Para quem ainda não conhece as 7 Saias, como
descreverias a identidade do grupo?
As 7 Saias
são um grupo de música tradicional e popular portuguesa. O nosso nome tem
origem na tradição da Nazaré e nas famosas sete saias usadas pelas mulheres da
região. Ao longo destes quase 17 anos, temos trabalhado muito para melhorar a
nossa sonoridade e aproximarmo-nos cada vez mais do público.
Tem sido um
percurso feito de pequenos passos, mas sempre com muita dedicação e vontade de
evoluir. Sentimos que crescemos ano após ano, sem nunca perder a nossa
essência.
Quando olham para trás, do que mais se orgulham?
Da nossa
consistência. Nunca sentimos necessidade de seguir modas ou tendências
internacionais apenas porque estão em destaque.
Enquanto
muitos artistas adaptam os seus estilos às correntes do momento, nós preferimos
procurar e recuperar as verdadeiras modas portuguesas, aquelas que fazem parte
da nossa história. Gostamos de trazer memórias ao público, especialmente às
gerações mais velhas, e isso é algo que nos enche de orgulho.
O grupo nasceu com sete mulheres e agora integra
também o Américo Machado. Como foi essa mudança?
Foi uma
mudança muito positiva. Sem desvalorizar todas as pessoas que passaram pelo
projeto ao longo destes anos, o Américo trouxe uma enorme experiência e um profundo
conhecimento da identidade das 7 Saias.
Ele já
colaborava connosco em estúdio e conhecia bem a nossa sonoridade, por isso a
integração aconteceu de forma muito natural.
Além disso,
acreditamos que o talento e o profissionalismo não dependem do género. Hoje
somos seis mulheres e um homem, e isso não altera em nada a essência das 7
Saias.
"Malhão de Sinfães" recupera um tema associado ao
repertório de Amália Rodrigues. Porque escolheram esta canção?
A Amália
Rodrigues está muito presente na música portuguesa e também nos nossos
concertos. Muitas das canções que o público associa à Amália fazem parte da
memória coletiva do país.
Quanto ao
"Malhão de Sinfães", sentíamos que precisávamos de mais um malhão no nosso
repertório. É um tema muito rico, cheio de energia e tradição, que encaixa
perfeitamente na identidade das 7 Saias.
Foi um
encontro natural entre diferentes gerações da música portuguesa.
Como foi adaptar um tema tão tradicional a uma
sonoridade mais contemporânea?
É sempre um
grande desafio, mas também uma experiência muito enriquecedora.
Muitas vezes
o público apenas ouve o resultado final, mas existe todo um trabalho de
pré-produção, experimentação e construção sonora até chegarmos à versão
definitiva.
É um
processo exigente, mas extremamente gratificante.
O público mais jovem tem reagido bem a esta fusão
entre tradição e modernidade?
Sem dúvida.
Ainda
recentemente partilhámos nas nossas redes sociais um vídeo de uma tuna
académica a interpretar o nosso tema "Maneio". Isso demonstra que a música
tradicional também consegue chegar às gerações mais novas.
É verdade
que o nosso público principal continua a ser um público mais maduro, mas graças
às plataformas digitais, às novelas e às redes sociais, temos conseguido
alcançar cada vez mais jovens.
Como nascem os arranjos das 7 Saias?
É um
trabalho muito coletivo.
Estamos
sempre atentos às músicas que surgem, aos temas que marcaram épocas e que
acreditamos merecer uma nova vida. Fazemos uma seleção inicial e depois
trabalhamos em conjunto com a nossa equipa de produção.
O Paquito
Rebelo tem um papel muito importante nesse processo, assim como o produtor
Carlos Castro, que tem colaborado connosco desde "Maneio".
A partir
daí, começamos a desenvolver os arranjos, a trabalhar a parte vocal e a construir
a identidade final de cada tema.
Tornaste-te uma voz muito identificada com o grupo
desde 2015. Como foi assumir esse papel?
Foi um
grande desafio, mas também uma enorme oportunidade.
Hoje estou
mais dedicada do que nunca às 7 Saias. O projeto acabou por crescer também à
volta da minha forma de interpretar e da minha identidade vocal.
Curiosamente,
antes de integrar o grupo, não tinha uma ligação tão forte à música
tradicional. Foi uma descoberta pessoal e artística que me trouxe muita
felicidade.
O que procuram preservar quando reinterpretam temas
tradicionais?
Acima de
tudo, a identidade do projeto.
Queremos
manter a nossa sonoridade, os trajes, a alegria e o espírito de equipa que
sempre nos caracterizaram.
A união
entre todos os elementos é fundamental. É isso que permite que um projeto dure
tantos anos.
Também
fazemos questão de preservar a qualidade dos espetáculos. Muitas vezes as
pessoas chegam a um concerto sem grandes expectativas e acabam surpreendidas
pela energia e pela entrega que encontram em palco.
Há algum tema tradicional português que ainda sonham
gravar?
Muitos.
Existem
canções extraordinárias do cancioneiro tradicional português que continuam a
inspirar-nos. Também gostávamos de explorar temas de autores como Vitorino ou
Carlos Paião.
Já gravámos
"Barco Negro", por exemplo, que é uma canção de que gosto muito. E há temas
como o "Bailinho da Madeira", que continuam a provocar uma reação incrível
junto do público de todas as idades.
Há algum concerto que tenha ficado especialmente
marcado na memória do grupo?
É difícil
escolher apenas um, mas o concerto na Madeira, no ano passado, foi muito
especial.
Vínhamos de
uma fase extremamente intensa, em pleno mês de agosto, com muitas horas de
viagem e praticamente sem descanso.
Chegámos ao
espetáculo completamente exaustos e pensámos que seria muito difícil. Mas a
energia do público foi tão extraordinária que tudo mudou.
Foi um
daqueles concertos que nos recordam porque vale a pena todo o esforço.
Sentem diferenças entre atuar em Portugal e junto das
comunidades portuguesas no estrangeiro?
Sim, mas são
diferenças muito positivas.
Os
portugueses que vivem fora do país sentem uma enorme ligação às suas raízes e
recebem a música tradicional com uma emoção muito especial.
Lembro-me de
ver pessoas em Paris a dançar o malhão de uma forma absolutamente contagiante.
É emocionante perceber como a nossa cultura continua viva além-fronteiras.
Depois de "Malhão de Sinfães", o que podemos esperar
das 7 Saias em 2026?
Temos uma
novidade muito importante.
Fomos convidadas
para integrar um novo programa da RTP1, em horário nobre, onde iremos atuar ao
vivo. Foi uma experiência fantástica e estamos muito felizes por fazer parte
deste projeto.
O programa
estreia no final de maio e acreditamos que será uma excelente oportunidade para
levar a nossa música a ainda mais pessoas.
Que mensagem gostarias de deixar aos nossos leitores e
a todos os que apoiam a música tradicional portuguesa?
Antes de
mais, um enorme obrigado.
Manter um
projeto durante quase 17 anos só é possível graças ao carinho e ao apoio do
público.
Convido
todos a ouvirem as 7 Saias nas plataformas digitais, a seguirem-nos nas redes
sociais e a assistirem aos nossos concertos.
Continuem a
apoiar a música portuguesa, porque é ela que ajuda a preservar a nossa
identidade e as nossas tradições.