Entrevista com 7 Saias

21-05-2026

Com quase 17 anos de carreira, as 7 Saias afirmaram-se como um dos grupos mais representativos da música popular portuguesa. Com uma identidade assente na valorização das tradições, dos costumes e das sonoridades que fazem parte da memória coletiva do país, o grupo continua a conquistar gerações de público. À conversa para o Som Direto, a vocalista Filipa Ruas falou sobre o percurso da banda, a importância da autenticidade, o novo single "Malhão de Sinfães" e os projetos que marcam 2026.


Para quem ainda não conhece as 7 Saias, como descreverias a identidade do grupo?

As 7 Saias são um grupo de música tradicional e popular portuguesa. O nosso nome tem origem na tradição da Nazaré e nas famosas sete saias usadas pelas mulheres da região. Ao longo destes quase 17 anos, temos trabalhado muito para melhorar a nossa sonoridade e aproximarmo-nos cada vez mais do público.

Tem sido um percurso feito de pequenos passos, mas sempre com muita dedicação e vontade de evoluir. Sentimos que crescemos ano após ano, sem nunca perder a nossa essência.

Quando olham para trás, do que mais se orgulham?

Da nossa consistência. Nunca sentimos necessidade de seguir modas ou tendências internacionais apenas porque estão em destaque.

Enquanto muitos artistas adaptam os seus estilos às correntes do momento, nós preferimos procurar e recuperar as verdadeiras modas portuguesas, aquelas que fazem parte da nossa história. Gostamos de trazer memórias ao público, especialmente às gerações mais velhas, e isso é algo que nos enche de orgulho.

O grupo nasceu com sete mulheres e agora integra também o Américo Machado. Como foi essa mudança?

Foi uma mudança muito positiva. Sem desvalorizar todas as pessoas que passaram pelo projeto ao longo destes anos, o Américo trouxe uma enorme experiência e um profundo conhecimento da identidade das 7 Saias.

Ele já colaborava connosco em estúdio e conhecia bem a nossa sonoridade, por isso a integração aconteceu de forma muito natural.

Além disso, acreditamos que o talento e o profissionalismo não dependem do género. Hoje somos seis mulheres e um homem, e isso não altera em nada a essência das 7 Saias.

"Malhão de Sinfães" recupera um tema associado ao repertório de Amália Rodrigues. Porque escolheram esta canção?

A Amália Rodrigues está muito presente na música portuguesa e também nos nossos concertos. Muitas das canções que o público associa à Amália fazem parte da memória coletiva do país.

Quanto ao "Malhão de Sinfães", sentíamos que precisávamos de mais um malhão no nosso repertório. É um tema muito rico, cheio de energia e tradição, que encaixa perfeitamente na identidade das 7 Saias.

Foi um encontro natural entre diferentes gerações da música portuguesa.

Como foi adaptar um tema tão tradicional a uma sonoridade mais contemporânea?

É sempre um grande desafio, mas também uma experiência muito enriquecedora.

Muitas vezes o público apenas ouve o resultado final, mas existe todo um trabalho de pré-produção, experimentação e construção sonora até chegarmos à versão definitiva.

É um processo exigente, mas extremamente gratificante.

O público mais jovem tem reagido bem a esta fusão entre tradição e modernidade?

Sem dúvida.

Ainda recentemente partilhámos nas nossas redes sociais um vídeo de uma tuna académica a interpretar o nosso tema "Maneio". Isso demonstra que a música tradicional também consegue chegar às gerações mais novas.

É verdade que o nosso público principal continua a ser um público mais maduro, mas graças às plataformas digitais, às novelas e às redes sociais, temos conseguido alcançar cada vez mais jovens.

Como nascem os arranjos das 7 Saias?

É um trabalho muito coletivo.

Estamos sempre atentos às músicas que surgem, aos temas que marcaram épocas e que acreditamos merecer uma nova vida. Fazemos uma seleção inicial e depois trabalhamos em conjunto com a nossa equipa de produção.

O Paquito Rebelo tem um papel muito importante nesse processo, assim como o produtor Carlos Castro, que tem colaborado connosco desde "Maneio".

A partir daí, começamos a desenvolver os arranjos, a trabalhar a parte vocal e a construir a identidade final de cada tema.

Tornaste-te uma voz muito identificada com o grupo desde 2015. Como foi assumir esse papel?

Foi um grande desafio, mas também uma enorme oportunidade.

Hoje estou mais dedicada do que nunca às 7 Saias. O projeto acabou por crescer também à volta da minha forma de interpretar e da minha identidade vocal.

Curiosamente, antes de integrar o grupo, não tinha uma ligação tão forte à música tradicional. Foi uma descoberta pessoal e artística que me trouxe muita felicidade.

O que procuram preservar quando reinterpretam temas tradicionais?

Acima de tudo, a identidade do projeto.

Queremos manter a nossa sonoridade, os trajes, a alegria e o espírito de equipa que sempre nos caracterizaram.

A união entre todos os elementos é fundamental. É isso que permite que um projeto dure tantos anos.

Também fazemos questão de preservar a qualidade dos espetáculos. Muitas vezes as pessoas chegam a um concerto sem grandes expectativas e acabam surpreendidas pela energia e pela entrega que encontram em palco.

Há algum tema tradicional português que ainda sonham gravar?

Muitos.

Existem canções extraordinárias do cancioneiro tradicional português que continuam a inspirar-nos. Também gostávamos de explorar temas de autores como Vitorino ou Carlos Paião.

Já gravámos "Barco Negro", por exemplo, que é uma canção de que gosto muito. E há temas como o "Bailinho da Madeira", que continuam a provocar uma reação incrível junto do público de todas as idades.

Há algum concerto que tenha ficado especialmente marcado na memória do grupo?

É difícil escolher apenas um, mas o concerto na Madeira, no ano passado, foi muito especial.

Vínhamos de uma fase extremamente intensa, em pleno mês de agosto, com muitas horas de viagem e praticamente sem descanso.

Chegámos ao espetáculo completamente exaustos e pensámos que seria muito difícil. Mas a energia do público foi tão extraordinária que tudo mudou.

Foi um daqueles concertos que nos recordam porque vale a pena todo o esforço.

Sentem diferenças entre atuar em Portugal e junto das comunidades portuguesas no estrangeiro?

Sim, mas são diferenças muito positivas.

Os portugueses que vivem fora do país sentem uma enorme ligação às suas raízes e recebem a música tradicional com uma emoção muito especial.

Lembro-me de ver pessoas em Paris a dançar o malhão de uma forma absolutamente contagiante. É emocionante perceber como a nossa cultura continua viva além-fronteiras.

Depois de "Malhão de Sinfães", o que podemos esperar das 7 Saias em 2026?

Temos uma novidade muito importante.

Fomos convidadas para integrar um novo programa da RTP1, em horário nobre, onde iremos atuar ao vivo. Foi uma experiência fantástica e estamos muito felizes por fazer parte deste projeto.

O programa estreia no final de maio e acreditamos que será uma excelente oportunidade para levar a nossa música a ainda mais pessoas.

Que mensagem gostarias de deixar aos nossos leitores e a todos os que apoiam a música tradicional portuguesa?

Antes de mais, um enorme obrigado.

Manter um projeto durante quase 17 anos só é possível graças ao carinho e ao apoio do público.

Convido todos a ouvirem as 7 Saias nas plataformas digitais, a seguirem-nos nas redes sociais e a assistirem aos nossos concertos.

Continuem a apoiar a música portuguesa, porque é ela que ajuda a preservar a nossa identidade e as nossas tradições.


Num panorama musical cada vez mais globalizado, as 7 Saias continuam a provar que a tradição portuguesa tem lugar no presente e no futuro. Com autenticidade, dedicação e respeito pelas raízes culturais do país, o grupo mantém viva uma herança que atravessa gerações. E, pelo entusiasmo demonstrado por Filipa Ruas, fica claro que a história das 7 Saias ainda tem muitos capítulos para escrever.

Foto: Direitos Reservados

O cantor e compositor português Daniel Galvão está de volta com "Lima Limão", o novo single já disponível em todas as plataformas digitais. Inspirado por sonoridades de Funk, Jazz, MPB e Gospel afro-americano, o tema apresenta uma fusão sofisticada entre groove, sensualidade e experimentação sonora.

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