nunca é tarde.

Enquanto estivermos vivos, há sempre tempo para concretizar sonhos.

A idade nunca deveria ser um obstáculo.

Acredito que as gerações mais novas têm hoje uma maior abertura para aprender com quem já viveu mais. Existe uma troca muito bonita entre experiências diferentes.

A juventude não está na idade.

Está na liberdade, na curiosidade e na vontade de continuar a aprender e a criar.

Claro que existem limitações físicas naturais, mas isso nunca nos deve impedir de perseguir aquilo que realmente nos faz felizes.

Enquanto o nosso espírito estiver desperto, nunca é tarde para começar algo novo.

Quais são os momentos mais marcantes que guardas destas mais de três décadas dedicadas à música?

Acima de tudo, guardo o amor.

O amor do público.

O carinho dos músicos com quem trabalhei.

A amizade que nasceu ao longo destes anos.

Mas guardo, sobretudo, aquilo que sinto quando subo ao palco.

Existe uma paz muito especial nesse momento.

Partilhar emoções através da música é um privilégio enorme.

E quando sentimos que o público recebe aquilo que estamos a transmitir, não existe recompensa maior.

Este disco acaba por representar um balanço da tua vida. O que dirias hoje à Alex que começou a cantar há 33 anos?

Diria apenas:

"Calma. Tudo acontece no momento certo."

Também lhe diria para continuar.

Mesmo sabendo que nunca fui propriamente uma pessoa calma.

Mas diria para acreditar no caminho que escolheu, porque a vida acaba sempre por recompensar quem não desiste.

O lançamento deste álbum representa um ponto de chegada ou o início de uma nova etapa?

Sem dúvida, o início de uma nova fase.

Sinto-me muito mais madura enquanto artista e enquanto pessoa.

Ao longo da vida vamos atravessando várias etapas. A infância, a adolescência, a idade adulta...

Agora sinto que entrei numa fase completamente diferente.

Olho para trás com mais serenidade e consigo perceber muitas coisas que antes não entendia.

Estou a viver este momento com enorme entusiasmo.

É uma fase muito criativa e sinto que ainda tenho muito para oferecer.

Podemos esperar novas composições originais a solo nos próximos discos?

Sem dúvida.

Aliás, já estou a trabalhar nisso.

Ainda não sei exatamente qual será a direção musical do próximo álbum. Pode passar pelo funk rock, pela bossa nova ou até por algo completamente diferente, como spoken word. Não gosto de me limitar a um único estilo.

O meu objetivo é continuar a gravar regularmente. Gostava de lançar um novo disco de um em um ano ou, no máximo, de dois em dois anos. Para mim, criar música é uma necessidade constante.

Depois deste primeiro álbum a solo, como imaginas o teu futuro artístico?

Imagino-o com muita liberdade.

Durante muitos anos procurei descobrir quem era enquanto artista. Hoje sinto que encontrei essa identidade e isso dá-me uma enorme tranquilidade.

Não sinto necessidade de corresponder a expectativas nem de seguir tendências. Quero simplesmente continuar a fazer música que faça sentido para mim.

Se conseguir emocionar quem me ouve, então já valeu a pena.

Que convite deixas aos leitores para descobrirem Montanha Russa 33?

Convido toda a gente a ouvir o álbum com tempo e sem pressas.

As músicas já estão disponíveis nas principais plataformas digitais, como o Spotify e o YouTube. Gostava que as pessoas ouvissem o disco do princípio ao fim e tentassem encontrar-se nas histórias que cada canção conta.

Dou muita importância às letras. Para mim, uma canção só fica completa quando a mensagem consegue tocar quem a escuta.

Musicalmente, é um disco cheio de energia, onde o funk e o rock se cruzam de uma forma muito natural. Acredito que dificilmente alguém conseguirá ficar indiferente.

Neste momento o álbum existe apenas em formato digital. Não senti necessidade de editar um CD, mas confesso que a ideia de lançar uma edição em vinil entusiasma-me bastante. Quem sabe até uma edição em cassete? Nunca se sabe.

O importante é que as pessoas oiçam o disco e descubram a viagem que ele propõe.

Para terminar, que mensagem gostarias de deixar aos teus fãs e a quem tem acompanhado o teu percurso?

Quero agradecer profundamente a todos aqueles que estiveram ao meu lado ao longo destes 33 anos.

Ao público, aos músicos, aos amigos e a todos os que acreditaram em mim em diferentes fases da minha carreira.

Este álbum também lhes pertence.

Espero continuar a partilhar música durante muitos anos e que este seja apenas o primeiro capítulo de uma nova etapa.

Muito obrigada pelo carinho e pelo apoio de sempre.


Depois de 33 anos de carreira, Alex Liberalli prova que nunca é tarde para recomeçar. Montanha Russa 33 não é apenas o seu primeiro álbum a solo; é o reflexo de uma artista que encontrou finalmente a liberdade para se mostrar exatamente como é: intensa, autêntica e sem receio de desafiar convenções.

Num percurso marcado pela versatilidade, pela paixão e pela constante vontade de evoluir, a cantora abre agora um novo capítulo, onde a maturidade artística caminha lado a lado com a irreverência que sempre a caracterizou. Se este disco representa um ponto de partida, o futuro promete continuar a ser uma verdadeira montanha-russa de emoções, criatividade e boa música.

Uma coisa é certa: Alex Liberalli não vive do passado. Aos 33 anos de carreira, olha em frente com a mesma vontade de quem ainda tem muito para cantar, criar e surpreender.

Entrevista: R.C. | Foto: Direitos Reservados

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